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"Como é possível baterem em alguém?" Centenas de pessoas em protesto no teatro A Barraca após agressão a Adérito Lopes

Este artigo tem mais de 1 ano

Por solidariedade a Adérito Lopes, com cartazes e cravos, centenas de pessoas manifestaram-se em frente ao teatro A Barraca para pedir o fim da violência e exigir que se faça justiça de forma exemplar

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O sentimento é de “profunda injustiça”, resume Samanta, enquanto vai passando à mulher uma série de panfletos que são colocados em postes e caixas de eletricidade ao longo do Largo de Santos, em Lisboa. “Organizar a luta, defender a cultura”, lê-se no papel que segura entre as mãos, parte dos últimos preparativos da manifestação “Não queremos viver num país do medo”, que está prestes a arrancar em frente ao teatro A Barraca, em Lisboa, e que se alastrou a outra cidades do país, como o Porto e Coimbra. Foram convocadas em solidariedade com o ator Adérito Lopes, agredido na terça-feira por elementos de um grupo neonazi quando chegava ao seu local de trabalho.

São 15h30 e dezenas de pessoas juntam-se por baixo do letreiro “Amor é um fogo que arde sem se ver”, que é também o nome da peça que por estes dias está em cena no teatro. A mesma em que Adérito Lopes teria atuado na noite de terça-feira, não tivesse sido agredido e levado para o Hospital de Santa Maria, “com dois cortes na face”, para ser submetido a exames.

“O sentimento é de injustiça e incompreensão“, continua Samanta, que, distraída pela conversa, deixa que seja a mulher a retirar um novo panfleto do molho que segura. “Um ser humano é um ser de resistência e de combate, é só preciso determinar a causa certa”, lê-se, uma evocação das palavras proferidas pela escritora Lídia Jorge no discurso de 10 de Junho, dia de Portugal, Camões e das Comunidades Portuguesas.

Para Samanta, a causa não podia ser mais clara: “É altura de voltarmos a sair de casa e exprimir-nos com os recursos que temos a mão.” Uma luta, acrescenta, que é desigual. “Não serão os mesmos que usa a extrema-direita. Temos de ser racionais e lógicos quanto à luta que deve ser feita e não responder na mesma moeda. Isso seria perder a razão”, sublinha a mulher, de 45 anos.

Quando se afasta para continuar a colar os panfletos já quase todas as faixas estão desenroladas pelo largo e as primeiras bandeiras começam a erguer-se. Às quatro da tarde, começam-se a cantar as primeiras palavras de ordem: “Fascistas, racistas chegou a vossa hora” e “Somos todos anti-fascistas.” Minutos depois a Polícia de Segurança Pública (PSP) interrompe a circulação do trânsito e os manifestantes que também se foram juntando no outro lado da rua inundam a estrada. São já centenas de pessoas e continuam a chegar.

▲ Maria do Céu Guerra é diretora do Teatro A Barraca

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA

“É impensável. Como é que é possível baterem em alguém?”

Sérgio Pereira é um dos que faz por ser ouvido no Largo de Santos. Enquanto canta, ergue um ramo de cravos. Nesta tarde estão por todo o lado: em cartazes, em t-shirts e até na forma de brincos de plástico, que balançam ao ritmo de um manifestante ali perto. “O que me traz aqui é a solidariedade com A Barraca e com os seus trabalhadores, com o Adérito Lopes e contra estas manifestações nazis, racistas”, diz o homem de 62 anos, que é frequentador assíduo do teatro A Barraca há 40 anos e um sócio fiel, como prova o cartão que traz no bolso.

Para Sérgio Pereira, “é preciso acabar” com as manifestações de ódio e violência por parte de grupos neonazis. São já três nos últimos quatro dias. Além do ataque em frente ao teatro, conta-se também o caso de agressões a um polícia e a voluntárias do Centro de Apoio ao Sem-Abrigo (CASA), que distribuíam comida no Porto, e outro noticiado pelo Expresso este domingo, de um elemento de um grupo neonazi do Norte do país que agrediu um cidadão em plena luz do dia numa rua do centro histórico de Guimarães. Episódios que, como muitos manifestantes sublinharam, trouxeram à memória o assassinato em 1995 de Alcindo Monteiro, no Bairro Alto, por um grupo de skinheads.

“Isto não são atos isolados”, sublinha ao Observador a atriz Rita Blanco, um de vários rostos conhecidos que aderiram à manifestação. “É impensável. Como é que é possível baterem em alguém, em quer que seja? Mas como é possível alguém querer bater em atores, que são pessoas que trabalham para os outros, para nos tornarmos mais capazes de imaginar, de viver, sorrir, sonhar?”, questiona.

São palavras a que se associam muitos manifestantes, como Luís Fonseca, um trabalhador na área da intervenção social que faz teatro amador. “Estarem a agredir um ator é estarem a agredir a cultura, todo o povo português. É um ato condenável. Temos de estar aqui em luta contra estes atos que estão a acontecer cada vez com maior frequência”, afirma, acenando com um cartaz onde sê lê “A violência não é opinião, é crime.”

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA

Das críticas à violência e discurso de ódio ao “branqueamento” do RASI

A multidão só faz silêncio quando a atriz Maria do Céu Guerra, diretora do teatro A Barraca, sobe ao pequeno palco junto ao teatro. “O nosso colega Adérito foi agredido na cara, o seu instrumento de trabalho, um ferimento que diz a polícia que acusa a violência de uma arma branca. A polícia identificou o agressor e deixou-o sair em liberdade“, afirma, a voz cortada pelos apupos dos manifestantes face à medida que consideram injusta.

“O agressor já teve oportunidade de apresentar a sua defesa na televisão, pediu desculpa, garantiu que não pertence a nenhuma organização”, continua a atriz, numa referência à entrevista emitida pela CNN com o agressor. O jovem, de 20 anos, alegou não ter ligações a grupos neonazis, ainda que tenha admitido ter participado num almoço organizado pelo movimento Blood and Honor — a convite de um amigo e porque havia “copos grátis”. “É uma vergonha“, diz Maria do Céu Guerra, a palavra repetida em coro por todos.

A atriz também aproveitou o momento para criticar as autoridades pela remoção de um capítulo com informações sobre a atividade de grupos de extrema-direita do último Relatório de Segurança Interno (RASI). A versão inicial do texto incluía páginas sobre “extremismos e ameaças híbridas“ e alertava para a existência, sem especificar, de uma representação em Portugal de uma organização extremista internacional classificada em vários países como organização terrorista — segundo o Expresso, o Blood & Honour (B&H), ao qual pertenceria o agressor de Adérito Lopes e outras pessoas que foram captadas em vídeo no local durante o ataque.

“Estão a branqueá-lo [o RASI]”, acusou a atriz Maria do Céu Guerra, deixando também um apelo para que “os espaços públicos sejam vigiados” e que os “prevaricadores sejam fortemente punidos”. “Queremos uma justiça limpa, sem vícios, para todos”, sublinhou.

A diretora do teatro seria seguida em palco pela filha e atriz Rita Lello, que emprestou a voz para ler uma carta de Adérito Lopes, que não esteve presente na manifestação. “Tenho recebido nestes dias um afeto que nunca imaginei. Nunca imaginei que o ser humano fosse tão generoso. Ainda há esperança“, leu na mensagem, que destacava a “bandeira do pensamento livre.”

A manifestação só terminaria pelas 18h30 com o entoar do Grândola Vila Morena, de José Afonso. Nela estiveram presentes, além de vários profissionais do setor da cultura, várias figuras políticas, que exigiram uma resposta firme do Governo à violência por parte de grupos extremistas e neonazis.

Jorge Pinto, deputado do Livre, disse à Lusa que “o setor da cultura está sempre entre os primeiros alvos destes grupos” e considerou que é essencial “combater o discurso de ódio, seja nas redes sociais, na comunicação social ou no Parlamento”. Já Paulo Raimundo, secretário-geral do PCP, lembrou que o artigo 46.º da Constituição proíbe expressamente a existência de organizações fascistas ou neonazis: “As autoridades têm de agir.”

Por seu turno, a líder do Bloco de Esquerda Mariana Mortágua afirmou que o Governo está a encobrir o crescimento destes grupos. “O grupo que atacou este teatro tem elementos que assassinaram Alcindo Monteiro há 30 anos. Estava identificado como terrorista no relatório de segurança interna, mas esse capítulo foi retirado, e foi o Governo que decidiu omitir esse perigo”, disse. A porta-voz do PAN, Inês Sousa Real, também em declarações à Lusa, criticou a “normalização de discursos e comportamentos fascistas, até dentro da Assembleia da República.” O PS esteve representado por, entre outros, o líder parlamentar, Pedro Delgado Alves.

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