Confrontado com as 1.900 queixas apresentadas contra a forma como conduziu a entrevista ao líder do PCP, o jornalista da RTP José Rodrigues dos Santos esclareceu que Paulo Raimundo tinha sido informado desde o início que a curta entrevista de dia 24 de março tinha como tema a Ucrânia. E explica que, apesar de ter perguntas sobre “mais temas”, quis esclarecer a “contradição” que o comunista aparentava alimentar sempre que era questionado sobre a posição do PCP no que toca ao envio de armas.
“Antes de cada entrevista tenho uma conversa com o entrevistado em que digo o tempo que vai durar — naquele caso 10 minutos — e o tema. Neste caso expliquei que era a Ucrânia. Na verdade, tinha outros [temas], mas só falei nesse”, começou por dizer o jornalista da RTP à Provedora do Telespetador no programa Voz do Cidadão. E acrescentou: “O facto de a entrevista ter um ou vários temas não é um problema”.
“Não há nenhuma lei nem imperativo ético que obrigue a que a entrevista tenha de ter um tema ou vários. É em função das circunstâncias, do convidado e da perspetiva editorial. Disse-lhe que íamos tentar desfazer os equívocos e clarificar a posição do PCP sobre a Ucrânia.”
Para o jornalista, que entrevistou Paulo Raimundo no âmbito das eleições legislativas antecipadas, o problema surgiu quando fez uma questão especifica: “Quando eu lhe pergunto: ‘Quando diz que nós somos responsáveis pela guerra porque enviamos as armas, no fundo o que o PCP sempre disse é que é contra o envio de armas?’. E ele [Paulo Raimundo] responde várias vezes ‘não‘.”
José Rodrigues dos Santos considerou que a resposta de Paulo Raimundo era contraditória e não era suficientemente clara, motivo pelo qual voltou a insistir na mesma pergunta. “Retomei a pergunta mais tarde e ele diz ‘não’. Mas depois, na sequência disso, dá a entender que sim. A única coisa direta que ele diz é ‘não’! E eu voltou a insistir no mesmo e ele, pela terceira vez, diz ‘não’, mas dá a entender nas entrelinhas que sim. As palavras valem o que valem”, apontou.
O jornalista acrescentou que, ao longo da entrevista, se convenceu de que Paulo Raimundo estava a “expressar-se mal”, pelo que continuou a insisti. “Quis ajudá-lo a clarificar, para que se percebesse a posição do PCP”, argumentou.
No entanto, segundo a avaliação da Provedora do Telespetador, José Rodrigues dos Santos “é suficientemente experiente para ter entendido como bordão o ‘não’ que repetidamente Paulo Raimundo usou antes das respostas”.
Comparando a entrevista ao líder do PCP — “um grande partido com uma história profunda” — com uma possível entrevista a um outro líder partidário, o jornalista da RTP lançou a Ana Sousa Dias e aos telespetadores uma questão: “Acreditam mesmo que se Luís Montenegro ou Pedro Nuno Santos me dessem uma entrevista com este tipo de contradições ia deixar passar em branco? Obviamente ia atrás! Estão ao mesmo nível! Se houver matéria em que o partido tem vulnerabilidades, é óbvio que vou atrás.”
Para a Provedora do Espetador, no entanto, esta entrevista “foi claramente diferente de todas as outras”, tendo sido “objetivamente mal sucedida“. “Não permitiu esclarecimentos sobre as posições” do PCP e não cumpriu o serviço público, defende Ana Sousa Dias.
O Diretor de Informação da RTP assume que a entrevista “ficou aquém do objetivo que tínhamos traçado”, disse José António Teixeira à Provedora do Telespetador. “A questão que se pode colocar aqui é que a entrevista não permitiu abordar outros temas, como era pressuposto. Não está em causa nenhum crime, não houve nenhum processo de instrumentalização ou ofensas cometidas”, acrescentou, revelando que o sucedido está a ser debatido internamente, em Conselho de Redação.
Além disto, o próprio PCP anunciou que iria apresentar queixas à ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social), à CNE (Comissão Nacional de Eleições) e à CCPJ (Comissão da Carteira Profissional de Jornalistas) devido à condução da entrevista.
Legislativas. Provedora do Telespectador recebe 1.900 queixas sobre entrevista ao PCP na RTP