Em vida, James Earl Jones, a voz de Darth Vader nos filmes da saga Guerra das Estrelas, deixou explícito que não se opunha ao uso da inteligência artificial para replicar a sua voz. Cerca de oito meses após a morte do ator, aos 93 anos, a família respeita o seu desejo e os jogadores de Fortnite conseguem ter conversas com o mítico vilão graças a essa tecnologia. A novidade gerou polémica, com o sindicato de atores de Hollywood a ter entrado com um processo por “práticas laborais injustas”.
Foi na semana passada que o Fortnite anunciou que os jogadores poderiam falar com a personagem e receber respostas geradas por inteligência artificial, com recurso ao modelo Gemini 2.0 Flash da Google e ao modelo Flash v2.5 da empresa ElevenLabs. “O Darth Vader não seria tão sinistro sem a lendária performance de James Earl Jones, que deu voz a Vader nos filmes da Guerra das Estrelas. É uma honra poder contar com a voz do falecido Jones e agradecemos aos herdeiros a oportunidade”, notaram os responsáveis pelo videojogo em comunicado.
Numa outra nota, divulgada pela Disney, que colaborou com a Epic Games (produtora do Fortnite) para desenvolver o novo recurso, a família de James Earl Jones disse que o ator sentia que “a voz de Darth Vader era inseparável da história de Guerra das Estrelas e sempre quis que os fãs de todas as idades continuassem a vivenciá-la”. “Esperamos que esta colaboração com o Fortnite permita tanto aos fãs de longa data de Darth Vader como às novas gerações partilharem o prazer desta personagem icónica”, acrescentaram.
O Fortnite explicou que os jogadores com menos de 13 anos – ou que estejam em países em que a idade de “consentimento digital” seja superior — precisam de autorização dos pais para conversar com a personagem. Além disso, o videojogo indicou que “o áudio para gerar as respostas” é processado, mas não é armazenado. “Os jogadores também podem denunciar tudo o que Darth Vader disser”, salientou.
Após o lançamento da funcionalidade, começaram a ser publicados nas redes sociais vídeos de jogadores que se mostravam a conversar com Darth Vader e a personagem a incluir palavrões nas respostas. Os responsáveis pelo videojogo reagiram da seguinte forma: “Introduzimos imediatamente uma correção e isto não deverá voltar a acontecer.”
We pushed a hotfix immediately and this shouldn’t happen again.
— Fortnite (@Fortnite) May 16, 2025
A utilização de inteligência artificial para dar voz a Darth Vader gerou controvérsia e a SAG-Aftra, o sindicato que representa os atores de Hollywood, entrou mesmo com um processo junto da National Labor Relations Board, a autoridade americana para as condições de trabalho, por “práticas laborais injustas”. Na ação, a Llama Productions, uma subsidiária da Epic Games, é visada e acusada de “fazer alterações unilaterais aos termos e condições de emprego”.
Em comunicado, a SAG-Aftra explicou que respeita o direito do atores e dos seus herdeiros de “controlarem a utilização das suas réplicas digitais” e saudou a “utilização de novas tecnologias para permitir que as novas gerações partilhem o prazer desses legados e papéis de renome”. “No entanto, temos de proteger o nosso direito de negociar termos e condições de utilização da voz que substituam o trabalho dos nossos membros, incluindo aqueles que anteriormente faziam o trabalho de combinar o ritmo e tom icónicos de Darth Vader nos videojogos”, notou.
Desta forma, o sindicato acusou a Llama Productions de “substituir o trabalho de artistas humanos por inteligência artificial” e lamentou não ter sido avisado de que o iam fazer, para que isso pudesse ser negociado. As preocupações levantadas esta semana fazem parte de uma luta mais ampla, que levou os atores a entrarem em greve contra as empresas de videojogos há mais de nove meses. A greve começou em julho e ainda decorre.
Há cerca de duas semanas, revelou a revista Variety em exclusivo, as empresas de videojogos, incluindo a Llama Productions, enviaram à SAG-Aftra a “melhor”, mas também a “última e final”, proposta para um acordo. Numa das alterações em particular é proposto que os atores que autorizem a utilização de um gémeo digital, criado com recurso à inteligência artificial, recebam uma compensação, sempre que essa versão seja utilizada, que seja equivalente à que receberiam se tivessem prestado diretamente aquele serviço.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 1.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]
A polémica com a utilização da inteligência artificial surge numa altura em que a Epic Games tem motivos para celebrar: o Fortine voltou esta semana a estar disponível na App Store dos EUA após uma ausência de praticamente cinco anos. O jogo tinha sido removido depois de a Epic Games ter implementado um sistema próprio de pagamentos diretos à sua empresa, que a Apple alegava que contornava as suas regras.
Iniciou-se uma batalha judicial entre as duas partes, que culminou, segundo o The Verge, com a Apple a ser obrigada a não cobrar taxas de compras efetuadas fora das aplicações. Na rede social X, Tim Sweeney, CEO da Epic Games, agradeceu o apoio daqueles que apoiaram a empresa para “abrir a concorrência nos telemóveis” e dos que “inicialmente apoiaram a Apple e mais tarde se juntaram ao lado vencedor, apoiando os direitos dos programadores e dos consumidores”.
Thanks to everyone who supported the effort to open up mobile competition and #FreeFortnite from the very beginning. And thanks to all of the folks who initially sided with Apple then later came around to the winning side, supporting app developer rights and consumer rights. https://t.co/Mw7kE7byLp
— Tim Sweeney (@TimSweeneyEpic) May 20, 2025