A Inspeção Geral das Atividades em Saúde (IGAS) decidiu arquivar o inquérito relativo à morte de um idoso de 77 anos em Vila Nova de Cacela, no Algarve, por não ter sido identificado um nexo de causalidade entre as falhas no socorro do INEM e a morte do idoso, encontrado caído na via pública em novembro do ano passado, explica a IGAS, numa nota enviada ao Observador. Esta é, assim, a primeira decisão da IGAS a ser conhecida sobre as doze mortes alegadamente relacionadas com a greve dos trabalhadores do INEM, no final do ano passado.
A IGAS refere que a situação clínica em causa, um enfarte agudo do miocárdio, só poderia ter sido revertida por uma intervenção quase imediata das equipas do INEM, isto é, num período de cinco a dez minutos. Ou seja, mesmo que o contacto com o CODU tivesse sido estabelecido à primeira tentativa — e tivesse sido também célere o envio de meios de suporte imediato de vida — o desfecho não teria sido diferente.
“A situação da vítima era irreversível e o desfecho fatal inevitável, dado estar-se perante um quadro clínico de paragem cardiorrespiratória, situação em que as manobras de reanimação deveriam ter sido efetuadas de imediato, ou num intervalo máximo de tempo de entre cinco a dez minutos”, refere a nota da IGAS.
INEM demorou 19 minutos a acionar socorro
No entanto, e apesar de o perito que conduziu a investigação não ter encontrado uma relação direta entre o atraso no envio dos meios de socorro e a morte do idoso, a IGAS tece críticas ao INEM pela forma como o instituto respondeu à emergência. O tempo que decorreu entre a receção da chamada e o envio da ambulância SIV (cerca de 19 minutos) foi considerado excessivo e houve também descoordenação interna no CODU.
“Concluiu-se ainda que existiu um intervalo de tempo entre o primeiro contacto telefónico feito pela transeunte para a Linha 112 (às 11:01) e o acionamento do meio Suporte Imediato de Vida (11:20:21), o que consubstancia um tempo de 19 minutos e 21 segundos”, refere a IGAS, acrescentando que, no total, o meio de socorro demorou 35 minutos a chegar ao local.
No relatório que será enviado ao Ministério da Saúde e ao INEM sobre o caso, a IGAS faz várias recomendações de “alterações que poderão ser feitas para melhorar o funcionamento do sistema de emergência médica“, de modo a evitar as falhas detetadas, nomeadamente o atraso no acionamento de meios.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 4.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui, o segundo aqui e o terceiro aqui]
O caso remonta a 4 de novembro de 2024, quando várias pessoas que encontraram a vítima alegam que, durante mais de uma hora, tentaram pedir ajuda através do número telefónico 112, sem que as chamadas tivessem sido atendidas. A IGAS não faz referência a contactos falhados. Nesse dia, a conjugação de duas greves no INEM (uma ao trabalho extraordinário e outra uma greve da função pública) e a falha na definição atempada de serviços mínimos colocaram em causa a capacidade do instituto para responder aos pedidos de emergência — o que levou a que mais de mil chamadas tenham ficado por atender.
Relativamente ao caso de Cacela, o INEM haveria de esclarecer alguns dias mais tarde que tivera registo de uma tentativa de contacto com o Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) do INEM às 11h03, “não tendo a chamada sido imediatamente atendida e acabou por ser desligada na origem”. Na análise que fez ao caso, a IGAS determinou que a primeira chamada foi realizada às 11h01.
Quinze minutos depois, às 11h16, foi ativada uma ambulância dos Bombeiros Voluntários de Vila Real de Santo António e Castro Marim. A situação acabaria por ser reportada pelos Bombeiros ao INEM às 11h19, tendo sido depois enviada para o local uma Ambulância de Suporte Imediato de Vida (SIV). Segundo a IGAS, a ativação da ambulância SIV, estacionada em Vila Real de Santo António, só foi feita às 11h20.
Em novembro, o INEM adiantara que “às 11h33 foram realizadas manobras de reanimação pelas equipas e o utente foi transportado à unidade hospitalar” onde acabou por morrer. No entanto, a IGAS contraria essa versão, sublinhando que a ambulância do INEM só chegou ao local às 11h36.
Numa primeira fase, a IGAS anunciou a abertura de um inquérito conjunto às 12 mortes alegadamente relacionadas com a greve no INEM. No entanto, e uma vez que foi designado um perito para cada caso, o inspetor-geral da Saúde, Carlos Carapeto, decidiu autonomizar os processos — de forma também a evitar mais atrasos. Assim, as conclusões sobre cada caso serão divulgadas depois de ser concluída a investigação respetiva.