Nos corredores dos serviços secretos israelitas chamam-lhe “o fantasma”. Depois de meses em que Israel tem conseguido localizar, atacar e matar consecutivamente várias primeiras linhas do Hamas, há um líder do grupo que se prevê que ganhe ainda mais poder — e que continua a escapar: trata-se de Izz al-Din al-Haddad, provável novo líder do Hamas em Gaza.
Izz al-Din al-Haddad é um velho conhecido das forças israelitas: comandante do Hamas, supervisionou alguns dos “piores massacres” cometidos pelo grupo islâmico no ataque do 7 de outubro de 2023 em Israel, como escrevia o The Telegraph, e continuou a desempenhar um papel “chave” em manter o grupo junto e estruturado, apesar dos golpes que o exército israelita lhe tem conseguido infligir. Mas já antes do 7 de outubro era procurado por Israel, tendo já conseguido escapar seis vezes a ataques israelitas desde 2008.
Agora, Izz al-Din al-Haddad poderá ganhar ainda mais protagonismo. Este sábado, as forças israelitas confirmaram publicamente que conseguiram identificar o corpo de Mohammed Sinwar, o líder do Hamas que tinha subido na hierarquia do grupo depois da morte do seu irmão, Yahyah Sinwar, em outubro de 2024. Num ataque executado a 13 de maio os israelitas atingiram um túnel construído por baixo do European Hospital, em Gaza, matando — como confirmam agora — o segundo irmão Sinwar, alto responsável do Hamas.
Mesmo sem que o Hamas tivesse confirmado a morte de Mohammed Sinwar, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, dirigiu-se ao Parlamento israelita no final de maio para anunciar que este teria sido “eliminado”: “Nos últimos dois dias tivemos uma viragem dramática em direção a uma derrota completa do Hamas”. Referia-se também ao novo sistema de ajuda humanitária, que tem sido fortemente criticado por especialistas a nível internacional. Antes da morte de Mohammed Sinwar, o Wall Street Journal já identificava al-Haddad como “o comandante mais sénior do Hamas em Gaza”, no norte, a par de Sinwar.
Por isso, as mais recentes notícias colocam, segundo a imprensa internacional, Izz al-Din al-Haddad numa posição de ainda maior destaque dentro da hierarquia do Hamas. “Ele sempre foi reconhecido pelos nossos como um dos comandantes mais capazes”, diz ao Telegraph o major general Yaakov Amidror, antigo conselheiro para a Segurança Nacional de Israel. “Ele é cauteloso. Todos eles são cautelosos, mas também tem tido alguma sorte. Nunca cometeu o erro que nos permitisse matá-lo”. E desde o 7 de outubro terá já perdido dois filhos, mortos em ataques israelitas.
Comandante deverá ter poder de negociação
Izz al-Din al-Haddad será agora o último dos cinco comandantes das brigadas ativas no 7 de outubro. À medida que os líderes foram morrendo, o Hamas foi, segundo análises como esta, perdendo estrutura e assemelhando-se mais a um movimento de guerrilha, com unidades pequenas e independentes, embora continue a ser capaz de infligir danos nas tropas israelitas. O jornal brasileiro Globo lembra que Israel aponta al-Haddad a responsabilidade de ter “reabilitado parcialmente” a infraestrutura militar do Hamas no norte de Gaza.
Além disso, é a líderes como al-Haddad que cabe o papel de negociar as várias propostas de acordo para cessar-fogo e para a libertação de reféns. “A decisão mais crucial que ele tem de tomar é se aceita um cessar-fogo que lhe dê tempo para reorganizar as suas forças”, antecipa Amidror, para evitar ver as suas fileiras ruírem.
Um responsável pela segurança israelita explicou à imprensa hebraica, aqui citado pelo The Telegraph, o dilema de al-Haddad: “É um dos últimos e únicos líderes que ficaram no terreno, em Gaza, o que significa que está sob uma pressão imensa. Se não se chegar a nenhum acordo, não quererá ficar para a História como o último líder que supervisionou Gaza enquanto esta estava a desmontar-se sob controlo israelita. Por outro lado, tem de mostrar que é um líder”.
Al-Haddad juntou-se ao Hamas durante a sua juventude, perto da criação do grupo, em 1987, e cresceu até se tornar comandante de batalhões. Em 2023 comandava a Brigada de Gaza, que opera na cidade de Gaza, no norte daquele território. Sabia dos planos para o 7 de outubro e deu ordens nesse contexto. Agora as suas fotografias aparecem em panfletos distribuídos pelas forças e serviços secretos israelitas, onde se lê que se vai “reencontrar” em breve com os seus “amigos” — os outros líderes do Hamas, já mortos.
Como escreve o Times of Israel, depois de o exército ter confirmado a morte de Sinwar, o ministro da Defesa israelita, Israel Katz, deixou uma mensagem aos últimos líderes conhecidos do Hamas. “Agora é oficial: o assassino Mohammed Sinwar foi eliminado junto do comandante da Brigada de Rafah, Mohammed Shabana, e o gangue cruel que estava com eles debaixo do European Hospital em Gaza, e foi enviado para se encontrar com o seu irmão nos portões do inferno. Izz al-Din Haddad, em Gaza, e Khalil al-Hayya no estrangeiro, e todos os vossos parceiros de crime, são os próximos”.
Em várias análises publicadas pelo jornal israelita Haaretz, aponta-se que é difícil avaliar agora o equilíbrio do poder entre Khalil al-Hayya, líder do Hamas a viver no Qatar, e al-Haddad. A dúvida passava por saber se algum destes nomes poderia “preencher o vazio” deixado pela morte de Yahya Sinwar, “o que irá afetar dramaticamente as negociações para um cessar-fogo e uma libertação dos reféns”. Até porque era a liderança do Hamas em Gaza — e não em Doha — que “tomava as decisões”.
Pouco se sabe sobre al-Haddad, o “fantasma”, pela própria voz. Ainda assim, em janeiro a Al-Jazeera produziu um documentário sobre os chefes militares do Hamas em que falava com al-Haddad, notando que para isso tinha sido preciso tomar muitas medidas de segurança e ter cuidado para não divulgar a localização em que as suas declarações foram gravadas. “Os líderes da ocupação, que são apoiados pelos Estados Unidos e pelo Ocidente, não terão escolha que não sucumbir às nossas exigências justas de acabar com a agressão, sair da Faixa de Gaza, libertar os nossos prisioneiros das prisões da ocupação, levantar o cerco e reconstruir Gaza”, defendia então, numa das suas raríssimas aparições mediáticas.