A Impresa, dona da SIC e do Expresso, e que registou, em 2024, prejuízos de 66 milhões de euros, realizou um processo de reestruturação, com a ajuda de uma consultora, no início do ano. Uma das medidas para o corte de custos feito passa pela venda do edifício-sede, que deve ficar concluída em julho.
Francisco Pedro Balsemão, presidente executivo da Impresa, não descartou, por outro lado, a possibilidade de entrada de novos acionistas. No debate designado Estado da Nação dos Media, que decorreu no 34.º Congresso da APDC, o CEO da Impresa assumiu o triénio negativo — 2022, 2023 e 2024 — mas que “vai dar a volta”.
O triénio chegou depois de um período de três anos positivo (2019, 2020, 2021). 2022 começou a inversão e o ano iniciou-se com um ataque informático à Impresa que custou, segundo Francisco Pedro Balsemão, um milhão de euros e tirou “muito o foco”. Nesse mesmo ano começou a guerra na Ucrânia e a crise inflacionista com a consequência subida das taxas de juro. No caso da Impresa é especialmente penalizador.
Francisco Pedro Balsemão admite que o triénio entre 2022 e 2024 foi negativo “por razões do setor mas também nossas”. Aponta a “dívida muito elevada quando comparado com nossos principais concorrentes, que vem desde 2005”, apesar de ter sido reduzida para metade, “mas não é suficiente”. E, por isso, uma subida de juros leva a que “muito do nosso cash flow [meios libertos pela atividade] seja canalizado para pagar o serviço de dívida” [juros]. É o que Francisco Pedro Balsemão apelida de “tempestade perfeita”.
Que culminou com os prejuízos de 66 milhões em 2024, também impactada pelo registo de imparidade pela atualização do valor do ativo (que foi desvalorizado).
Com isto, explica o gestor, a Impresa avançou com um plano para “dar a volta” que passa por controlar os custos. O projeto foi desenhado “com uma consultora”. O plano passa pela “redução custos gerais, que levou a processos normais em que saíram pessoas, por rescisões por mútuo acordo”. Francisco Pedro Balsemão garante que “não estão previstas mais saídas”.
E que levou já, por outro lado, à venda da sede, “uma operação financeira, não somos gestores de edifícios nem de imobiliário”.
Segundo foi anunciado pela Impresa, a 20 de junho, as negociações para a venda desse edifício, em Paço de Arcos, estão em fase avançada. O comprador será BPI Gestão de Ativos, em representação do fundo BPI Imofomento. A Impresa, após a venda, fará um contrato de arrendamento para se manter no edifício.
O fundo BPI Imofomento irá adquirir a sede por um valor total de 37 milhões de euros em duas tranches: a primeira de 25 milhões a ser recebida no momento da venda; e a segunda de 12 milhões que será paga 48 meses após a venda, ou seja, dentro de quatro anos.
“A Impresa informa ainda que esta transação se insere num processo negocial continuado no tempo e que a sua efetiva realização se encontra dependente da finalização da negociação dos documentos que deverão titular a venda, estando prevista a conclusão da transação para a primeira quinzena de julho”, indicou em comunicado.
O encaixe vai permitir à Impresa amortizar antecipadamente um empréstimo de 14,9 milhões, que tinha o edifício dado como garantia.
Em 2024, o endividamento da Impresa até subiu, face a 2023. A dívida remunerada líquida no final de 2024 atingiu os 130,9 milhões. Em 2008 essa dívida era de 259 milhões de euros. Os juros em 2024 atingiram os 8,14 milhões de euros, levando os custos financeiros aos 12,4 milhões de euros. Ora, os resultados operacionais são quase desse montante — 13,7 milhões de euros. A empresa da Impresa que detém o edifício tem um valor de balanço de 5,9 milhões de euros. Não se sabendo o que é considerado no valor de balanço, certo é que a venda do imóvel irá, além do encaixe, gerar uma mais-valia.
Já não é a primeira vez que a Impresa se financia com operações com o imóvel-sede. A Página Um contabilizou três negócios com o edifício, mas já antes tinha havido financiamentos com a sede. Um desses negócios foi com o Novo Banco e, segundo avançou o Correio da Manhã, motivou uma queixa anónima no Ministério Público que arquivou o caso.
Com a situação financeira da Impresa a acender alarmes, tem sido noticiada a possibilidade de entrarem novos acionistas. Sem citar qualquer nome, Francisco Pedro Balsemão, na mesma conferência da APDC, declarou: “Temos ao longo da história tido acionistas” parceiros. A SIC teve a Globo, as revistas (vendidas a Luís Delgado, negócio em insolvência) tiveram a Edipress, a Impresa já teve outras alianças com espanhóis, com portugueses. E por isso Francisco Pedro Balsemão conclui: “Não estamos fechados a ter como acionista uma entidade ou pessoa de fora. Se alguém criar uma relação win win não fechamos essa porta”.
Do lado das receitas, Francisco Pedro Balsemão anunciou ter duas parcerias operacionais na calha, uma para os audiovisuais e outra para a área de imprensa, não divulgando mais informação. “São importantes para olhar para o futuro”, garante.
(Notícia atualizada indicando que a contratação da consultora, para concretizar a reestruturação com corte geral de custos, foi no início do ano)