Localizada na Piazza di Santa Chiara, a poucos metros do Panteão, está uma das lojas mais antigas de Roma, e das poucas a permanecer sob o comando da mesma família, desde há seis gerações. Giovanni Antonio Gammarelli fundou a alfaiataria especializada em trajes eclesiásticos em 1798, durante o papado de Pio VI. Desde Pio XI, em 1922, providenciou o serviço exclusivo a todos os oito papas que ocuparam o cargo de líderes da Igreja Católica. São mais de 100 anos a vestir papas. E será a Gammarelli a vestir o próximo pontífice, pelo menos na sua primeira aparição depois do conclave. É que é a loja a responsável por costurar o fato do sucessor.
O traje para esta ocasião é composto pela batina branca de lã, com 33 botões, que representam a idade de Cristo, e a pequena capa branca com mangas de seda, chamada peregrineta. Por cima, poderá usar uma faixa amarrada na cintura com uma franja dourada, e que mais tarde será bordada com o selo do novo papa (apesar de o Papa Francisco não a ter bordado). O conjunto completo ainda leva um chapéu, o solidéu, e o crucifixo de ouro, embora Francisco tenha optado por manter o crucifixo de prata que usava quando ainda era bispo.
Mas, para uma alfaiataria com tanta experiência, o maior desafio não será os detalhes das vestes papais, mas sim acertar no tamanho. Para ter a roupa pronta assim que há fumo branco a anunciar que há um escolhido, a Gammarelli precisa de confecionar três peças distintas, que habitualmente são baseados nos tamanhos dos cardeais que a alfaiataria já tem como clientes. Tática que nem sempre dá certo. Em 1958, João XXIII apareceu na varanda para acenar aos fiéis com alfinetes a segurarem a parte de trás da batina. O papa acabou por vestir o tamanho pequeno e os auxiliares terão feito uma abertura atrás para parecer bem visto de frente. O maior tamanho disponível também ficou pequeno no Papa João Paulo II, quando assumiu o posto em 1978. Já em Bento XVI, a batina deixou à mostra as mangas da camisola preta que usava por baixo do traje papal.
Os primos Alessia, Massimiliano e Lorenzo Gammelli são os atuais donos da loja. Pertencentes à sexta geração da família, tentam manter a tradição dos antepassados. “Das roupas aos sapatos, chapéus e acessórios, todos são feitos à mão, com atenção escrupulosa a cada detalhe”, conta à EWTN, a rede global de televisão da Igreja Católica, uma das donas, Alessia, que é a primeira mulher a comandar o negócio. “É tudo artesanal. Fazemos tudo aqui dentro da nossa loja, inclusive cortar e cozer. Não é fácil mas fazemos o possível para manter a tradição viva. É especialmente difícil encontrar bons costureiros e artesãos talentosos.” As 15 pessoas que trabalham na loja produzem cerca de 10 fatos por semana. De acordo com Alessia, 90% dos tecidos são de origem italiana, enquanto outros poderão vir de Espanha. Algodão, seda pura, e bordados em fios dourados com fundos de cores vivas como os vermelhos e roxos preenchem as prateleiras do ateliê.
Apesar das cores vivas de muitas peças eclesiásticas, a Gammarelli também se ocupa dos trajes brancos, tradicionais do Papa Francisco. “Mandam-nos um pedido, as medidas e fazemos as roupas. Para preparar um conjunto inteiro demoramos cerca de uma semana. As cores são obviamente especiais. Sobre os tecidos, são todos de boa qualidade, lã pura e assim por diante. É claro que as roupas para o Papa são feitas com muito cuidado, apesar de que as outras também são feitas com o mesmo zelo”, diz Alessia.
▲ Os fatos são cortados e costurados a mão, um trabalho artesanal que se mantém há seis gerações
gammarelli.com
Solidéus para oferecer ao Papa
“Sempre mantemos na nossa montra o solidéu do papa, como uma peça distinta”, conta ainda a dona da Gammarelli, sobre o chapéu redondo em semicírculo que cobre a cabeça do líder da Igreja Católica. “Há muitas pessoas que vêm para comprar solidéus para o Santo Padre. Compram-no aqui, colocam-no numa caixa, e oferecem ao Papa na esperança de que seja trocado pelo que ele está a usar.”
Uma estudante de comunicação espanhola relatou no site Aleteia o momento em que presenteou o Papa Francisco com um solidéu, em 2022. “Disseram-me que era algo muito gentil de se fazer e que, às vezes, quando alguém dava o solidéu ao papa, ele tirava o que estava a usar, colocava o da pessoa por um momento, e depois, devolvia-o”, conta Lucía Para. “Foi uma experiência incrível. Achei que ele ia me devolver o solidéu. Entretanto, não foi o caso! Deus quis que eu ficasse com o solidéu do Papa“.
▲ Francisco adotou um estilo muito mais simples que o seu antecessor, preferindo trajes brancos e acessórios em prata
ANDRÉ DIAS NOBRE/OBSERVADOR
Desde que ascendeu ao mais alto cargo na Igreja Católica, Francisco mostrou cultivar um estilo diferente dos antecessores. A dar preferência aos trajes todos brancos, deixou de usar peças que representassem ostentação, contrárias ao estilo de vida simples dos jesuítas. O Papa Francisco dispensou o uso da mozeta, uma capa vermelha com ornamentos dourados, trocou a cruz de ouro por uma de prata e não adotou os sapatos vermelhos tradicionais dos papas anteriores — seguiu com os mesmos sapatos pretos que usa há 40 anos, do sapateiro argentino Carlos Samaria, o filho de de imigrantes de Porcen di Seren del Grappa, Belluno, em Itália, e que morreu em em 2020 em Buenos Aires, cidade onde nasceu a sua amizade com Giorgio Bergoglio.
O Papa “Fashion”
A simplicidade de Francisco terá sido um choque, ou pelo menos uma rutura, se comparada com a importância que Bento XVI dedicou às suas vestes. O Papa emérito, que morreu em 2022, sempre deu valor às tradições e, por esse motivo, terá mantido alguns dos itens que faziam parte dos trajes papais, apesar de não serem obrigatórios. É o caso dos sapatos vermelhos. Usado por todos os papas antes de João Paulo II, os sapatos em couro são da cor que simboliza o martírio, o amor ardente e a chama do Espírito, de acordo com o livro “Porque é que o Papa usa sapatos vermelhos?”, que o secretário privado de Bento XVI, Monsenhor Georg Ganswein, escreveu para responder a perguntas das crianças. Em 2013 o Vaticano foi obrigado a desmentir que os sapatos vermelhos eram Prada, explicando que eram na verdade de um sapateiro peruano, Antonio Arellano ou do italiano Adriano Stefanelli. Fosse como fosse, os sapatos levaram o papa a ser eleito um dos homens mais bem vestidos de 2007, de acordo com a revista Esquire.
Bento XVI recuperou também um chapéu que era muito comum na Idade Média. No primeiro Natal como papa, usou o camauro, uma espécie de gorro de veludo vermelho com rebordo branco, que gerou comparações ao Pai Natal. O último papa a usar o chapéu foi João XXIII, que morreu em 1963. Outro acessório que deu que falar em 2006 foi o chapéu vermelho de sol chamado saturno, que não era usado desde antes de João Paulo II. O vermelho era uma das cores preferidas do “papa fashion”, cor que, de acordo com Lorenzo Gammarelli, em entrevista ao Cape Cod Times, tem um significado especial nas roupas dos papas. É um tom bastante mais escuro, que deriva dos imperadores romanos, e está relacionado com o poder. Diferente do vermelho do cardeais, que tem mais a ver com o desejo de cada indivíduo em servir à igreja.
Left: Pope Benedict XVI wears the Camauro (note: this is *not* a Santa hat). This papal headgear was rarely worn in recent times (19th and 20th century). Pius XII, for example, never wore it as far as I know, but John XXIII (right) did. pic.twitter.com/LZRGYKT35H
— P. D'Angona, Sacerdos Romano-Catholicus (@RomanoSace57080) December 2, 2024
O único papa que substituiu a Gammarelli
Outra “ousadia” de Bento XVI foi alvo de alguma polémica. Em 2005, quando assumiu a chefia da Igreja Católica, o papa terá retirado das mãos da Gammarelli a confeção dos seus fatos, e terá entregue a missão a um alfaiate particular, que já assegurava estas funções quando o alemão era o cardeal Ratzinger. Trata-se de Alessandro Cattaneo, da Euroclero. Os três filhos do alfaiate terão inclusive confirmado ao Corriere della Sera que estavam a vestir pela primeira vez um papa. A notícia gerou controvérsia na imprensa italiana, que ainda especulou sobre outros nomes, como o de Raniero Mancinelli, um dos alfaiates eclesiásticos a trabalhar há mais tempo em Roma, e que alega ter feito fatos também para João Paulo II e Francisco. “Comecei a costurar para padres e aos poucos o meu trabalho chegou ao papa. Servi três papas, e sempre que os jornalistas me perguntam quem eu ainda gostaria de vestir, digo que ninguém, porque depois do papa só há Deus“, disse o alfaiate, ao Rome Reports, em 2021.
▲ O Papa Bento XVI acabou envolvido em polémicas pelos sapatos vermelhos que a imprensa italiana alegava serem Prada. O Vaticano desmentiu
Steven Governo / Global Imagens
Entretanto, o Vaticano nunca confirmou a troca de alfaiates e a Gammarelli sempre desmentiu que teria deixado de assegurar a confeção durante este período. Há ainda versões que defendem que a Gammarelli também terá sido rendida durante o papado de Pio XII, entre 1939 e 1958, já que este terá preferido manter o seu alfaiate particular. Contudo, a loja afirma no site oficial que vestiu todos os papas desde Pio XI até hoje, exclusivamente. “Tivemos a honra de servir as memórias sagradas do Papa Pio XI, Pio XII, São João XXIII, São Paulo VI, o venerável João Paulo I e o São João Paulo II, e ainda temos o orgulho e prazer de servir Sua Santidade, o Papa emérito Bento XVI e o Papa Francisco”, diz o texto, que entretanto não foi atualizado desde a morte de Joseph Ratzinger, a 31 de dezembro de 2022. A Gammarelli permanece aberta ao público e a confecionar trajes sob medida para membros da comunidade eclesiástica ao redor de todo o mundo. Além disso, está de portas abertas para quem quiser comprar um souvenir, como meias de bebé vermelhas, por cerca de 9 euros, enquanto um chapéu mitra pode custar mais de mil euros.