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“A coisa mais próxima do inferno que consigo imaginar”. Casal britânico está detido há mais de 120 dias pelos talibãs

Este artigo tem mais de 1 ano

Com dupla nacionalidade, 75 e 79 anos, há décadas que se dedicam à educação no país. Mas os talibãs fecharam Peter e Barbie numa prisão de alta-segurança. E, até agora, ninguém os conseguiu libertar.

Peter, com 79 anos, tem problemas de saúde e foi espancado quando o detiveram no avião. Barbie foi a primeira mulher a ser autorizada pelos talibãs a ensinar, incluindo homens
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▲Peter, com 79 anos, tem problemas de saúde e foi espancado quando o detiveram no avião. Barbie foi a primeira mulher a ser autorizada pelos talibãs a ensinar, incluindo homens

Reprodução / Instagram Free Peter and Barbie

▲Peter, com 79 anos, tem problemas de saúde e foi espancado quando o detiveram no avião. Barbie foi a primeira mulher a ser autorizada pelos talibãs a ensinar, incluindo homens

Reprodução / Instagram Free Peter and Barbie

Liliana mantém as suas redes sociais constantemente atualizadas com novas informações sobre Peter e Barbie, presos em Cabul, no Afeganistão. A partir da Amadora, a quase nove mil quilómetros de distância, partilha da indignação do filho do casal, que se manifestou em frente à Casa Branca contra a detenção dos pais sem acusação formal. Os Reynolds realizam trabalho social no país há décadas e nunca tiveram de encarar o “inferno” como agora.

Esta sexta-feira assinalam-se 125 dias (quatro meses e oito dias, segundo o site “Free Peter and Barbie“) desde que o casal foi detido pelas autoridades afegãs a bordo de um avião em Cabul. Os britânicos regressavam à sua casa na cidade de Bamiyan, no centro do país, acompanhados por um intérprete local e por uma colega, Faye Hall, quando foram impedidos de seguir viagem sob a justificação de não possuírem a documentação necessária.

No dia seguinte, a 2 de fevereiro, Liliana Souza recebeu a notícia através de um grupo de WhatsApp composto por antigos e atuais trabalhadores humanitários no Médio Oriente. Técnica social de Apoio a Refugiados, Liliana vive em Portugal desde 2019, tendo residido e trabalhado no Afeganistão entre 2011 e 2014. Atualmente, apoia refugiados afegãos em todo o território nacional, mantendo assim uma ligação afetiva e profissional com o país e com pessoas como Peter e Barbie Reynolds.

“A detenção deixou todos muito confusos”, disse Liliana ao Observador, considerando que “o caso não faz sentido”. No dia em que foram detidos no aeroporto de Cabul, foi-lhes dito que seriam libertados em breve, tratando-se apenas de um problema de documentação. No entanto, as acusações mudaram, Faye Hall foi libertada em abril, mas o casal continua na prisão, sem julgamento, apesar da sua reputação e do respeito conquistado ao longo dos anos.

Com 79 e 75 anos, Peter e Barbie vivem há 18 anos no Afeganistão, embora a sua ligação ao país seja ainda mais longa. Por escolha, casaram-se em 1970 num cartório em Cabul e, desde então, têm apoiado o desenvolvimento do sociedade afegã, especialmente na área da educação, ensinado mães com filhos, por exemplo. Quando Liliana os conheceu, em 2009, já eram bem conhecidos entre os trabalhadores humanitários “por serem mais velhos e experientes”.

▲ Casamento de Barbie e Peter Reynolds em 1970 no cartório de Cabul

Reprodução / Instagram Free Peter and Barbie

“A primeira vez que estivemos juntos foi mesmo na casa deles”, recorda Liliana, referindo-se a uma altura em que apenas sonhava em servir o povo afegão. Nessa visita exploratória há mais de 15 anos, os Reynolds tornaram-se uma das suas principais referências.

Peter e Barbie viveram na mesma vizinhança que Liliana e o seu marido, Thiago Souza, em Cabul, e foram peças-chave no projeto em que o casal de brasileiros trabalhava. A “Escola do Futuro”, antes da retoma do poder pelos talibãs em 2021, era uma instituição não-governamental de ensino complementar para crianças, jovens e mulheres. Apesar de contar com alguns professores estrangeiros, a maioria era composta por afegãos que tinham terminado o ensino secundário — prática comum no país. A formação inicial de quatro a seis semanas era ministrada pelos Reynolds: “Eles ajudavam-nos imenso!”

A admiração pelo trabalho dos Reynolds não era exclusiva de Liliana. Mesmo o actual governo talibã o reconheceu. Após decidirem permanecer no país, mesmo com os acontecimentos que sucederam à saída dos EUA do Afeganistão, os Reynolds submeteram todo o seu material pedagógico à apreciação das autoridades, tendo recebido autorização para continuar.

▲ Peter e Barbie Reynolds do lado de fora da embaixada britânica em Cabul, 1970

Reprodução / Instagram Free Peter and Barbie

“A minha mãe recebeu o primeiro certificado atribuído a uma mulher para ensinar e formar até homens”, afirmou Jonathan Reynolds, filho mais velho do casal, à BBC News, sublinhando a singularidade de Barbie num contexto em que a maioria das mulheres foi afastada do mercado de trabalho. Jonathan acrescentou que os seus pais sempre buscaram cooperação com os talibãs e foram transparentes, mas não receberam o mesmo em troca. “O que mais me perturba é a falta de transparência”, lamenta Liliana.

Talibãs confiscaram 59 livros da casa dos Reynolds

Logo após a detenção, familiares e amigos descartaram a hipótese de que a causa tenha sido a falta de documentos, pois o casal possui passaportes afegãos e dupla nacionalidade. A teoria com mais força é a de que terão sido encontrados materiais considerados “contra o islão” na sua casa.

Peter Reynolds terá relatado a Jonathan, através de um telemóvel na prisão, que os talibãs confiscaram 59 livros de sua casa. Quando questionou “qual parte daqueles livros era contra o islão”, responderam-lhe com outra pergunta: “Porque os tem?”.  Questão que o filho considera “ultrajante”.

“Para os talibãs, livros ‘contra o islão’ podem ser simples revistas ocidentais”, explica Liliana, falando com conhecimento adquirido tanto pela experiência pessoal por ter vivido numa altura em que o movimento já voltara a crescer nas pequenas cidades, como pela história recente. Durante o primeiro regime talibã (1996–2001), qualquer publicação com imagens ou conteúdos ocidentais era alvo de censura ou denúncia. Uma realidade que hoje se repete.

[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 3.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui e o segundo aqui.]

Em agosto do ano passado, o governo dos talibãs promulgou a chamada “lei PVPV” — Promoção da Virtude e Prevenção do Vício — com o objetivo de “implementar uma visão estrita de sociedade islâmica”, baseada na Sharia (sistema jurídico do Islão). A Missão das Nações Unidas no Afeganistão (UNAMA) alertou, num relatório de abril, para “a crescente erosão dos direitos humanos e das liberdades fundamentais” vivida no país que os Reynolds estão a sentir na pele.

Fontes próximas do caso disseram à AFP que “vários livros religiosos (não islâmicos)” foram encontrados na casa do casal, constituindo a principal alegação ainda em análise. Contudo, o porta-voz do Ministério da Administração Interna, Abdul Mateen Qani, afirmou à AFP que a investigação incide agora sobre “a legalidade da aquisição da cidadania” e garantiu que o caso “não é grave”. Peter Reynolds contou ao filho que mais de 30 pessoas com quem trabalharam foram interrogadas. Já em tribunal, foi-lhes dito que eram “inocentes” e que o julgamento seria “uma formalidade”. “Esperamos que o caso seja resolvido em breve”, disse Qani, no início de abril. Contudo, o casal permanece detido, “numa jaula e não numa cela”, mais de oito semanas depois.

“A coisa mais próxima do inferno que consigo imaginar”

“Estive algemado de mãos e pés com violadores e assassinos, incluindo um homem que matou a mulher e os três filhos, sempre aos gritos — um homem possuído por demónios”, narrou Peter, descrevendo a experiência como “a coisa mais próxima do inferno que consigo imaginar”. A família mostra-se especialmente preocupada com a saúde do casal. Sarah Entwistle, filha dos Reynolds, disse ao The Times que o pai sofre de infeções pulmonares, nos olhos e problemas digestivos, tendo inclusive sido espancado durante a detenção.

Entre fevereiro e março, Peter e Barbie enfrentaram várias audiências, mas o julgamento tem sido repetidamente adiado. A última vez que estiveram em tribunal foi a 24 de março, mesmo que o veredicto — nunca anunciado — tenha sido prometido para 27 de março. Foi também a última vez em que estiveram junto de Faye Hall. Depois de ficar dois dias detida, já fora da prisão de alta segurança Pulecharki, a cidadã norte-americana foi libertada a 29 de março.

Suhail Shaheen, embaixador talibã no Qatar, afirmou à CBS News que Hall foi libertada como “gesto de boa vontade”, porque os talibãs querem manter relações positivas com os EUA e outros países. A notícia trouxe alegria à família Reynolds por verem uma amiga querida dos pais livre e ainda renovou a sua esperança de que havia uma solução: apelar à intervenção norte-americana.

“Mesmo no nosso tempo no Afeganistão, outras nações recorriam aos EUA por terem mais poder de influência”, explicou Liliana, que concordou que a melhor coisa que fizeram — e têm-se desdobrado em apelos, notícias nos jornais, criaram um site, páginas em redes sociais como o Instagram, por exemplo —  pelo caso até agora foi ir à Casa Branca. Jonathan gravou um vídeo em frente à residência do Presidente norte-americano no dia 3 de abril, pedindo a libertação dos pais. Com a filha Annabelle ao seu lado, reconheceu que o governo britânico tem feito esforços, mas pediu ajuda ao Presidente Trump, por o considerar “o único líder com real capacidade de negociação”.

O apelo pareceu surtir algum efeito, inicialmente. Dias depois dois membros da delegação do Qatar visitaram o casal, demonstrando “genuína compaixão” e disponibilizando apoio logístico, como alimentos e cartões de telemóvel. No entanto, o gesto não trouxe qualquer resolução e o caso mantém-se suspenso.

Liliana continua vigilante  e fiel à promessa que fez à família: não deixar que Peter e Barbie sejam esquecidos. “Estou a fazer a minha parte, a divulgar o caso para que chegue às autoridades”, disse, indignada com a “injustiça” cometida contra um casal que “entregou a vida ao povo afegão”.

Reprodução / Instagram Free Peter and Barbie

A família partilha esse sentimento e afirma que o amor profundo dos Reynolds pelo Afeganistão torna a sua libertação mais complexa: “Querem sair da prisão porque não fizeram nada de errado, mas querem continuar o seu trabalho no país — o que diz muito sobre o seu carácter, resistência, visão e convicção”, concluiu Jonathan Reynolds.

Texto editado por Dulce Neto

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