Foi num debate morno e sem grande história que Rui Rocha e Inês Sousa Real traçaram diagnósticos e preocupações comuns, praticamente sem qualquer acordo para as soluções. O líder liberal ainda procurou colar o PAN ao PS, mas a porta-voz Inês Sousa Real desviou-se da acusação. Mais tarde, acabaria por replicar o número colando a IL ao Chega.

No frente-a-frente na SIC Notícias, a discussão começou com a Saúde e duas visões bem diferentes para resolver os problemas do SNS. Rui Rocha defendeu que “o discurso político tem dito que o SNS tem de estar no centro da solução” quando a IL pretende que passe para o cidadão. E acusou PS e PSD de terem “tentado remendos” que deixaram “as coisas exatamente iguais”, argumentando que estava na hora de testar algo diferente, nomeadamente à boleia de países que foram bem-sucedidos como, exemplificou, a Alemanha ou a Holanda. Inês Sousa Real não precisou mais do que os minutos iniciais para vincar as “diferenças ideológicas” entre ambos, justificando que “as pessoas não escolhem nascer pobres, envelhecer ou adoecer” e que o modelo sugerido pelos liberais falhou noutros países. A solução está numa “intervenção forte do Estado na saúde”, sublinhou.

Rui Rocha não se ficou, disse que as soluções testadas têm resultados, o que levou Sousa Real a interromper para assegurar que “são sociais-democratas e não liberais”. O líder liberal insistiu na proposta, detalhando que quando há “10 milhões de portugueses não podemos pensar que o SNS consegue responder a toda esta população”, frisando que é preciso “permitir que capacidade instalada possa dar resposta” e que não existe uma diminuição da oferta. “Os partidos entendem que as pessoas têm de passar pelo sofrimento de passar pelo SNS e só quando o SNS falha completamente é que podem ter acesso a outra solução”, rematou. Inês Sousa Real voltou a criticar a IL por ter uma “ideia de um Estado tão pequeno que cabe no bolso, mas que se esquece que o bolso dos portugueses não é igual para toda a gente ao final do mês”.

O tema dos impostos também marcou o debate, com a porta-voz do PAN a afirmar que a proposta da IL para o IRS “viola o princípio da progressividade” e “não ia chegar à classe média”. Quando Rui Rocha estava a explicar que há uma progressividade (de duas taxas), Sousa Real salientou que “não faz sentido que um milionário tenha o mesmo tipo de desconto que a classe média”. “Era o que faltava que não acontecesse” atualizar os escalões à taxa da inflação, argumentou Rocha, enquanto acusou o PAN de ter estado ao lado do PS quando o Governo de Costa não o fez, o que levou Sousa Real a realçar que o partido não viabilizou, pelo menos durante a sua liderança, “orçamentos de António Costa“. No Orçamento para 2022, o PAN (já sob a liderança de Sousa Real) absteve-se, mas o orçamento acabaria chumbado com os votos contra de BE, PCP e direita.

De resto, nem única matéria que podia unir os dois — uma descida de IRC — se entenderam: Rocha disse que não percebia a proposta do PAN e acusou Sousa Real de ainda não ter apresentado programa, a porta-voz disse ser “muito clara” e passar por uma descida para 17%, “com uma descida anual de um ponto percentual até ao final da legislatura”. A IL quer mais.

No que à segurança diz respeito, Rui Rocha defendeu que “não há liberdade sem segurança” e que é preciso mais polícia de proximidade e políticas adequadas. “Quanto mais dados e factos, melhor, para podermos dirigir as políticas”, disse, para defender a medida proposta pela IL, aprovada no Parlamento, que permitirá que a nacionalidade dos autores de crimes passe a estar no RASI (Relatório Anual de Segurança Interna). O tema permitiu a Inês Sousa Real tentar uma colagem da IL ao Chega, frisando que o PAN “olha com estupefação por a direita do campo democrático ir atrás do Chega” na questão da segurança.

E traz para debate a questão da violência doméstica, realçando que “as mulheres não estão a ser protegidas” e que “devia ser uma prioridade em todos os debates e seguida por todos os partidos”. Abordou ainda a questão dos crimes online, desde logo relacionados com violência contra mulheres, realçando que “as plataformas [digitais] devem ser obrigadas a retirar imagens [de crimes] de imediato”. Rui Rocha acompanhou a preocupação e disse até estar “chocado” com notícias de violência, violência no namoro e violações, sublinhando que o atual momento deve convocar todos para uma reflexão sobre esta matéria”.

Inês Sousa Real aproveitou ainda o debate com Rui Rocha para lamentar que a Iniciativa Liberal tenha sido “a única força política a votar contra a lei de bases do clima”, justificando que definiu como uma das prioridades da próxima eleição a luta “contra o negacionismo” climático, desde logo porque Portugal é “um dos países mais afetados pelas alterações climáticas”. Sugeriu ainda que se comece “por executar os mais 429 milhões de euros do PRR para ajudar a indústria a transformar-se numa indústria verde”. Rui Rocha, questionado sobre a questão da energia nuclear, disse que ainda existem dúvidas sobre se a energia nuclear é viável economicamente, mas reconheceu que é preciso “uma fonte de energia estável que seja complementada com energias renováveis”.

O diálogo revelador

Rui Rocha: Sobre a progressividade, a proposta da IL é claramente progressiva…

Inês Sousa Real: São dois escalões.

Rui Rocha: Bom, cada um aspira à progressiva que entende. Há quem entenda que o mérito não deve ser salientado. É uma opção política legítima.

Inês Sousa Real: Não faz sentido que um milionário tenha o mesmo tipo de desconto que a classe média.

Rui Rocha: Depois, se bem percebo, o que a Inês pretende é atualizar os escalões de IRS à inflação. Era o que faltava que isso não se fizesse.

Inês Sousa Real: Não tem acontecido.

Rui Rocha: Eu sei que não. Mas se calhar isso não aconteceu em alguns Orçamentos de António Costa que o PAN viabilizou. Portanto, essa preocupação é bem-vinda.

Inês Sousa Real: Quem propôs essas medidas foi precisamente o PAN.

Rui Rocha: Pois, eu sei, mas há um Orçamento de António Costa que o PAN viabilizou em que isso não estava previsto.

Inês Sousa Real: O PAN nunca viabilizou — pelo menos, não na minha liderança — Orçamentos de António Costa.