“Que a Virgem de Pompeia nos guie no caminho da paz.” A referência do novo Papa nas primeiras palavras à varanda da Basílica de São Pedro para a multidão de fiéis da praça de S. Pedro estava carregada de simbolismo. Nossa Senhora do Rosário de Pompeia liga Leão XIV ao anterior Papa Leão XIII, a quem foi buscar o nome 147 anos depois, ao Papa Francisco e à devoção mariana. E o santuário, não longe das ruínas arqueológicas destruídas pelo Vesúvio, é um dos maiores centros de peregrinação da Igreja Católica.
Mas há mais coincidências. A da data da sua eleição e da tradicional Súplica à Nossa Senhora do Rosário de Pompeia, que se celebra precisamente a 8 de maio, e que está a ser interpretada como um sinal, estabelecendo um elo entre o novo pontificado e a Virgem do Rosário, e a continuação da devoção mariana, que vem de João Paulo II e Francisco.
Um santuário nascido da conversão de um satanista
O Santuário de Nossa Senhora do Rosário de Pompeia é um dos mais importantes centros de peregrinação mariana do mundo. Fundado no século XIX por Bartolo Longo, um advogado que, após uma juventude envolvida no espiritismo (chegou mesmo a ser ordenado sacerdote satanista), converteu-se ao catolicismo e dedicou a sua vida à promoção do Rosário e à caridade.
Tornou-se terciário dominicano e dedicou-se à promoção da oração do Rosário. Construiu, a partir de 1876, o santuário em Pompeia, então uma região rural empobrecida, não apenas como templo de oração, mas como centro de caridade social, com escolas e orfanatos. A primeira pedra foi colocada com a ajuda de donativos de pessoas simples.
A imagem central do santuário representa a Virgem Maria entregando o Rosário a São Domingos e a Santa Catarina de Sena. Esta pintura foi inicialmente desvalorizada e danificada, mas Bartolo Longo mandou restaurá-la.
Em pouco tempo, milhares de peregrinos começaram a visitar o local, atraídos pela devoção e pelos relatos de milagres.
Bartolo Longo foi beatificado pelo Papa João Paulo II em 1980, sendo reconhecido como o “apóstolo do Rosário”.
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Os milagres e curas
A imagem central do santuário é tida como milagrosa. A ela são atribuídas inúmeras curas e graças espirituais, relatadas desde o século XIX até aos dias de hoje.
Entre os milagres mais conhecidos está a cura de Fortuna Agrelli em 1884, uma jovem de Nápoles que sofria de epilepsia. Após várias tentativas médicas fracassadas, recorreu à oração do Rosário. Segundo o relato da própria família, Nossa Senhora apareceu-lhe dizendo: “Quem quiser graças, peça-mas por meio do Rosário.” Pouco depois, a jovem ficou completamente curada. O caso teve enorme impacto na difusão da devoção.
Durante a I a II Guerra Mundial, também foram relatados milagres relacionados com o Rosário: soldados protegidos em batalhas, casas poupadas a bombardeamentos e reconciliações familiares atribuídas à Virgem de Pompeia.
A ligação do Papa Leão XIII
O Papa Leão XIII (pontificado de 1878 a 1903), conhecido como o “Papa do Rosário”, foi um grande promotor da devoção a Nossa Senhora do Rosário de Pompeia. Durante o seu pontificado, escreveu 11 encíclicas sobre o Rosário, destacando-o como uma poderosa arma espiritual.
Em 1887, a imagem de Nossa Senhora do Rosário de Pompeia foi coroada com um diadema abençoado pelo Papa Leão XIII, um gesto que simboliza o reconhecimento da devoção mariana em Pompeia.
E em 4 de maio de 1901, Leão XIII elevou o Santuário de Pompeia à dignidade de Basílica Pontifícia, destacando sua importância espiritual e pastoral.
Francisco e o Rosário de Pompeia
Em março de 2015, o Papa Francisco visitou pessoalmente o Santuário de Pompeia. Rezou em silêncio diante da imagem e pediu aos fiéis a não abandonarem a oração simples e profunda do Rosário. Considerava-o um instrumento de evangelização acessível a todos.
Em 2024, por ocasião dos 150 anos da chegada da imagem de Nossa Senhora a Pompeia, Francisco enviou uma carta especial ao delegado pontifício do santuário. Nela, afirmou que o Rosário é uma “escola de santidade ao alcance de todos” e encorajou a continuidade das obras de caridade iniciadas por Bartolo Longo.
Francisco também destacou o papel social do Santuário como lugar de acolhimento, memória e transformação, apontando-o como “um farol de fé no meio das tribulações do mundo”. “Que esta devoção continue a florescer, guiando os fiéis no caminho da fé e da caridade”, disse.
O santuário neobarroco
Embora ainda não tenham sido divulgadas as ligações do novo Papa sobre a sua relação pessoal com o santuário de Pompeia, o simbolismo da data e a declaração que fez já o liga a um dos lugares marianos mais importantes do mundo.
A tradicional Súplica à Virgem de Pompeia é recitada especialmente a 8 de maio e no primeiro domingo de outubro. O santuário recebeu visitas de diversos papas ao longo dos anos, incluindo os já citados Leão XIII e Francisco, mas também Bento XVI, reforçando sua importância no contexto da fé católica.
O santuário distingue-se pela sua arquitetura neobarroca, um campanário com mais de 80 metros de altura e uma tradição de ex-votos — objetos deixados pelos fiéis em agradecimento por graças recebidas. O movimento de peregrinação é particularmente intenso em maio e outubro, meses dedicados ao Rosário. Por ano, é visitada por mais de quatro milhões de pessoas.