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Montenegro passou a manhã de domingo na praia de Espinho
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▲Montenegro passou a manhã de domingo na praia de Espinho

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

▲Montenegro passou a manhã de domingo na praia de Espinho

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Flirt tenso entre Montenegro e Rocha deixa Melo cada vez mais só

Agastado com abraço de urso de Montenegro, Rocha decidiu revelar pressões do PSD antes das eleições para provar que não é "apêndice". Mas aliança é quase um dado adquirido. Melo vai perdendo espaço.

Passam 20 minutos da uma da tarde. Quinta-feira, 8 de maio. Para trás ficava (mais) uma arruada pela baixa de Coimbra. Mais uma como tantas outras, mais uma sem grande história. Luís Montenegro aproxima-se do Mercedes cinzento que o costuma transportar. Próximo ponto de paragem: restaurante “Prazeres da Carne”, a 11 minutos de distância. Nuno Melo acerca-se do carro. “Luís, dás-me boleia?”. Chega a tocar com a mão no manípulo da porta. Há um momento de impasse, a porta fecha-se, o carro segue. Melo continua no mesmo sítio. Tinha ficado apeado.

Numa campanha sobre “deixar o Luís trabalhar”, o “Nuno” tem sido pouco mais do que um figurante. E o partido que lidera também. Ao contrário do que aconteceu há um ano, a marca CDS está totalmente esbatida nesta campanha. Em 2024, Melo pontuava quase todos os comícios e figuras como Paulo Portas, Assunção Cristas, Adolfo Mesquita Nunes ou Rui Moreira (que, não sendo do CDS, contou sempre com o apoio do partido) foram convidados de honra. Em 2025, Nuno Melo, depois de ter dado um ar da sua graça nos debates televisivos a que Luís Montenegro não quis ir, mal fala e poucos falam do CDS. Ou com o CDS.

Com uma outra agravante: numa campanha que passou a ser não sobre o regresso da AD ao poder, mas antes sobre a maioria que a AD pode fazer com a IL, Nuno Melo e o CDS passaram a ser vistos como os parceiros ainda mais juniores da coligação. Como se não contassem para o totobola. Todos os dias Rui Rocha fala sobre Luís Montenegro. Todos os dias Luís Montenegro poupa a IL de qualquer referência negativa (não fez, para já, qualquer apelo ao voto útil dos liberais digno desse nome). Mais recentemente, aliás, perante a pressão de Pedro Nuno Santos (o socialista falou mesmo em “perigo terrível”), o social-democrata começou a fazer campanha precisamente em nome dessa possível aliança — não há que ter medo nenhum, vai sugerindo Montenegro; a aliança AD-IL será perfeitamente natural.

No sábado à tarde, num comício à pinha em Famalicão, o social-democrata acusou Pedro Nuno de andar a agitar “papões” infundados sobre coligações e alianças futuras. No dia seguinte, em Espinho, depois de ter passado uma manhã a jogar voleibol de praia, como Rui Rocha fizera na véspera, Luís Montenegro assumiu sem rodeios que não se importaria de fazer dupla com o liberal nesse metafórico jogo. Mas uma dupla, como o nome indica, implica duas pessoas — não três. “O CDS ficava para todo o trabalho que é preciso fazer em equipa”, limitou-se a reagir Montenegro, perante a provocação dos jornalistas. Nuno Melo parece condenado a ficar no banco neste novo rearranjo.

The president of the Liberal Initiative (IL), Rui Rocha (C), plays volleyball during a campaign action at Santo Amaro Beach in Oeiras, near Lisbon, Portugal, 10 May 2025. FILIPE AMORIM/LUSA

▲ Rocha jogou volei em Oeiras. Um dia depois, Montenegro fê-lo em Espinho

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Rocha revela contactos sobre coligação pré-eleitoral

O presidente da IL arrancou a campanha com uma dificuldade que já era notória em tempo pré-eleitoral: precisava de arranjar uma maneira eficaz de se distinguir da AD, mas sem nunca rejeitar um acordo futuro com a coligação que governa. No fundo, o equilibrismo político próprio de tempos de campanha. E foi isso mesmo que foi tentando fazer, rejeitando diariamente falar em coligações, linhas vermelhas ou cadernos de encargos mas dizendo-se disponível para ajudar a “melhorar o país”. Lá acabou por arranjar uma solução, um mantra que serve para tudo: falar sempre em “coligação com os portugueses” — exatamente a mesma expressão que Montenegro tem usado. E não alterar a formulação, por muito que os jornalistas insistam.

Mas a estratégia mudou este domingo, com os liberais a ouvirem a crítica de Nuno Melo – e a sentirem a necessidade de ir a jogo e mostrar que são parceiros desejados. Pronto para a revelação que marcaria o seu dia de campanha, Rui Rocha posicionou-se em frente às câmaras, de visita a uma exploração agrícola de Santarém, e disse preto no branco, em on, o que muito se insinuava nos corredores da IL em off: já antes das eleições havia “muito quem quisesse” que os liberais se integrassem “noutro tipo de solução” – leia-se uma coligação pré-eleitoral.

Rocha foi mesmo ao ponto de concretizar: quando se soube que a “legislatura ia terminar”, houve “enormes manifestações de desejos” de que esse acordo acontecesse. “Não estou a falar de forças vivas, como outros disseram [André Ventura]. Estamos a falar de coisas concretas. Tenho a certeza de que não dirão o contrário. Mas para mudar o país temos de ir a votos sozinhos e ter mais votos”, disparou Rui Rocha.

Nos corredores da IL assegura-se ao Observador que esses contactos foram múltiplos e feitos ao mais alto nível, tendo o próprio Rui Rocha, mas também João Cotrim Figueiredo, chegado a ouvir propostas da AD. De acordo com as mesmas fontes, esses contactos foram feitos por elementos do Governo. Foram pedidos encontros, almoços e reuniões, o “assédio” durou mais de uma semana; Mariana Leitão, líder parlamentar da IL, foi vista em São Bento e foram oferecidos cargos ao partido. Sem sucesso.

“Houve conversas. O normal. Havia gente na Iniciativa Liberal que queria e no PSD também”, confirma fonte social-democrata ao Observador, relativizando a importância desses contactos. Os liberais discordam: a insistência do PSD foi bem real e intensa, e foi a IL quem quis ficar fora da coligação pré-eleitoral por entender, entre outras coisas, que o partido não pode servir para “limpar” a imagem do primeiro-ministro ou para ajudar o PSD. “A IL suportará um governo pela força do seus votos e para mudar o país, obrigando o PSD a fazer as reformas que tem de fazer no país”, nota uma fonte do partido.

O facto de Rui Rocha ter decidido agora revelar a existência destes contactos tem uma razão de ser: é o presidente da Iniciativa Liberal a tentar recuperar o controlo da narrativa. Não é a IL que está desesperada por um acordo; é o PSD, que já tenta negociá-lo há semanas. O CDS ainda lhe serviu de pretexto para voltar a assegurar a autonomia da IL, ao fazer questão de frisar que o seu partido não aceitou integrar a coligação na altura porque não é, nem quer ser um “apêndice” do PSD – deixando no ar que os democratas-cristãos o são.

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Montenegro precisa de Rocha forte para esvaziar Ventura

Luís Montenegro, em contrapartida, tem ignorado olimpicamente Rui Rocha. Tirando episódios pontuais — como o da praia de Espinho —, e que resultam essencialmente de provocações dos jornalistas que acompanham a caravana da AD, o presidente da Iniciativa Liberal não tem existido nos discursos do social-democrata. Nem para o bem, nem para o mal. Na sexta-feira, em Pombal, ainda fez uma breve menção, para assinalar que o seu Governo não é liberal na Habitação. Sem mais. Não há elogios desabridos, mas também não há continuidade nas críticas.

O que não deixa de ser estranho atendendo ao que é (ou deve ser) o objetivo de qualquer candidato em campanha: conquistar o maior número de votos possível, sobretudo no campo ideológico onde se move e quando existe uma interceção natural entre eleitorados. Aliás, de acordo com a última sondagem do ICS/ISCTE para o Expresso/SIC, a AD tem 84% de eleitores convictos, mas existe uma grande margem para pescar em águas liberais — 28% dos potenciais eleitores da IL manifestam alguma volatilidade. Seria de esperar, portanto, que Luís Montenegro carregasse no apelo ao voto deste segmento eleitoral. Na primeira semana de campanha, no entanto, não o fez.

E há uma razão de ser para isso. Aliás, duas: na campanha da AD, espera-se que os liberais consigam o melhor resultado possível e que assim tenham força suficiente no Parlamento para construir uma maioria à direita; em segundo lugar, o núcleo duro de Luís Montenegro entende que a IL deve ser preservada como destino preferencial dos votos dos descontentes com a AD — quem, à direita, não quer votar em Montenegro só votará IL ou Chega; atacar a IL seria reforçar indiretamente o Chega, que não conta para o cardápio de soluções da AD.

Para os liberais, que em visitas a feiras ou a hospitais vão encontrando quem lhes peça que se “juntem a Montenegro” e “façam maioria”, a ordem é para ignorar o tema na medida do possível: a disponibilidade para acordos é conhecida e nos corredores da IL acredita-se que, assim sendo, não vale a pena estar a reforçá-la, sob pena de a campanha liberal passar a girar à volta da AD – e de o partido se tornar um satélite de Montenegro.

Os eleitores de direita, confia a IL, sabem que no momento em que a questão se coloque o partido não virará as costas a uma solução de governo – ou, nas palavras de Rocha, não será pelos liberais “que não haverá estabilidade no país”. Por isso, a ideia passa sobretudo por falar de Montenegro, mas para marcar diferenças. É preciso combater o voto útil – que a IL acredita que desta vez terá menos expressão porque a dinâmica de vitória está do lado da AD – e assegurar que não se instala a ideia de que votar Rocha ou Montenegro vai dar ao mesmo.

Para evitar essa diluição, os liberais vão fazendo questão de carregar especificamente nas propostas em que vão mais longe do que a AD, seja nas diminuições ou eliminações de impostos, no plano para o sistema de Saúde ou para a Segurança Social (mas também repetem promessas que a AD já assumiu, como o relançamento das PPP na Saúde ou a privatização da TAP). “Não me perguntem se vou ser exigente, é claro que vou ser exigente”, dizia esta semana Rocha.

A ideia faz parte de toda a estratégia de campanha da IL: a carrinha que os liberais conduzem para todo o lado tem uma tabuleta pintada com setas em diferentes direções; a indicação para “AD” e “PS” está virada para o mesmo lado, a da “IL” para o outro. É a ideia em que Rocha vai insistindo, para piscar o olho ao eleitorado de direita que esperava que Montenegro tivesse feito mais neste ano de governação: Montenegro tem estado a governar “à Costa”; a influência dos liberais trará a “energia” que anda a faltar.

“As propostas são diferentes: a nossa é de prosperidade e de mudança, a da AD é mais do mesmo”, vai frisando Rocha, cumprindo o tal equilibrismo: depois destas críticas à AD, lembra sempre que quem não se mostrar disponível para dialogar e “transformar o país” será “inútil”. “Deste discurso não saio, peço perdão”, dizia aos jornalistas a meio da semana. Não precisa: não há grandes dúvidas de que, desde que ganhe força e deputados e tenha, com a AD, pelo menos tantos deputados como a esquerda – deixando o Chega fora das contas –, a IL se sentará à mesa com Montenegro no dia a seguir às eleições.

O presidente da Iniciativa Liberal (IL), Rui Rocha, durante uma ação de campanha para as eleições legislativas onde foi impedido pela Polícia Marítima de sair numa embarcação de pesca para uma volta no alto-mar, no porto de pesca da Póvoa de Varzim. 08 de maio de 2025. FERNANDO VELUDO/LUSA

FERNANDO VELUDO/LUSA

O que fazer com Melo? Logo se vê

Tudo isto é mais ou menos óbvio. O que não é óbvio é o lugar do CDS nessa futura aliança. É importante recordar que, mesmo não tendo qualquer expressão eleitoral antes das legislativas de 2024, o CDS recebeu do PSD a possibilidade de eleger dois deputados, ter um Ministério, o da Defesa, e duas secretarias de Estado — foi um acordo generoso para os democratas-cristãos. No futuro, é altamente improvável que a IL, que foi e vai a votos sozinha, não venha a reclamar (e a receber) mais Ministérios do que o CDS em qualquer aliança à direita. E Nuno Melo pouco ou nada poderá fazer para o evitar.

Nem tão pouco parece estar a ser envolvido na definição das principais decisões — o que já tinha sido uma evidência durante o debate parlamentar que resultou no chumbo da moção de confiança e consequente queda do Governo. Voltando a este 8 de maio e ao dia em que Melo ficou apeado. No “Prazeres da Carne”, a campanha de Montenegro ensaiou uma manobra de charme que não acontecera na anterior corrida eleitoral e organizou um almoço entre candidato e jornalistas — algo comum neste tipo de momentos e que serve essencialmente para que os repórteres possam fazer algumas perguntas em off the record ao candidato e para que este possa responder com outro à-vontade. Melo estava à direita de Montenegro, que tinha à sua esquerda o diretor de campanha, Pedro Esteves. Os jornalistas foram ocupando os demais lugares até preencherem um retângulo vazio no centro.

À medida que os comensais terminavam o almoço, frango de churrasco com arroz e batatas fritas, houve um movimento natural de aproximação dos jornalistas a Montenegro — o barulho do restaurante impossibilitava que se conversasse serenamente a partir dos respetivos lugares. Gesto automático, o candidato voltou-se para a sua esquerda, virando as costas (involuntariamente) a Nuno Melo. O líder do CDS foi ficando com cada vez menos gente do seu lado da mesa. Até ficar sozinho. A determinada altura, enquanto Montenegro e os jornalistas conversavam, Melo estava a fazer scroll no telemóvel. Procurava pneus para carros.

Estes e outros momentos causaram natural desconforto na equipa do CDS. Nas ações de rua por este país fora, não é raro ver Nuno Melo a seguir na frente, fora da bolha, tirando fotografias e cumprimentado quem o procura. Atrás dele, segue quase sempre Pedro Morais Soares, secretário-geral do partido, e outros elementos do CDS, de forma a garantirem que o democrata-cristão nunca fica sozinho. Em Ovar, por exemplo, enquanto Montenegro passeava ao lado de Salvador Malheiro e Emídio Sousa, pesos pesados do PSD no distrito de Aveiro, Melo seguia por entre a multidão, quase anónimo, quase como se não fosse também ele um dos rostos da coligação.

No sábado, em Famalicão, a jogar em casa — é um orgulhoso famalicense —, Melo deixou um recado para dentro de casa. Numa das raras oportunidades que teve para discursar, e numa altura em que se está formar à vista de todos uma aliança entre Luís Montenegro e Rui Rocha, o  líder do CDS foi claro: “As pessoas sabem com o que contam com a coligação da AD. Diria mais: a coligação que o CDS tem é com o PSD; não é com mais ninguém”. Depois dele, Montenegro subiria ao palco para corrigir: “A nossa coligação é com os portugueses”. Não está fácil a vida para o CDS. E pode ficar pior depois de 18 de maio.

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