Sexta-feira, 23 de maio. A pediatra Alaa al-Najjar saiu cedo para o trabalho, no Hospital Nasser em Khan Younis, no sul de Gaza. Em casa ficaram os 10 filhos, o mais velho de 12 anos e a mais nova de apenas seis meses: Yahya, Adam, Rakan, Raslan, Jibran, Eve, Rivan, Luqman, Sadeen e Sidra. E estava a trabalhar quando os corpos de sete dos filhos chegaram ao hospital. Tinham sido mortos num ataque israelita à sua casa.
De acordo com fontes do Hospital Nasser, que são citadas pelo The Guardian, os corpos estavam de tal forma queimados que Alaa al-Najjar não conseguiu identificar os filhos. Duas das crianças, a de seis meses e a de 12 anos, que as autoridades acreditam estar mortas, ainda não foram encontradas. Adam, de 11 anos, foi a única das crianças a sobreviver ao ataque, juntamente com o pai, Hamdi, que também é médico.
Adam chegou ao hospital com ferimentos graves num dos braços e teve de ser operado. Quando saiu da sala de operações, relata a CNN, chamou pela irmã Eve e disse “há sangue na árvore”. Nos próximos dias, terá de ser novamente operado. Já o pai está em estado crítico e corre risco de vida, tendo ferimentos no cérebro, nos pulmões, num braço e num dos rins, segundo a médica Milena Angelova-Chee. O hospital diz que está a “fazer tudo” para o salvar.
Na passada sexta-feira, Hamdi, de 38 anos, deixou a mulher, de 35, no hospital e foi comprar comida para os filhos. Quando regressou a casa, conta Sahar al-Najjar, uma sobrinha do casal, testemunhou um ataque israelita com um míssil — que não chegou a ser detonado — contra a sua casa. Correu para dentro e tentou salvar os filhos, mas a casa foi atingida por um segundo ataque.
“O meu pai foi salvar o tio Hamdi, mas encontrou o Adam na rua e levou-o para o hospital. O tio Hamdi foi levado pela defesa civil e o resto das crianças estavam todas carbonizadas”, afirma Sahar al-Najjar, acrescentando que a mãe das crianças “mal consegue falar”. “Se pudessem ver a cara dela, perceberiam a sua dor. Ela só reza para que o seu filho e marido recuperem”, acrescenta, em declarações à CNN.
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Já Ali al-Najjar, o irmão mais velho de Hamdi, conta ao The Guardian que “a casa foi muito difícil de limpar porque o teto estava empilhado sobre si próprio”. “Comecei a procurar pela casa na esperança de encontrar alguma das crianças porque pensei que o bombardeamento as pudesse ter atirado para fora. Mas depois, infelizmente, apareceu o primeiro corpo queimado. Depois de apagar completamente o fogo, encontrámos os restantes — alguns estavam mutilados e todos estavam queimados”, afirma, notando que dois dos corpos permanecem por encontrar.
Alaa al-Najjar é descrita pelos colegas como uma pediatra capaz de trabalhar sob pressão e que conseguia conciliar o trabalho, tratando de dezenas de crianças diariamente, com uma família grande. “Ela estava sempre preocupada com os seus filhos quando estava no hospital. Quando soube que uma casa tinha sido bombardeada no bairro de Qizan al-Najjar, o seu coração de mãe sentiu que algo estava errado”, lembra Ahmad al-Farra, que também é médico no Hospital Nasser.
Segundo o The Guardian, amigos e colegas de trabalho de Alaa al-Najjar e do marido dizem que o casal estava a planear deixar Gaza e mudar-se para o Egito, uma vez que os filhos tinham nacionalidade egípcia. O ataque contra a casa da família já está a ser investigado pelas Forças de Defesa de Israel, que lembraram que “ordenaram que os civis evacuassem” a região de Khan Younis por questões de segurança, “antes do início da operação das tropas”. “As alegações sobre os danos causados aos civis não envolvidos estão a ser analisadas”, indicou o exército israelita.