As relações nunca foram as melhores, o tempo foi fazendo com que piorassem, tornou-se um dado adquirido de que os astros de ambos nunca se iriam cruzar. No entanto, havia uma linha que parecia separar aquilo que são as ligações em termos pessoais e profissionais e a perspetiva mais institucional. Um exemplo disso, como explicaram ao Observador esta segunda-feira, era o acordo tácito que existiria entre Fernando Gomes e Pedro Proença nos novos papéis: por um lado, a FPF era uma das subscritoras da candidatura de Gomes à liderança do Comité Olímpico; por outro, Gomes, que estava de saída de todos os cargos ligados ao futebol em caso de triunfo no COP (como aconteceu), apoiaria Proença para a Comissão Executiva da UEFA.
Isto era o que deveria acontecer. Isto foi aquilo que acabou por não acontecer. E aquilo que parecia ser uma passagem “serena” de pastas acabou por tornar-se num dos casos com mais impacto no plano institucional do futebol português nos últimos anos, com a carta enviada por Fernando Gomes aos 55 líderes de federações inscritas na UEFA a “desaconselhar” o voto em Proença a ser apenas mais um capítulo da “guerra”.
Houve a Operação Mais Valia. Houve a tomada de posse de Gomes no Comité Olímpico que não contou com a presença de Pedro Proença no CCB (por estar a acompanhar as buscas que estavam a decorrer na Cidade do Futebol), tal como a cerimónia de inauguração de uma rua com o seu nome em Oeiras. Houve o email de Proença a todos os funcionários da FPF a aumentar o âmbito da auditoria interna à gestão de Gomes. Houve a suspensão preventiva de quatro diretores no seguimento de uma reunião e dos dados iniciais que foram sendo conhecidos sobre os respetivos procedimentos de funcionamento – algo que não teve a ver com os dados da Operação Mais Valia. Houve o comunicado da Direção da FPF no seguimento da reunião urgente realizada na manhã desta segunda-feira, onde pediu uma audiência célere com o governo (além da exposição ao Comité de Ética do Comité Olímpico pelo comportamento de Gomes). Houve um pouco de tudo.
Era por isso que, em condições normais, aquilo que seria apenas a celebração do 111.º aniversário ganhou um outro peso na Cidade do Futebol, fosse pelas reações de diversos agentes ao atual clima que se vive entre as cúpulas do desporto nacional, fosse pela própria presença de Fernando Gomes no evento como antigo líder da FPF ou presidente do Comité Olímpico de Portugal. Como seria previsível, não marcou presença.
Rosa Mota, atual vice-presidente do COP, foi uma das muitas personalidades do mundo desportivo nacional presentes na Cidade do Futebol, sendo que apenas Humberto Coelho deixou algumas palavras quase de circunstância. “Não se pode julgar as coisas antes. Há um inquérito a decorrer e depois vamos ver mas de resto, acho que não vai influenciar seja o que for. A Federação é uma instituição muito grande, que é respeitada e que tem feito um trabalho extraordinário. Não falo da situação a que se referem, vim jantar e trago um bom apetite. Se a Federação está bem entregue? Foi o mais votado…”, apontou o antigo central internacional português, que esteve também como vice de Fernando Gomes no órgão federativo.
A zona mista parecia não ter muito mais para dar, com quase todos os protagonistas a evitarem comentar as polémicas que têm assolado o futebol português com especial enfoque na cisão entre Fernando Gomes e Pedro Proença. No entanto, faltava chegar Villas-Boas. Mais uma vez, o presidente do FC Porto falou, abordando não só o “caso” da ordem mas também outros temas como a centralização ou as eleições da Liga.
“É um momento lamentável a todos os níveis, de registar na consciência que o futebol português está gravemente doente e que nos andamos a enganar uns aos outros há bastante tempo. Não basta as recentes questões entre o ex-presidente da Federação e o atual, mas também um certo desalinhamento entre os três grandes agora e o facto de continuarmos a adiar discussões como a Liga centralização, o VAR e a tecnologia no futebol. Constata-se finalmente que vivemos nesta paz podre há muitos anos, continuamos a atrasar-nos no sentido desta evolução. Relembro que estamos sob ameaça do futebol belga. Os Países Baixos vão perder o seu melhor ano em termos de ranking UEFA mas a Bélgica continua a somar pontos no coeficiente da UEFA e a realidade é que se calhar, em breve, estamos mesmo destinados à Liga Conferência, que se calhar é o que merecemos”, apontou de forma dura o líder dos azuis e brancos na zona mista.
“Não sei como é que os presidentes das outras federações reagem após receberem cartas com a magnitude desta mas tentei até primeiro confirmar a sua veracidade perante o conteúdo. Gosto muito de Fernando Gomes, tem um trabalho à frente de Federação que é especial, único e singular e lamento que presidentes que são importantes no desporto português estejam de costas voltadas. É um passo atrás na dignidade e ética do futebol português, isso não há dúvidas. É óbvio que o presidente da Federação deve estar representado no Comité Executivo da UEFA”, referiu também a propósito do choque entre Gomes e Proença.
“As eleições da Liga preocupam-me porque temos [os três grandes] perspetivas diferentes de candidato. Não desrespeitando Reinaldo Teixeira, que tem anos de dirigismo no futebol português, mas a nível de estrutura, competência e planeamento há uma diferença enorme. Lamento que alguns clubes estejam agarrados a compromissos de palavra e não olhem para as reais competências dos candidatos e das equipas que os acompanham. Houve um desalinhamento, houve um alinhamento prévio fruto de circunstâncias diferentes e de um novo candidato e temos divergências em relação ao novo presidente da Liga. Estive presente em duas Cimeiras da Liga, discutiu-se zero sobre o futebol português”, salientou sobre o próximo sufrágio.
A esse propósito, e apesar de haver inicialmente um entendimento para FC Porto, Benfica, Sporting e Sp. Braga apoiarem o mesmo candidato (como aconteceu por exemplo com Pedro Proença nas eleições para a Federação), o aparecimento da candidatura de José Gomes Mendes provocou uma “cisão”, com os rivais lisboetas do lado de Reinaldo Teixeira e os nortenhos com o antigo líder da Mesa da Assembleia Geral da Liga Portugal. O Observador sabe que têm existido vários contactos entre clubes nos últimos dias tendo em conta as eleições do próximo dia 11 de abril, com Villas-Boas a assumir agora em termos públicos o desalento de haver posições que não se alteram apesar das tentativas nesse sentido para “virar” o resultado eleitoral.
[Já saiu o terceiro episódio de “O Misterioso Engenheiro Jardim”, o novo Podcast Plus do Observador que conta a história de Jorge Jardim, o empresário que, na verdade, era um agente secreto que liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e deu início a um clã de mulheres aventureiras. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic. E pode ouvir aqui o primeiro episódio e aqui o segundo]
“Ninguém manda na FPF porque a FPF não é de ninguém”, destaca Pedro Proença
Mais tarde, durante a cerimónia do 111.º aniversário que juntou todos os líderes dos principais conjuntos nacionais (até na mesma mesa), Pedro Proença discursou e, sem ataques diretos a Fernando Gomes, deixou vários “recados” nas entrelinhas a marcar uma posição em relação ao caso e à sua própria liderança.
“Juntamo-nos para celebrar o 111.º da Federação Portuguesa de Futebol. Juntamo-nos para celebrar a história da maior instituição desportiva do país, a história do futebol português, uma história escrita com talento, paixão, dedicação e de muitos que contribuíram. Dirigentes, treinadores, jogadores, árbitros. Muitas e muitas pessoas. Porque a história de todas as instituições, de qualquer instituição, é feito por pessoas. Ninguém está acima das organizações. Permitam-me, pois, que as minhas primeiras palavras vão para os que ajudaram a escrever a história da FPF, desde o seu primeiro presidente, António José Pinto de Sá e Oliveira, até ao último, Fernando Gomes. Sem esquecer todos os presidentes, uma palavra especial para o meu querido e saudoso amigo, João Rodrigues, e Gilberto Madaíl, que fez questão de estar presente”, começou por referir o presidente do órgão federativo, numa alusão também ao “ausente” Fernando Gomes.
“Esta história foi escrita por todos os que deram parte da sua vida para fazer desta instituição uma marca no coração de cada um de nós. Há Portugal em cada clube, cada adepto, cada casa, cada canto do Mundo. Estamos aqui todos juntos para homenagear a história secular recheada de momentos que devemos olhar com orgulho para o passado. Um passado que devemos saber preservar, um passo que prometo honrar, mas permitam-me que diga que não estamos aqui para falar do passado. A FPF tem de ser capaz de olhar sem receios ou saudosismos para o futuro. O livro que conta a história de uma instituição como a FPF nunca estará finalizado. Será sempre obra inacabada, obra com muitas páginas já escritas, algumas a letras de ouro, mas com muitas páginas para escrevermos”, prosseguiu Pedro Proença.
“A melhor forma de honrarmos a história da FPF será encarando o passado como ponto de partida para o futuro. É isso que exige o legado de todos os que nos antecederam. Fazer mais, fazer melhor, olhar com orgulho para o que foi ganho, mas ganharsempre mais. O legado não se escreve com conformismo. Assumimos o compromisso: iremos fazer melhor, faremos mais, faremos convosco. É uma vontade forjada no respeito que devemos desta instituição que perdurará depois do nosso tempo e da nossa passagem. Não somos a FPF, a FPF não nos pertence. Será esse o espírito que nos guiará enquanto estivermos à frente. Fazer mais. Em termos desportivos mas não só. Não se conta apenas pela aritmética dos títulos. Esse é o dever, fazer melhor, fazer mais, mas lutaremos simultaneamente por princípios e valores que não têm preço. Seremos intransigentes na seriedade de procedimentos, inflexíveis na luta pela credibilidade desta instituição, seremos irredutíveis na transparência da FPF. Doa a quem doer, há escolhas que esta missão nos obriga a fazer. Ninguém manda na FPF porque a FPF não é de ninguém”, apontou o líder federativo.
“Com esta energia renovada, com profissionais competentes, com novo fulgor, conseguiremos uma FPF mais credível, mais escrutinada, mais auditável, mais profissional. Permitam-nos que sejamos nós a escolher o nosso presente e futuro. Temos o dever de fazer desta FPF uma entidade que fará da transparência uma bandeira, uma entidade que construa um legado que não é meu, não é de ninguém, é vosso. Que construa um legado de bom nome e honradez. Vamos fazê-los unidos. Construir uma FPF mais inclusiva. Lutaremos juntos por uma FPF capaz de criar, de distribuir mais riqueza por todos. Batalharemos por uma FPF capaz de cumprir a missão social, devolvendo à comunidade o que ela lhe dá, olhando acima do nosso umbigo”, garantiu, entre várias “farpas” que foi deixando ao antecessor.
“As ações de hoje são determinantes para inspirar gerações futuras. É hoje que criamos laços de união, a nossa obrigação é unir o futebol, será sempre esse o nosso espírito. Nada nos desviará desse propósito. Temos muitas páginas para escrever convosco, neste livro que conta convosco para escrever o presente e futuro. Páginas escritas a letras de ouro. Vamos unidos fazer o que ainda não foi feito”, concluiu.