Passam 17 minutos das 10 da manhã quando Luís Montenegro surge na linha de areal. De chinelos de dedo, calções pretos, com cinco dos seus amigos de sempre, está pronto para uma partida de voleibol na Praia Azul, em Espinho. Está a menos de 200 metros do Casino Solverde, o detonador do caso Spinumviva, mas ninguém fala disso. Revelador da forma como o tema desapareceu por completo da campanha.
A paixão pelo voleibol é um facto conhecido da vida de Luís Montenegro. E não se pode dizer que não tenha talento. Aos 52 anos, o primeiro-ministro ainda recupera bolas in extremis (foi umas quantas vezes ao chão), remata colocado na rede, ensaia (ainda que sem sucesso) um ou outro amorti e vai mantendo um nível competitivo respeitável.
E sem direito a pontos de borla — primeiro-ministro, primeiro-ministro, volei à parte. Não há abébias: os amigos não se compadecem com o estatuto de Luís Montenegro, nem pelo facto de estar em plena campanha eleitoral. Durante o jogo, o “Luís” é apenas mais um dentro de campo e vai vibrando como os outros. O candidato lá se foi aguentando a bom nível (para veterano, naturalmente) ainda que, no final, já se fosse dobrando uma ou outra vez para ganhar fôlego. “Preciso de oxigénio”, chegou a brincar o social-democrata.
Quarenta minutos depois, os seis amigos posavam finalmente para a fotografia de família para assinalar o momento. A caravana laranja e azul tinha de seguir viagem, desta vez para um almoço em Cantanhede seguramente menos interessante do que esta manhã em Espinho.
Antes de partir, houve ainda tempo de um mergulho coletivo no mar de Espinho, a uma temperatura surpreendentemente quente, atestaram os mais incautos. E Montenegro, já de tronco nu, não se livrou de ouvir uns piropos enquanto desfilava até ao mar. Vida de candidato tem destas coisas.
À saída, o enxame de jornalistas cercou o primeiro-ministro (afinal, há uma campanha a decorrer) para tentar fazer o rescaldo possível e provocar o candidato com a associação óbvia: ainda ontem, sábado, Rui Rocha esteve em Oeiras a jogar voleibol de praia, ação de campanha que os liberais já instituíram como tradição; logo, faria dupla com Rui Rocha?
“Não sei o que é que ele joga. Mas vou admitir que sim. Partimos sempre de um princípio positivo”, lá foi sugerindo o social-democrata, lembrando que o presidente da Iniciativa Liberal conhece bem a cidade de Espinho — foi sócio de Joaquim Pinto Moreira, outro grande amigo de Montenegro, num escritório de advogados.
Mas uma dupla, como o nome indica, implica duas pessoas — não três. Numa campanha em que vai faltando espaço para o CDS dar um ar da sua graça e em que só se fala de Montenegro mais Rocha, o social-democrata foi igualmente desafiado a dizer o que faria a Melo nesse metafórico jogo de vólei.
Não se pode dizer que Montenegro tem aplicado o mesmo empenho na resposta do que aquele que aplicou nos 40 minutos em que esteve a correr e a saltar na areia de Espinho. “O CDS ficava para todo o trabalho que é preciso fazer em equipa”, limitou-se a dizer o social-democrata.
▲ Montenegro passou a manhã de domingo na praia de Espinho
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Montenegro sugere que Pedro Nuno vive de “larachas” e reforça o apelo: “Não dispersem voto”
À tarde, já depois de um almoço-comício em Cantanhede, que se prolongou bem para lá do que era suposto, a caravana da AD rumou até ao Pavilhão Multidesportivo de Viseu, para um comício com direito a casa cheia. Depois de umas primeiras palavras de Fernando Ruas, coube a António Leitão Amaro e a Nuno Melo fazerem o aquecimento para Luís Montenegro.
António Leitão Amaro, ministro da Presidência e cabeça de lista da AD pelo distrito, fez um dos discursos mais duros de toda a campanha, com a particularidade de ter dito abertamente que um voto na IL em círculos eleitorais como o de Viseu — onde se elegem poucos parlamentares — era perfeitamente inútil. “É um voto desperdiçado, que não concorre para uma maioria maior e que tira força ao primeiro-ministro.” É a referência mais direta à IL desde que a campanha da AD arrancou.
Mas os alvos privilegiados de António Leitão eram mesmo André Ventura e Pedro Nuno Santos. Primeiro, o líder do Chega. “Um voto no Chega é ajudar o PS. Estamos em eleições porque o Chega, com sede de poder, ajudou o PS a derrubar um governo de centro-direita em Portugal. Vamos voltar a ver outra vez o Chega a juntar-se ao PS? Que não haja equívocos. Atrás da gritaria só há um projeto, impedir que o centro-direita reforme a Portugal. O Chega foi uma muleta do PS.”
“O PS] Só tem o papão e o medo. É um partido zangado que repete medos falsos, que assusta funcionários públicos e pensionistas. Eu não preciso de descredibilizar o antigo líder do PS. Foi antigo líder do PS que descredibilizou o atual secretário-geral do PS. Como é que se lembrou de escolher como candidato a primeiro-ministro aquele que despediu por ser um mau ministro. Pedro Nuno Santos é o regresso ao passado na sua pior versão.”
Nuno Melo manteria a tónica, dizendo que a alternativa à AD está resumida ao “O PS mais extremado e mais radicalizado dos últimos 50 anos”. “Com quem governaria o Pedro Nuno Santos? O PCP, o Bloco de Esquerda, o PAN e o Livre — e, em grande parte das vezes, o Chega. Avaliem, comparem e decidam”, pediu o líder democrata-cristão.
Mas a novidade do discurso de Melo foi outra: o presidente do CDS falou abertamente sobre as suas declarações de ontem, sábado, quando recordou que a única coligação dos democratas-cristãos é com o PSD — e não com a IL, como parece ser cada vez mais inevitável. Mesmo tendo dito que a AD é uma “coligação maior” do que os dois partidos que a compõem, o líder do CDS não recuou: a aliança é mesmo entre os dois partidos do centro-direita.”Parece que causou sururu [a minha declaração]. Mas é verdade. A AD é uma coligação entre o PSD e CDS. Quero depender apenas de nós e não depender dos outros. É pela coligação PSD/CDS que eu trabalho.”
A forma como o CDS está a ser secundarizado na campanha tem gerado algum desconforto na campanha da AD, como explicava o Observador. Ontem, em Famalicão, Melo enviou um recado para dentro de portas e atingiu a IL. Agastado, Rui Rocha decidiu esta manhã revelar que houve pressões do PSD para fazer uma coligação pré-eleitoral e para provar que não é “apêndice” — como o CDS. Este domingo, Montenegro disse que não se importava nada de fazer dupla com Rocha. E Melo vai ficando sem espaço.
Coube a Luís Montenegro encerrar o mega-comício de Viseu, antes de rumar para Lisboa, onde vai participar no programa “Isto é Gozar com Quem Trabalha”, de Ricardo Araújo Pereira. No essencial, o discurso do primeiro-ministro e líder do PSD andou à volta das mesmas duas ideias que o têm acompanhado nesta campanha: só a AD representa a estabilidade; Pedro Nuno Santos não tem coerência ou maturidade políticas.
“Nós somos um projeto positivo. Temos palavra e cumprimos a nossa palavra. Não gostamos de andar aos ziguezagues. Quando dizemos que ‘não’, os portugueses sabem que não o vamos fazer. Dizemos que não ao radicalismo, à injustiça, à imaturidade e àqueles que estão sempre contra tudo — esses não acrescentam nada.”
Depois de passar em revista as medidas que o Governo tomou ao longo de 11 meses, em particular aquelas pensadas para os mais velhos e pensionistas, Montenegro voltou a tentar desmontar a estratégia do “medo” ensaiada por Pedro Nuno Santos. “Nunca demos razão aos profetas do medo.”
“Quero que os portugueses e as portugueses percebam que este não é um projeto de fogachos, daqueles que se lembram de mandar umas larachas. Não vão mudar nada. Nos últimos oito anos, levámos essa lição para o país. Nestes 11 meses mostrámos que é possível retirar mais do nosso potencial”, insistiu. “Nós merecemos a oportunidade de governar quatro anos. No fim de quatro anos, estaremos aqui para nos sujeitarmos à vossa avaliação.”
A terminar, Montenegro falou para “aqueles que querem acordar na segunda-feira com a tranquilidade de um governo para quatro anos, com um governo tolerante e dialogante, que não anda a amesquinhar os adversários”. “Não dispersem voto”, despediu-se o líder social-democrata.
Flirt tenso entre Montenegro e Rocha deixa Melo cada vez mais só