A inflação na zona euro irá nos próximos anos tender a ser “mais volátil” do que foi nas primeiras décadas da união monetária, afirmou nesta segunda-feira a presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde. “Mudanças estruturais como a fragmentação geopolítica e económica e o uso crescente da inteligência artificial tornam o ambiente inflacionário mais incerto”, avisa a presidente da autoridade monetária, garantindo que o BCE irá ter um comportamento “ágil” para garantir que a inflação se mantém próxima da meta de 2%.
As declarações foram feitas em Sintra, no fórum anual que o BCE organiza na vila portuguesa. Esta é a 12.ª edição deste fórum que acontece anualmente (desde 2014) em Sintra – desta feita, o evento tem como tema “Adaptação à mudança: transformações macroeconómicas e respostas políticas”. Mas no primeiro dia da conferência, o BCE aproveitou para marcar uma conferência de imprensa para anunciar a conclusão da análise feita acerca da estratégia que tem vindo a ser seguida pela autoridade monetária.
O BCE fez uma revisão formal da estratégia em 2020-21 – que levou a que o alvo de inflação passasse de “perto, mas abaixo, de 2%” para “2% no médio prazo” – e nessa altura o Conselho do BCE anunciou que iria avaliar periodicamente a adequação da sua estratégia de política monetária. “A avaliação publicada [nesta segunda-feira] cumpre este compromisso, garantindo que a nossa estrutura, conjunto de ferramentas e abordagem se mantêm adequados ao seu propósito”, explica o BCE.
A conclusão desta análise interina é que a “estratégia de política monetária permite ao Conselho do BCE responder eficazmente a grandes alterações no ambiente inflacionista”, diz o banco central em comunicado divulgado nesta segunda-feira. “Isto é especialmente importante, uma vez que as mudanças estruturais em curso, como a fragmentação geopolítica e económica, a crescente utilização de inteligência artificial, as alterações demográficas e a ameaça à sustentabilidade ambiental, sugerem que o ambiente inflacionário irá permanecer incerto e potencialmente mais volátil, com desvios maiores em relação à meta de inflação simétrica de 2%”, afirma o BCE.
Para manter a simetria da meta, é importante uma ação de política monetária adequadamente enérgica ou persistente em resposta a desvios significativos e sustentados da inflação em relação à meta, em qualquer direção”.
O BCE diz que “isto irá ajudar a evitar que as expectativas de inflação se desancorem e que os desvios da inflação em relação à meta se consolidem”. Na conferência de imprensa, Christine Lagarde garantiu que o BCE vai continuar a usar as ferramentas ao seu dispor – ou outras que venham a ser criadas – para cumprir a meta da inflação e garantir que “a zona euro é um farol de segurança num mundo cheio de incerteza”.
Em comentário a esta auto-avaliação feita pelo BCE, os analistas do banco holandês ING dizem que “não é algo surpreende, mas a avaliação do BCE sobre a revisão da sua estratégia de política monetária na prática é claramente positiva e com um elevado grau de autocongratulação”.
O documento divulgado nesta segunda-feira “confirma a definição de estabilidade de preços, a utilização de diversos instrumentos de política monetária e a avaliação da proporcionalidade das suas decisões e dos potenciais efeitos secundários”, afirma o ING, destacando que, “como seria de esperar, as alterações climáticas ocupam um lugar de destaque, com o BCE a reafirmar que ‘abordar as alterações climáticas é um desafio global e uma prioridade política para a União Europeia'”.