O mote foi dado logo no primeiro minuto. Ainda houve uns fumos que não são normais antes da entrada das equipas mas a forma como todos os adeptos do Arsenal se levantaram meio do nada sem que a equipa tivesse feito algo para isso apenas para fazer um statement de que estavam presentes para a “guerra” foi como um tónico para ligar os gunners à ficha num jogo há muito esperado por todos os saudosistas que não esquecem a final da Liga dos Campeões frente ao Barcelona (derrota por 2-1 com reviravolta em quatro minutos com golos de Eto’o e Belletti) e acreditam que será esse o destino da era Mikel Arteta no clube. Grande euforia em cada momento que a bola chegava ao último terço e havia bolas paradas, muitos assobios sempre que saía uma transição rápida por Vinícius Jr. ou Mbappé, um ambiente frenético desde o arranque da partida.

Um corte incompleto de Rüdiger no sentido da própria baliza que por pouco não deu autogolo e um desvio de cabeça de Timber após canto que só não teve a direção certa deram o mote, um “míssil” de Thomas Partey para defesa para a frente de Courtois fez o resto (12′). O Arsenal conseguia tomar conta de um jogo que era mais um teste ao Real Madrid, a equipa que ganha sempre que todos pensam que vai perder (o exemplo mais recente foi a segunda mão das meias-finais da Taça do Rei diante da Real Sociedad) mas que teve outro ponto baixo numa época em carrossel na derrota caseira diante do Valencia na Liga. “Não temos medo de jogar este tipo de jogos de grande pressão na Liga dos Campeões porque é muito importante ter experiência para alinhar nesta prova”, dizia Carlo Ancelotti na antecâmara da partida, fintando as dúvidas sobre o futuro.

Na sequência do desaire no Campeonato, que só não trouxe danos maiores porque o Barcelona não foi além de um empate na receção ao Betis, voltaram a ouvir-se vozes que pediam uma substituição de treinador no final da temporada. À partida, qualquer que seja o desfecho, isso poderá ser mesmo uma realidade. Todavia, e para já, isso é tudo aquilo que o italiano não quer abordar: “O mais importante são os que me apoiam, principalmente a pessoa mais importante neste clube [o presidente Florentino Pérez]. Analisámos o jogo com o Valencia, agora estamos preparados para o jogo com o Arsenal”. Bola para a frente, mais uma pastilha para a boca e a convicção de que, a seguir ao City e ao Atl. Madrid, os ingleses seriam as próximas “vítimas”.

Entretanto, o ímpeto ofensivo do Arsenal tinha-se evaporado com o passar dos minutos – o que ia deixando Mikel Arteta cada vez mais ansioso na zona técnica, mais quando Kylian Mbappé conseguiu receber na área descaído sobre a esquerda e rematou em arco para grande defesa de David Raya (30′). As múltiplas lesões que foram assolando algumas das principais figuras do plantel podem justificar mais uma época onde será muito complicado ganhar a Premier League (nove pontos de distância para o Liverpool a sete jornadas) mas esse cenário reforçou a janela de ambição de ir mais longe na Champions. Para isso, a receção ao Real seria determinante tendo em conta o histórico de decisões no Santiago Bernabéu mas faltava sempre aquele ‘9’ para o último toque na área, sendo que quando Declan Rice fez de avançado apareceu Courtois.

Com Mikel Merino mais apagado e muito menos decisivo do que nas últimas partidas, era o médio inglês, o mais caro de sempre a ser transferido na Premier League quando se mudou do West Ham para o Emirates, que tentava dar o exemplo aos companheiros de equipa para não desistirem de tentar materializar períodos de maior ascendente em oportunidades e golos. Não dava de bola corrida, foi de bola parada: num livre direto ligeiramente descaído para a direita e com a barreira a contar com um homem a menos por fora, Rice surpreendeu tudo e todos, bateu o livre em vez de Saka e não deu hipóteses para o 1-0 (58′). A resistência dos merengues estava quebrada mas nem por isso o Arsenal parou, percebendo que estava por cima.

Estava aberta a hora do tiro ao boneco. Com o Real sem qualquer poder de reação, incapaz de sair do seu meio-campo com bola controlada e a defender cada vez pior em termos de desposicionamentos, os londrinos caíram em cima dos campeões europeus e foram somando oportunidades atrás de oportunidades para outro resultado, com Courtois a defender os remates na área de Martinelli e Mikel Merino na mesma jogada, Alaba a tirar em cima da linha um remate de Merino que seguia para a baliza e Asencio a cortar também perto da baliza em mais uma insistência. Depois, novo livre. Um livre mais ao meio, ainda mais ligeiramente descaído para a esquerda, um remate ainda mais fulminante de Rice ao ângulo (70′). Em 338 jogos na carreira, nunca marcara de livre; em 12 minutos, e em posições diferentes, fez dois golos. Aquela história do “outra vez arroz” que se diz ou canta quando algo acontece muitas vezes estava seriamente ameaçada perante um Real que desapareceu no segundo tempo e em pior posição ficou pouco depois, com Mikel Merino a surgir à entrada da área para um remate de primeira de pé esquerdo que fez o 3-0 no Emirates (75′).