Foi uma “intensa operação de busca aérea e terrestre”, que terá parecido uma eternidade para os cinco passageiros do Cessna 172CP. Esta sexta-feira, o Ministério da Defesa da Bolívia avançou que todos os ocupantes da aeronave — o piloto, três mulheres e um menor — foram resgatados com vida e “em condições estáveis”, mas não se livraram de um duplo susto depois da queda num pântano no meio da selva amazónica na região de Beni, onde passaram pelo menos 36 horas, empoleirados num aparelho semisubmerso, temendo o avanço de “crocodilos enormes”, e matando a fome com o chocolate e a farinha de mandioca que transportavam. “Estavam a três ou quatro metros de nós e ali ficaram noite e dia, mas nunca se aproximaram.”, recordou o piloto, Pablo Andres Velarde, que usou a lanterna do seu telefone para vigiar os répteis e que acredita que o cheiro de gasolina derramada na água terá contribuído para dissuadir um possível ataque.

Segundo a agência de notícias da Bolívia, a aeronave perdeu contacto pouco depois das 13h00 de quarta-feira, logo após descolar de Baures, tendo o piloto aterrado de emergência numa área próxima do rio Itanomas, entre Santa Fe e Nueva Esperanza, a pouco mais de cem quilómetros de Trinidad, que deveria ser o seu destino. “Vamos! E que seja o que Deus quer”, foram as palavras de Velarde quando iniciou as manobras depois de verificar a falha no motor, procurando um local com água para evitar a explosão do aparelho. “Todos chorámos de felicidade porque estávamos vivos, com golpes, mas vivos com muita sorte, graças a Deus e à rapidez e inteligência do piloto”, confessou Mirtha Fuentes, uma das sobreviventes, a partir da cama de hospital para onde foi transportada após o resgate bem sucedido. O mesmo meio adianta que umas das mulheres que saiu do avião primeiro, já submersa, mergulhou novamente para resgatar a criança que seguia a bordo.

Nenhum dos cinco acusou ferimentos graves mas pela frente teriam ainda uma longa espera, até que fossem finalmente localizados nesta área pantanosa e cercada por fauna pouco amistosa, companhia que se manteria ao longo de cerca de 48 horas, até estarem em chão firme e seguro.

De acordo com o Ministério da Defesa da Bolívia, cujas datas avançadas não coincidem com as indicadas pela agência noticiosa, “as condições climatéricas adversas dificultaram o reconhecimento aéreo e terrestre. No entanto, o 72.º Grupo Aéreo da Força Aérea Boliviana realizou dois sobrevoos com aeronaves leves sobre a possível zona de acidente, acumulando mais de seis horas de rastreio intensivo, o que permitiu obter coordenadas preliminares para guiar a operação”, esclareceu a tutela no seu site.

“Na sexta-feira, 2 de maio, às 07h20 [03h20 em Lisboa], um helicóptero Eco Charlie EC-145 equipado com guindaste, tecnologia de rastreamento e equipamentos especializados do SAR-FAB (Serviço de Busca e Salvamento da Força Aérea Boliviana) descolou de Santa Cruz de la Sierra. Esta unidade foi ao município de Baures para reforçar a busca na área delimitada pelos voos anteriores.”, detalhou ainda o Ministério da Defesa. Os esforços movidos permitiram por fim encontrar a aeronave perto da comunidade Pedro Ignacio Muiba.

Segundo a Sky News, o sinal de alerta foi dado por um barco de pesca detetado pelos passageiros. O piloto sinalizou a presença do grupo de sobreviventes com a lanterna de seu telefone e gritou por socorro. Agora sob observação, os cinco ocupantes receberam alimentação, atendimento médico imediato e foram transferidos de helicóptero para um hospital, na cidade de Trinidad. “Ficamos felizes porque não poderíamos sobreviver mais uma noite”, disse o piloto. “Estávamos muito cansados, porque tínhamos que ficar de pé para que pudéssemos ficar de olho nos animais.”