Qual toca do coelho que nos leva ao País das Maravilhas, no Gandaia Club – The Decadent Restaurant somos Alice no elevador privado mais antigo de Lisboa, que sobe até ao já não tão Insólito rooftop. Com 145 anos de viagens, este pequeno ascensor — que, para segurança, suporta apenas duas pessoas — abre portas para um mundo encantado com as mesmas escolhas da história de Lewis Carroll: para comer ou beber. No The Hidden Rooftop não mudamos de tamanho mas o apetite aumenta sobre uma vista desafogada por Lisboa que é depois colmatado numa viagem até lá a baixo ao ainda Decadent, mas já não tanto Decadente.
O bar e o restaurante do hotel Independente Príncipe Real são agora Gandaia Club – The Decadent Restaurant e inauguraram esta quinta-feira, 5 de junho, pelas mãos do grupo Paradigma. Se o nome soar familiar, é porque a coincidência foi muita: em abril, a marca portuguesa Mustique tornou-se também Gandaia, mas, por lá, o foco é a moda. Aqui o grupo responsável pelo Canalha, Ofício e Café do Paço tem agora o objetivo de trazer de volta a esta zona de Lisboa — de caras para o miradouro de São Pedro de Alcântara — os portugueses, propondo que comecem pelo rooftop, que conta com uma carta de cocktails, focaccias e pastries para acompanhar o pôr do sol, e terminem a noite à luz das velas, de toalha branca estendida sobre as mesas, e com os sabores do chef David Vieira — que aspira agora a que o Gandaia esteja “na mesma linha de Canalhas e Ofícios”.
Ainda lá por cima é o Isco que toma conta da carta — das 16h00 às 20h00 —, com três opções de focaccia, a caprese (9 euros), de frango (9 euros) e salmão fumado (10,50 euros), e pastelaria, com os já conhecidos dos vizinhos de Alvalade kanelbulle de canela (2,75 euros) e de cardamono (2,75 euros), o pain au chocolat (3 euros), e o croissant simples (2,50 euros) e de pistachio (3,75 euros). Já nos cocktails — servidos das 16h00 às 23h00 —, quem tiver sede por um clássico, basta pedir, mas pela carta há um not port tonic (10 euros), com porto branco, pepino e morango, um pbj milkpunch (13 euros), com whisky, amendoim e frutos vermelhos, ou uma spicy margarita (12 euros), com tequilla, paprika, lima e malagueta).
▲ De toalhas brancas e velas acesas, o Gandaia serve comida de partilha no ambiente casual
Henrique Isidoro
Pela casa lá de baixo há quatro anos, o chef de 35 anos foi agora desafiado a criar uma nova carta que dê um mood diferente ao restaurante do Independente. Querido dos portugueses há mais de uma década, o The Decadente é agora Decadent, dando um passo atrás para regressar às origens. Nos últimos meses, David Vieira explorou as antigas cartas deste restaurante para dar vida a uma nova — e mantendo alguns dos pratos que eram queridos dos clientes. “Aquilo que nós gostamos muito de fazer aqui são duas coisas: trabalhar com vegetais e trabalhar com fogo. Portanto, nós aqui trabalhamos com carvão e com lenha precisamente para dar mais uma camada de storytelling ao restaurante e ao Gandaia”. O storytelling de que fala vai buscar a nostalgia da infância em Verba, uma aldeia perto de Aveiro, onde, criado pelos avós, foi habituado a conviver com o cheiro a fumo característico do inverno, com as lareiras a crepitar. “É aquela sensação de aconchego e bem-estar. E nós aqui o que fizemos foi usar parte dessa tradição a parte daquilo que é muito nosso e acoplar isso a pratos que são tipicamente portugueses”, explica.
Curta e de partilha, a carta do Decadent apresenta-se assim com uma abordagem de “ingredientes portugueses com uma dispensa asiática”. Ao gosto do chef, estas influências asiáticas sentem-se logo de início com o tártaro de gamba do Algarve e alga nori em base de frango crocante (9 euros) e a batata doce (9 euros) com xarope de rosas, granola e o molho de iogurte Labneh, tradicional do Médio Oriente. Se pelo menu houver uns pratos que soam familiares, é porque são, levaram apenas uma volta. Entre eles estão o favorito do chef — e, podemos dizer, dos presentes naquela mesa comunitária: a couve-coração grelhada com caldo de amêndoas e citrinos (13 euros). Desde o início do chef nesta cozinha, o restaurante do Independente continua com as presas de porco ibérico, shitake fumado e acelga (19 euros), a tempura de vegetais com caldo de bivalves e coentros (11 euros) — à qual o chef, em bom português, chama de peixinhos da horta — e o frango frito com dip de coentros (13 euros).
▲ A couve-coração grelhada, a batata doce e a cataplana de carabineiro
Henrique Isidoro
Já de novo, há espargos grelhados com ovo e huancaína (11 euros), o arroz de algas e cogumelos (13 euros), a lula dos Açores com grão em caldo de galinha fumado (18 euros), o picante arroz de cataplana, carabineiro e kombu (27 euros) e o linguado com grelos e gremolata (65 euros). No final, mas antes da sobremesa, o chef sugere o prego Decadente (11 euros): “Eu queria que ficasse na zona das sobremesas porque o conceito de melhor sobremesa portuguesa é um prego, um bocadinho à imagem daquilo que se faz em algumas marisqueiras, sendo a mais conhecida o Ramiro”, confessa. Dividido em quatro, é servido no açoriano pão lêvedo mergulhado num molho de mostarda Dijon com natas e mostarda de caroço.
Servidas à baixa luz das velas, com a cera a começar a cobrir a toalha branca que veste as casuais mesas do Gandaia, chegam as sobremesas — também elas portuguesas. Deitada num creme de alfazema e azeite que invoca a casa da avó está uma húmida torta de laranja (6 euros) que concorre contra a tarte de limão fumado (6 euros), contra o chocolate com caramelo salgado e amendoim (8 euros) e contra o fresco e leve granizado de pepino (7 euros) com merengue e granita de limão e baunilha — que se aconselha a comer rápido, para não derreter como a vela.