A primeira temporada de André Villas-Boas como presidente do FC Porto não está a ser propriamente um passeio no parque. A equipa principal de futebol está a nove pontos da liderança do Campeonato, eliminada da Taça de Portugal e da Liga Europa, já houve uma mudança de treinador e a morte de Jorge Nuno Pinto da Costa veio reabrir feridas que nunca chegaram a estar fechadas. Ainda assim, e como quase sempre, Villas-Boas mantém o otimismo. 

Na primeira grande entrevista como presidente do FC Porto, ao Jogo e ao Jornal de Notícias e quase um ano depois de vencer Pinto da Costa nas eleições, o antigo treinador voltou a vincar as frágeis condições financeiras em que encontrou o clube. “Chegámos a situações, em novembro, de desespero absoluto. Tínhamos salários em atraso nas modalidades, no futebol, nos funcionários. É preciso ter o enquadramento devido a o respeito por parte dos associados relativamente à situação em que nos encontrávamos. Ainda não podemos dizer que estamos totalmente a salvo, a diferença de uma Liga Europa para uma Liga dos Campeões é fundamental”, atirou, recordando as vendas de Nico González e Galeno no mercado de inverno.

“Se não tivéssemos sido eleitos, o FC Porto seria vendido dentro de um ou dois anos.” Villas-Boas garante que já há “progressão” financeira

“O FC Porto, em abril de 2024, vivia uma situação de calamidade, de liquidez e rotura total. Parece impossível que, em 11 meses, procedemos ao pagamento de 179 milhões de euros do seu passivo. É um passo fundamental para nós, entre pagamentos a clubes, fornecedores, agentes, dívida financeira e algo que nos vai orgulhar mais no futuro, que é a recompra dos direitos televisivos do FC Porto, que estavam antecipados até 2028. No campo financeiro, é uma das grandes vitória desta administração”, acrescentou André Villas-Boas, sendo que esta terça-feira os dragões comunicaram à CMVM o aumento do montante global inicial do empréstimo obrigacionista em curso de 30 para 50 milhões de euros.

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Sobre a próxima temporada, onde o FC Porto vai procurar ultrapassar a questão do “ano zero” do projeto e voltar a lutar de forma clara pelo Campeonato, o presidente dos dragões deixa uma garantia: aconteça o que acontecer, Martín Anselmi será o treinador. “O FC Porto antecipou-se ao que projetamos ser um dos próximos grandes treinadores do futebol europeu. Era um treinador em explosão no futebol internacional e que chegaria à Europa em breve”, explicou, garantindo que será “muito mais intransigente num espírito à FC Porto, que faltou muitas vezes esta época, para rematar determinados jogos”.

Sobre o plantel propriamente dito e o que poderá acontecer no mercado de verão, André Villas-Boas revelou que o FC Porto pretende acionar a cláusula de opção de compra de Nehuén Pérez, que Francisco Conceição “tem todas as condições para voltar” quando terminado o empréstimo à Juventus, que a renovação de Rodrigo Mora está a ser discutida e que uma eventual saída de Diogo Costa vai depender dos “diferentes ‘players’ de mercado, com outra capacidade financeira”.

“Não seremos coniventes com este estado de coisas”: a reflexão de Villas-Boas sobre os problemas no futebol (para dentro e para fora)

“Nós nunca construímos plantéis para sermos terceiros classificados e esta é a situação em que nos encontramos. Falei ao balneário sobre a fé inabalável que tinha nestes jogadores enquanto plantel. Fizemos um grande mercado, construímos um grande plantel, estamos curtos relativamente a objetivos e iremos construir um plantel que nos dê garantias de sucesso. O clube tem margem para discutir amplamente com clubes e jogadores referenciados”, sublinhou.

Ainda na entrevista, André Villas-Boas abriu a porta à possibilidade de construir um pavilhão no centro da cidade do Porto, garantindo que está em conversações com a autarquia, e disse projetar que o clube consiga comprar o terreno do futuro centro de alto rendimento até ao final do mês. Sobre Jorge Nuno Pinto da Costa, o presidente dos dragões revelou ter sido “muito difícil” convencer a família do antigo líder a realizar a homenagem dentro do Estádio do Dragão.

“Compreendo o posicionamento. Escreveu em livro e sempre tive intenções de o respeitar. Custou-me muito ter sido difícil convencer a família para que o presidente passasse os últimos momentos no Estádio do Dragão, porque a verdade é que a cerimónia poderia ter sido ainda mais digna e elevada”, começou por dizer.

“Por ele íamos a pé a Sevilha, a Gelsenkirchen, a Dublin e a Viena”. 2 horas de espera para 12 minutos de emoção que “fizeram Lisboa tremer”

“Penso que honrou o FC Porto e honrou Jorge Nuno Pinto da Costa, mas poderia ter sido muito melhor. Respeito a família e também os desejos do presidente. O que tornou a sua partida ainda emocional foram as declarações de respeito, de amor e toda a emoção que envolveu o memorial, o curto tempo que esteve no Estádio do Dragão e também o relembrar do que foram todas as suas conquistas no FC Porto”, acrescentou, assegurando que nunca teve “o intuito de magoar ou de desprestigiar tudo o que foi atingido pelo presidente”.

Por fim, André Villas-Boas abordou a saída de Sérgio Conceição, considerando que seria “impossível” manter o treinador devido à enorme proximidade com a anterior direção. “Entendo que não quisesse continuar, mas a realidade é que nunca esteve em cima da mesa. Discutimos, não amplamente, mas diria que o suficiente sobre o facto. Deixámos essa conversa para o final e, depois da Taça, fiz questão de o receber em minha casa. Discutimos vários temas, desde logo a sua sucessão, o que naturalmente levou a uma profunda desilusão face à possibilidade de Vítor Bruno o suceder”, atirou, terminando com a ideia de que ainda gostaria de organizar despedidas para o treinador e também para Pepe.

“O Sérgio é um treinador de referência do FC Porto, deixou muitas saudades aos associados pelo seu carisma, pela sua intransigência na defesa dos interesses do FC Porto. Resta-nos honrá-lo. Fiz questão de lhe dizer, como ao Pepe, que para eles há um espaço de ferida também difícil de sarar relativamente à sua saída. Quanto ao Pepe, acho possível haver uma despedida condigna num breve espaço de tempo. Relativamente ao Sérgio, quero e continuarei sempre a elevá-lo, mas gostava muito de o ter aqui e que se despedisse dos sócios do FC Porto de outra forma. Mas compreendo que a rutura e a ferida seja profunda e que isso seja impossível”, concluiu.

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