O chefe da diplomacia portuguesa defendeu este domingo, em Madrid, a “urgência” de travar as hostilidades e a “resposta manifestamente exagerada” de Israel, bem como a entrada de ajuda humanitária em Gaza, numa “situação desesperada”, para iniciar “um novo capítulo” com a solução dos dois Estados.
“Sem se travar as hostilidades e os ataques que estão no terreno, a resposta manifestamente desproporcionada que está a ser dada em Gaza e que se agravou de modo catastrófico a partir de março, com o fim do cessar-fogo, não é possível avançar na solução dos dois Estados”, afirmou Paulo Rangel, que participou este domingo na reunião do chamado Grupo de Madrid.
O encontro de hoje foi promovido pelo Governo espanhol para debater os passos para a solução dos dois Estados — Israel e Palestina.
Da reunião deste domingo, a primeira em que Portugal participou, o “grande grito” que sai é “que se parem as hostilidades o mais depressa possível e que a comunidade internacional possa pressionar o governo de Israel a abrir as fronteiras para ajuda humanitária no quadro de um cessar-fogo que possa dar depois origem a um novo capítulo”.
Segundo o ministro dos Negócios Estrangeiros português, “para se criar essa confiança, é fundamental (…) criar um clima que possa depois levar a dar os passos que são necessários para a Autoridade Palestiniana tomar conta do governo da Faixa de Gaza, juntamente com a Cisjordânia, e para começar o processo de reconstrução, com o grande apoio da Liga Árabe e o plano árabe que está a ser trabalhado com todos esses passos e com as questões que vão dar depois as garantias de segurança ao Estado de Israel e ao futuro Estado palestiniano”.
Este processo, argumentou, “depende neste momento da urgência de parar as hostilidades, de parar os ataques de tipo militar, de fazer entrar em termos massivos a ajuda humanitária, porque a situação é desesperada”.
Rangel advertiu que, “neste momento, existe, de facto, um risco sério de a fome ter consequências ainda mais devastadoras do que aquela que os ataques militares já têm tido”.
Antes da reunião, o ministro dos Negócios Estrangeiros, recebeu o primeiro-ministro da Autoridade Palestiniana, Mohamed Mustafa, na embaixada portuguesa em Madrid, a quem sublinhou a importância da solução dos dois Estados como parte da resolução do conflito.
“Além da solidariedade pela situação humanitária em Gaza, convergimos na importância para a solução dos dois Estados da reunião do Grupo de Madrid e da Conferência da ONU de junho”, escreveu Paulo Rangel numa publicação na conta do Ministério dos Negócios Estrangeiros na rede social X.
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— Negócios Estrangeiros PT (@nestrangeiro_pt) May 25, 2025
Líder palestiniano apela a mais pressão para acabar com “inferno” em Gaza
Em Madrid, Mustafa, pediu que se intensifique a pressão que a Europa e outros países começaram a exercer sobre Israel para acabar com “o inferno” em Gaza e na Cisjordânia. “Este inferno deve acabar imediatamente e incondicionalmente”, afirmou no seu discurso na cimeira.
“Declarámos oficialmente Gaza como zona de fome. A comunidade internacional deve agora atuar com a urgência e a seriedade que tal declaração exige”, disse Mustafa na conferência presidida pelo ministro dos Negócios Estrangeiros espanhol, José Manuel Albares.
Mustafa acusou Israel de cometer “crimes de guerra claros e contínuos” com “a negação deliberada de alimentos e ajuda, o bombardeamento incessante e a destruição de todos os elementos da vida” em Gaza.
A situação na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental é “igualmente grave”, com a expansão dos colonatos, o “terrorismo impune dos colonos”, a destruição de casas e a “deslocação maciça” da população.
O político palestiniano congratulou-se com as medidas tomadas esta semana pela União Europeia (UE) e pelo Reino Unido, entre outros, para pressionar Israel face ao sofrimento da população após uma série de ataques na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental.
Apelou ainda à “intensificação” desses esforços para que tenham mais “efeito” em Israel, tomando “medidas urgentes e decisivas para quebrar o cerco na Faixa de Gaza” e permitindo a entrada de ajuda humanitária “por terra, mar e ar”.
Mustafa recordou que esta quarta-feira se assinala o primeiro aniversário do reconhecimento da Palestina como Estado por parte de Espanha, o que descreveu como “um investimento moral e estratégico na causa da paz e da justiça”.
O líder palestiniano espera que, na sequência da cimeira de Madrid, seja exercida uma maior pressão sobre Israel na conferência de alto nível da ONU sobre a solução de dois Estados, prevista para 17 de junho em Nova Iorque.
“Espera-se a participação de mais de 100 países (…) e esperamos que seja uma plataforma fundamental para nos aproximar da paz”, disse o primeiro-ministro palestiniano aos jornalistas.