Depois de a Organização Mundial do Comércio ter considerado ilegais os subsídios atribuídos pelo Estado chinês aos construtores locais, a União Europeia (UE) — que lançou uma investigação independente para confirmar a acusação — impôs tarifas especiais destinadas a conter a vantagem ilegal dos eléctricos que rumam da China para a Europa. Agora está a negociar a troca dessas tarifas pelo estabelecimento de um preço mínimo, no que se pode considerar uma opção de eficácia duvidosa, especialmente perante um parceiro comercial como a China.
Para atenuar as vantagens que lhes foram concedidas pelo Governo do seu país, os veículos dos diferentes fabricantes chineses foram penalizados de forma distinta à entrada do mercado europeu, consoante o nível de incentivos que receberam, daí que as tarifas oscilem entre 7,8% e 45,3%. Taxas elevadas, mas ainda assim uma “brincadeira” face aos 100% que os norte-americanos e canadianos impõem aos veículos com a mesma origem.
Poucos meses depois de as tarifas começarem a ser aplicadas, o que aconteceu no fim de Outubro, avança a Reuters que arrancaram as negociações entre os responsáveis de ambos os lados, designadamente o comissário europeu para o Comércio, Maros Sefcovic, e o ministro do Comércio da China, Wang Wentao. O objectivo é chegar a um acordo menos penalizador para os carros chineses, de modo a que estes não sejam tão duros para com os produtos europeus, abertura que conta sobretudo com o apoio dos alemães, preocupados não com o conhaque francês ou o azeite português, mas sim com a queda das vendas de veículos germânicos fabricados na Europa e exportados para a China, cujas vendas baixaram no último trimestre de 2024 mais de 30% e aceleraram ainda mais no início de 2025. Não devido a aplicações de tarifas, mas porque é essa a vontade do Governo.
A troca de tarifas pelo estabelecimento de um valor mínimo para os produtos importados, no caso os automóveis, é raro, mas não é propriamente uma novidade, tendo já sido testado noutro tipo de bens. Só que nunca em algo tão complexo quanto um veículo. A Comissão Europeia já admitiu que a estratégia de implementar um preço mínimo para contrariar incentivos ilegais, em vez de tarifas punitivas, “não parece ser a forma mais adequada de enfrentar os danos provocados pelas ajudas estatais”. Mas a pressão dos alemães, com a associação automóvel germânica VDA a aplaudir a medida e as negociações (de que os alemães são os maiores beneficiários), demonstrou de forma evidente a quem pertence a paternidade da ideia. Curiosamente, aos mesmos que impediram a aplicação de tarifas mais elevadas aos eléctricos chineses por recorrerem a subsídios ilegais.