O grupo José de Mello, que apresentou esta terça-feira lucros referentes a 2024 de 81 milhões de euros (menos que os 95 milhões de 2023), acredita que o desempenho “prepara-nos para a ambição de crescimento que temos pela frente”, assegurou Salvador de Mello, presidente da holding da família José de Mello.

Os proveitos atingiram os 1.487 milhões de euros, mais 13%, com o EBITDA a situar-se nos 196 milhões. O que Salvador de Mello apelida de “resultados robustos e consistentes”. Os ativos atingiram 2.630 milhões, com a dívida a subir para 759 milhões.

Além de deter a CUF (saúde) e a Bondalti (química), o grupo tem ainda uma área de negócio ligada aos vinhos (Winestone) e uma participação minoritária na Brisa. Por outro lado, continua a dar passos numa nova área de negócio, do lítio verde, através da Lifthium, cujo projeto continua a ser desenvolvimento numa ótica de startup. O grupo José de Mello explica que o processo para a instalação de uma fábrica de demonstração em Coimbra está a aguardar licenciamento.

“Somos investidores de longo prazo. Somos resilientes”, mas ainda assim “não vamos esperar ad eternum, isso não existe”. No entanto, ainda é tempo de esperar pelos licenciamentos, garantindo a José de Mello ter “uma equipa muito forte e empenhada na concretização do projeto”. É, explica Salvador de Mello, uma tecnologia completamente diferente, de eletrólise, não é de rocha. “É um processo mais limpo ambientalmente e não está dependente das minas de lítio”. A Lifthium pretende utilizar a eletrólise para a refinação de lítio e utilizar materiais vindos da reciclagem.

O projeto faz parte “do foco de longo prazo”. A fábrica de demonstração está a ser preparada para Coimbra, não havendo data para o arranque da operação, tendo sido feitos testes piloto no Canadá. A José de Mello está também a empreender as negociações comerciais com players à escala europeia. “Continuamos a acreditar que é um projeto que a longo prazo faz sentido”.

Até agora já colocou no projeto 35 milhões de euros. “Estamos muito tranquilos com o investimento que fizemos. A oportunidade merece investimento”, diz Salvador de Mello, presidente executivo do grupo. Os licenciamentos são, no entanto, “mais morosos do que gostaríamos”. Falta, além de acordos comerciais, definir o financiamento do projeto. Tendo o grupo traçado como pretensão instalar a refinaria de lítio em Estarreja, conforme avançado pelo Eco.

A Bondalti teve, em 2024, proveitos de 555 milhões de euros, mais 6%, ficando o EBITDA nos 71 milhões (menos 27%) e os lucros nos 41 milhões (uma descida de 21%). Salvador de Mello argumenta que, face ao histórico, os resultados são superiores e face aos congéneres também. Mas em 2022 e 2023 houve um pico devido aos preços “invulgares”.

“Dá grande confiança para projeto de crescimento que queremos concretizar”, que passa também pela compra da espanhola Ercros, que aguarda a decisão por parte das autoridades de concorrência para depois chegar ao mercado. É que a oferta de cerca de 330 milhões foi feita em bolsa, através de uma OPA (Oferta pública de aquisição).

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Num ambiente de guerra comercial, Salvador de Mello assume que é um tema que “temos de acompanhar”, até pelos efeitos no crescimento económico mundial e em particular europeu. No entanto, acrescenta, “não estamos expostos diretamente. É um tema de preocupação para o mundo, uma grande incerteza sobre o que se vai passar na economia, mas a Europa tem uma procura própria. A exportação para os EUA não é principal fator de procura, nomeadamente para Bondalti”, que, no entanto, tem uma exposição indireta às tarifas.

No plano de negócios traçado, o grupo José de Mello projeta um investimento de 1.500 milhões de euros entre 2022 e 2030, tendo já concretizado 650 milhões entre 2022 e 2024. Faltam, assim, 850 milhões para chegar à marca.

O investimento do grupo José de Mello passa também pela CUF saúde, que tem vindo a crescer também por aquisição — aguarda a decisão da Autoridade da Concorrência em relação à pretensão de comprar o Hospital Particular do Algarve. Isto depois de ter adquirido o Grupo Arrifana de Sousa e a Mimed, rede de clínicas de proximidade em Lisboa, e ter anunciado novos hospitais médios em Braga e no Barreiro.

A CUF Saúde teve proveitos, em 2024, de 891 milhões de euros, um EBITDA de 148 milhões para alcançar lucros de 43 milhões de euros.

Estes foram dois negócios bastante afetados pelo apagão de 28 de abril. Salvador de Mello garante que ainda não tem os dados quantificados do impacto, mas “foi relevante”, não estando decidido, assim, se vai avançar com pedidos de indemnização.

Depois das eleições de 18 de maio, Salvador de Mello, que não se alonga em declarações sobre política, acaba no entanto por enviar um caderno de encargos ao novo governo de Luís Montenegro: “Mais importante é que tenhamos um governo reformista e se foque na competitividade do país e da Europa. A Europa atravessa momento histórico, Portugal deve ter um papel ativo na definição de que Europa queremos. Um Governo reformista, não só na nossa agenda portuguesa, mas também no contributo que possa dar, à nossa escala, a nível europeu”. Ser reformista internamente é focar-se na competitividade do país, na atração de investimento, na reforma na justiça e no alívio fiscal “que também me parece muito relevante”.

Quanto à nova configuração do Parlamento e ao crescimento do populista Chega, Salvador de Mello assume que “temos de respeitar a decisão dos eleitores. E perceber as motivações dos eleitores, e temos de perceber isso. O governo tem de concretizar esta agenda de reformas e dar resposta àquilo que são as preocupações das pessoas”.