A denúncia partiu de uma conta de Facebook de moradores de Portimão. Teriam sido detetados casos de hepatite A na EB1 Coca Maravilhas, uma situação que estava a gerar preocupação em alguns pais que acusaram a escola básica de “encobrir” o que se estava a passar. “Porquê este segredo todo? Porque não confirmam que há casos?”, desabafava uma mãe numa publicação. Ao Observador, a direção do agrupamento confirma que foram identificados casos entre a comunidade escolar. No total, quatro alunos estão infetados, detalha a Direção-Geral da Saúde (DGS), que explica que a transmissão “ocorreu no ambiente familiar.”
Ana Alves, diretora do Agrupamento de Escolas Eng.º Nuno Mergulhão, a que pertence a EB1 Coca Maravilhas, revelou que foi informada a 21 de fevereiro de um primeiro caso de doença infetocontagiosa que veio a ser identificado como hepatite A, uma infeção aguda do fígado provocada pelo vírus VHA. A diretora explica que no mesmo dia foram colocados no portão da escola avisos para informar a comunidade escolar, mas alguns pais consideram que não foi o suficiente.
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“Esclarece-se a comunidade da Escola Básica Coca Maravilhas que, ao contrário da informação que circula nas redes sociais, não há registo de nenhum surto na escola. Apenas foi identificado um caso de doença infetocontagiosa num aluno que não frequenta o estabelecimento desde o dia 11/02/2025. Todas as ações tomadas constituem-se apenas como medidas preventivas”, lê-se no cartaz, que não refere concretamente que se tratava de um caso de hepatite A ou que medidas foram tomadas.
De acordo com a DGS, desde o início de fevereiro de 2025 foram detetados sete casos de hepatite A na região do Algarve, todos com “relação de parentesco entre si”. “Destes 7 casos notificados, os 4 casos mais recentes são crianças que frequentam o mesmo estabelecimento escolar, em Portimão. Estão clinicamente estáveis, não internados, e em evicção escolar”, revelou a entidade de saúde numa resposta escrita ao Observador.
DGS acompanha a situação em permanência
Os primeiros relatos sobre supostos casos de hepatite A na escola básica começaram por ser partilhados por pais nas redes sociais na semana passada. No dia 17 de março uma mãe escrevia no Facebook que a direção “não informa do surto de Hepatite que lá anda, e intimida funcionários de não o poderem transmitir até mesmo a professores.” Questionada num primeiro momento pelo Observador sobre se existia um surto, quando fora detetado, a origem, o número de alunos infetados e onde estavam a ser acompanhados, a diretora do agrupamento garantiu apenas que não existia um surto. “Uma vez que as suas questões prendem-se com um surto que não confirmo, não tenho como responder às perguntas seguintes”, respondia.
Num email posterior, confrontada pelos dados partilhados pela DGS com o Observador, a diretora esclareceu que, além do primeiro caso de um aluno infetado detetado a 21 de fevereiro estava a par de mais dois. “A saúde pública contacta o agrupamento sempre que tal se justifica e este segue as orientações/procedimentos daquela”, indicava.
Segundo a Direção-Geral da Saúde, que fala em quatro casos de alunos, a transmissão de hepatite A não aconteceu na escola, mas “no ambiente familiar dos casos que residem no mesmo bairro de Portimão, numa área constituída por habitação precária, sem água potável e saneamento“.
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A DGS garante que as autoridades de saúde estão a acompanhar a situação diretamente e em permanência e que foram tomadas “as medidas de saúde necessárias com vista à prevenção de novos contágios”, nomeadamente através do rastreio de contactos, da vacinação e da educação para a saúde. Garante também que, como medida de prevenção, as autoridades de saúde vão oferecer vacinação de prevenção “sempre que necessário a todos os potencialmente expostos.”
O organismo diz ainda que desde o início do surto de hepatite A no Algarve, em agosto de 2024, foram notificados 52 casos nos municípios de Faro, Olhão e Portimão. Desde então foram administradas de forma gratuita 261 vacinas pós-exposição a coabitantes e familiares próximos das pessoas infetadas.
Em declarações ao Observador, o presidente da Associação dos Médicos de Saúde Pública, Bernardo Gomes, nota que não é incomum serem detetados casos de hepatite A durante vários meses, já que as cadeias de transmissão são longas. No entanto, destaca que um surto desta doença é “gerível”: “É algo que se consegue controlar e que não deve despertar grandes preocupações.”
O que é a hepatite A e como se transmite?
A hepatite A é uma infeção aguda do fígado, causada pelo vírus VHA. É “muito contagiosa” e, por vezes, “pode originar surtos com pessoas infetadas durante várias semanas ou até meses”, lê-se na página da Direção-Geral da Saúde. No entanto, “não provoca complicações graves ou danos permanentes” e as pessoas “recuperam completamente.”
Entre os sintomas associados a esta doença inclui-se febre, mal-estar, náuseas, vómitos dor abdominal, falta de apetite, fadiga, urina escura, fezes esbranquiçadas e icterícia (coloração amarelada da pele e dos olhos).
O principal modo de transmissão é por via fecal-oral (contacto de vestígios de fezes com a boca) e através da ingestão de alimentos ou água contaminados, sendo que o vírus também pode ser transmitido através do contacto sexual. A principal forma de prevenir a hepatite A é a vacinação — a vacina contra o VHA está disponível, mas não incluída no Plano Nacional de Vacinação. O contacto com o vírus — seja por infeção ou vacinação — dá imunidade para a vida.
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Ao Observador, o presidente da Associação dos Médicos de Saúde Pública explica que as transmissões de doenças via fecal-oral, como a hepatite A, “não são expectáveis” no contexto do desenvolvimento socioeconómico e das estruturas sanitárias em Portugal. Nota, aliás, que, à semelhança de outros países, Portugal é “vítima do seu sucesso”, já que pela falta de contacto com o vírus as pessoas acabam por não desenvolver imunidade.
Bernardo Gomes lembra que a doença é mais benigna em crianças. “Podem ocorrer algumas complicações, apesar de ser raro”, diz o especialista em saúde pública, acrescentando que na idade adulta “a probabilidade de haver quadros mais graves aumenta.” Segundo a DGS, é habitualmente assintomática em idades inferiores a 6 anos e em crianças mais velhas e adultos provoca, geralmente, doença clínica em mais de 70% dos casos.
Os surtos desta doença podem ser prolongados, como o que no Algarve se iniciou em agosto de 2024. Isso acontece porque a hepatite A tem um período longo de incubação e as cadeias de transmissão “podem demorar muito tempo”, diz Bernardo Gomes. “Pode demorar meses devido ao período de incubação relativamente longo e não havendo um controlo efetivo de todos os contactos e todas as circunstâncias que possam originar a circulação do vírus”, aponta.
O especialista em saúde pública destaca que o controlo da hepatite A passa pela melhoria dos hábitos de higiene no contexto em que possa ter ocorrido o contacto com o vírus e no controlo do consumo de água e de alimentos, caso possam não estar a ocorrer nas melhores condições.