Qualquer banda tem sempre artistas secundários que fazem brilhar ainda mais quem nasceu para ser figura principal. Porque é melhor, porque é único, porque é superdotado para algo – ou porque é melhor, único e superdotado com uma bola nos pés, como acontecia com Diego Armando Maradona. Quando trocou o sonho do Barcelona pela realidade incerta do Nápoles, naquela que foi uma das transferências que mudou a história do futebol na década de 80 e no início dos anos 90, El Pibe chegou ao sul de Itália para ser o protagonista de um enredo com vários atores mais ou menos secundários. Careca, avançado brasileiro que veio de São Paulo, ficou como o fiel escudeiro do argentino no ataque mas, lá está, balizados pelos tais artistas secundários.

Artistas secundários, histórias de vida tão ou mais marcantes e profundas do que as figuras principais. Um exemplo disso mesmo foi Andrea Carnevale. Não jogava tantos minutos como Ferrara, Baroni, Alemão ou Crippa, entre outros, mostrou a sua importância em determinados momentos ao longo dos quatro anos que representou o Nápoles para ajudar também a equipa a ganhar dois Campeonatos, uma Taça UEFA e uma Taça de Itália entre 1987 e 1990, ano em que terminou o Campeonato do Mundo de seleções na terceira posição depois da derrota nas meias com a Argentina… de Maradona. Foram mais de 30 golos em 105 jogos num grupo que representou muito mais do que uma equipa e vestiu o fato do underdog de uma zona com menos dinheiro, menos capacidade, menos mediatismo e menos atenção para bater os grandes do norte.

[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 3.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui e o segundo aqui.]

Nascido em Monte San Biagio, Carnevale, um dos sete filhos de uma família com poucos recursos, cedo foi dando nas vistas com a bola nos pés mas nem por isso deixou de tentar ajudar nas contas de casa de outra forma, tendo lições de carpinteiro para fazer vários trabalhos num percurso que deixou cedo a escola para trás. Quando foi visto por um olheiro do Latina Calcio 1932, onde passara o futuro companheiro de seleção Alessandro Altobelli, começou uma carreira que contou com passagens por Avellino, Reggiana, Cagliari, Catania, Udinese, Roma e Pescara tendo como ponto alto a passagem pelo Nápoles, onde ganhou todos os títulos alcançados na carreira e ganhou projeção para somar as primeiras internacionalizações antes de uma suspensão de um ano por uso de substâncias ilícitas em 1990 que marcou o início do seu declínio.

Hoje, Carnevale mantém a ligação ao futebol noutros papéis, sendo coordenador da formação e agora do departamento de recrutamento da Udinese, onde está há mais de duas décadas. Contudo, o passado do antigo avançado de 64 anos está longe de resumir-se aos anos de glória em Nápoles, com uma história de vida dura que voltou a abordar numa entrevista de fundo ao Corriere dela Sera com grande impacto no país e que vem no seguimento do livro “O destino de um bombardeiro”, onde conta como perdeu a mãe aos 14 anos.

“A minha mãe nunca o tinha denunciado por medo que fizessem algo aos filhos. O meu pai tinha muitos ciúmes, havia um clima de terror em casa, eu estava lá quando ela era esbofeteada, espancada. Havia insultos. Até àquela manhã de 25 de setembro de 1975: ele acordou e pegou no machado. Alcançou a minha mãe, que estava a lavar roupa no rio perto de casa, e matou-a. Corri até lá, levei o machado manchado de sangue até à polícia”, recordou, antes de falar também no dia em que visitou o pai na prisão.

Tinha 16 anos. Queria olhá-lo nos olhos, ele tinha-me tirado tudo. Mas vi-o e abracei-o. Fortemente. De alguma forma perdoei-o, com a consciência de que tinha um homem muito doente à minha frente. Durante muitos anos vivi a dor mas também o medo de ser como ele. Mas não, não sou como ele. Entendi isso quando o vi. E foi o primeiro passo para a libertação. Era esquizofrénico, nunca foi tratado. Alguns anos depois, tirou a própria vida atirando-se de uma janela à minha frente”, assumiu Andrea Carnavale na entrevista.

Em paralelo, também ao Corriere dela Sera, o antigo jogador explicou o porquê de ter escrito agora o livro perante a sociedade que vê e os dias que correm. “Conheço famílias que ficaram órfãs, as vítimas. Contei tudo e escrevi para elas. O rasto de sangue não pára e eu volto a ser uma criança infeliz de cada vez que ouço uma destas histórias. Conselho a mulheres e filhas? A primeira vez que teu marido ou namorado, seja quem for, levantar a mão ou gritar, deixa-o. Ele fá-lo-á de novo, de certeza. Denunciem. Eu fiz isso naquela época mas não adiantou. Hoje colaboro com as instituições, quero estar na linha de frente. Denunciem”, frisou.