As centrais de arranque autónomo que restabeleceram a energia no sistema elétrico português deveriam ter atuado mais depressa e permitido repor o serviço mais cedo após o apagão de 28 de abril. A opinião foi defendida por José Medeiros Pinto, que foi diretor do planeamento de redes da REN (Redes Energéticas Nacionais) durante um debate na Ordem dos Engenheiros sobre o incidente que afetou as redes ibéricas há cerca de três semanas e cuja causa ainda não é conhecida.

Segundo Medeiros Pinto, as centrais responsáveis pela prestação do serviço de black start — a Tapada do Outeiro e Castelo de Bode — deveriam ter arrancado em 5 minutos até porque eram pagas (pelas tarifas) para estarem operacionais. “O apagão demorou mais três a cinco horas do que deveria ter demorado”, diz.

Houve várias tentativas de arranque que falharam, como aliás foi público logo no dia. Primeiro retomou Castelo de Bode no centro do país e depois a Tapada do Outeiro em Gondomar e o restabelecimento do serviço foi feito de forma gradual nas horas seguintes também com a ajuda das interligações a Espanha, entretanto retomadas a partir de Trás-os-Montes e Algarve.

Apagão. Governo estende serviço de arranque autónomo a mais duas centrais sem concurso

Independentemente da complexidade do sistema elétrico — que para o seu colega de painel, António Vidigal, especialista e consultor, são as “máquinas mais complexas do mundo”, com referência à extensão rede elétrica que vai de Portugal à Ucrânia — Medeiros Pinto defende que é preciso rever os procedimentos. O ex-diretor da REN concorda com a decisão do Governo de duplicar o número de centrais com a prestação deste serviço até 2030 — prolongando os dois contratos já existentes e acrescentando o Baixo Sabor e Alqueva (que já tinham sido contratadas), mas defende que deveria ser incluída uma central mais perto de Lisboa. Por ser capital, ter mais habitantes e centralizar mais serviços críticos deveria ter prioridade na reposição do abastecimento.

No dia do apagão, a reposição do serviço começou em Abrantes (cidade mais perto de Castelo de Bode) e em Vila Nova de Gaia (perto de Gondomar) e logo na altura foi noticiado pela REN que o grande Porto teria luz mais depressa do que Lisboa.

A central elétrica mais perto da capital é a TER, a central a gás natural da EDP que fica no Carregado, mas que não tem serviço de black start.

Apesar da demora relativa, Portugal esteve melhor que Espanha, que não conseguiu realizar o arranque autónomo a partir das centrais que estavam preparadas para prestar esse serviço, contando com a reposição da interligação a França e mais tarde a Marrocos para repor energia na sua rede.

[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 1.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]

Os despachantes que “nunca viram um apagão” e sistemas automáticos

As causas do apagão — que ainda ninguém conhece —, as respostas e as consequências dominaram a conferência sobre estratégia e segurança elétrica em Portugal que se realizou esta terça-feira na Ordem dos Engenheiros. Num comentário às dificuldades sentidas em ativar o arranque autónomo, o ex-diretor de despacho da REN, Amarante dos Santos, explicou que o arranque autónomo através de sistemas telecomandados, como o instalado entretanto em Castelo de Bode, é mais difícil do que quando existiam técnicos presentes e operadores nas subestações que davam mais fiabilidade.

O antigo diretor da REN lembra que eram feitos todos os anos ensaios que revelavam a dificuldade de encontrar carga (consumo) para segurar a rede. O processo de arranque automático exige que energia injetada a cada momento vá correspondendo sempre ao consumo. Ainda assim, concorda que com mais ilhas (centrais com black start) a partir das quais se inicia a reconstituição da rede (cada central funciona como uma ilha) o processo de recuperação da rede é mais rápido e aumenta a probabilidade de uma das centrais arrancar. Ainda que possa tornar a gestão da reenergização da rede mais complexa.

Só desde 2003, descrito no setor como o “ano dos apagões”, é que na Europa se começou a refletir sobre a necessidade de ter disponíveis centrais black start para não contar apenas com a tensão, que no caso de Portugal só podia vir de Espanha. Mas apesar da realização anual de testes e simulações, faltava a experiência efetiva de ressuscitar o sistema elétrico do zero. O último apagão geral em Portugal é já de 1976 e, como lembrou António Vidigal no mesmo painel,  “os atuais despachantes nunca viram um apagão, nem esperavam ver”.

Não foram oscilações na frequência, foram de tensão

Sobre a origem do problema, os especialistas reunidos no painel sobre a resiliência e sustentabilidade do sistema elétrico concordam que a informação disponível não permite tirar conclusões. Mas para João Peças Lopes, professor da Faculdade de Engenharia do Porto, já é possível concluir que não foi um problema de oscilações na frequência ou sequer falta de inércia no sistema.

De acordo com a informação pública sobre a evolução de indicadores das redes elétricas, o especialista reconstituiu uma cadência de eventos que o leva a concluir que o problema teve origem no nível da tensão da rede, na qual foram registadas oscilações muito significativas em Portugal e Espanha. E essa foi “a razão primeira” que levou os grupos de produção a desligarem-se automaticamente da rede. A partir do momento em que os grupos se foram desligando, e que a oferta deixou de responder à procura, começaram os problemas de oscilação de frequência que resultaram em pouco segundos no apagão.

As perturbações “extremas” na tensão são também apontadas pela associação de elétricas a operar em Espanha que pede uma investigação a esta situação que teve episódios horas e até dias antes do apagão.

Elétricas em Espanha pedem investigação a oscilações “extremas e generalizadas” de tensão na rede em horas e dias anteriores ao apagão

O especialista e consultor António Vidigal concorda que um problema de estabilidade da tensão é a causa mais provável (ninguém sabe o que provocou essa oscilação da tensão) — mas Peça Lopes referiu que poucos segundos antes tinha saído da rede uma central a gás combinado do lado de Espanha, numa altura em que as renováveis (com destaque para o solar) representavam mais de 70% da produção.

Sendo um “otimista”, António Vidigal defende que o que para uns foi um grande problema pode também ser uma “grande oportunidade” para introduzir mais segurança porque a complexidade do sistema está a crescer com a produção descentralizada, as renováveis e a eletrificação dos consumos.

São precisos mais serviços de sistemas, mais baterias e mais geradores síncronos. E já existem sistemas na Europa que estão a preparar-se para operar em segurança com níveis muito elevados de renováveis, como a Dinamarca e a Irlanda. É claro que tudo isto custa dinheiro e uma parte desse dinheiro vem das tarifas elétricas. E há sempre a resistência dos reguladores e dos políticos a adotar medidas que possam fazer subir o preço da eletricidade.

[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 1.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]