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Investigador cria pulseiras que permitem detetar "drogas da violação" em bebidas. Estarão disponíveis em Portugal já este ano

Este artigo tem mais de 1 ano

Através de apenas uma gota ou um toque com um dedo na bebida, ou até com um pouco de saliva, a pulseira permite detetar diferentes tipos de substâncias.

As pulseiras criadas pelo investigador Carlos Lodeiro Espiño
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As pulseiras criadas pelo investigador Carlos Lodeiro Espiño

João Lima/NOVA FCT

As pulseiras criadas pelo investigador Carlos Lodeiro Espiño

João Lima/NOVA FCT

Basta apenas uma gota da bebida suspeita ou até um pouco da própria saliva do consumidor e o alerta é dado: uma pulseira revela se o líquido foi ou não adulterado com as chamadas “drogas da violação”. Através de dois sensores, esta invenção de um professor da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade NOVA de Lisboa (NOVA FCT) permite detetar dois tipos de substâncias mais comuns nos ambientes festivos.

Num dos sensores, que é impresso e produz uma “tinta especial”, a ativação dá-se exclusivamente quando entra em contacto com GHB, ou ecstasy líquido, que é “muito barato e fácil de produzir e de encontrar”. É a principal “droga da violação”, lembra ao Observador o também investigador Carlos Lodeiro Espiño, que coordena este projeto pioneiro.

Em casos normais, ao fim de quatro a seis horas no organismo após a sua ingestão, o GHB “não deixa rastos”, deixando de ser encontrado através de qualquer análise ao sangue ou à urina. Contudo, quando é colocada uma amostra de bebida que esteja contaminada com esta substância, então o sensor irá produzir imediatamente, numa questão de segundos, uma cor verde no círculo que era predominantemente cor-de-laranja.

Em Espanha, o produto já circula em festas e festivais na região de Valência, com o governo da comunidade valenciana a adquirir mais de 500 mil pulseiras desde a sua comercialização no início de 2024. Em Portugal, o investigador prevê que possa atingir o mercado nacional entre setembro e outubro deste ano.

De acordo com o professor da NOVA FCT, em declarações ao Observador, existe “muito pouca probabilidade de existirem falsos positivos”, revelando que “não houve qualquer problema durante os testes” — que foram feitos com todo o tipo de bebidas e substâncias —, não existindo a possibilidade de, também, o sensor de GHB reconhecer outras drogas.

Para tal, existe o segundo sensor, que é totalmente dedicado a identificar a presença de catecolaminas como a escopolamina ou burundanga, que é muito popular na América do Sul, mas também metanfetamina, cetaminas ou catinonas. Em casos positivos, o sensor passa de amarelo claro a um tom mais avermelhado, facilmente identificável como sendo positivo.

Quando a pulseira deteta uma das substâncias mencionadas, a tinta produzida é irreversível, ou seja, não é reutilizável. No entanto, nos casos em que os testes dão negativo, a pulseira pode continuar a ser utilizada durante cerca de cinco dias. “Até pode durar mais, é completamente estável com a água, e uma pessoa pode testar 20 ou 30 bebidas numa noite e continua a funcionar, desde que não dê um resultado positivo”, continua Carlos Lodeiro Espiño, referindo que esta pulseira é idêntica em termos de composição a “qualquer pulseira de festa, festival ou hotel”.  O seu “prazo de validade” foi desenhado para corresponder à duração dos festivais, que costumam durar entre três a cinco dias.

O investigador da NOVA FCT Carlos Lodeiro Espiño coordenou o projeto que deu origem às pulseiras que detetam as "drogas da violação"

João Lima/NOVA FCT

Além disso, estando numa discoteca, por exemplo, num local onde teoricamente não existe muita luz para se observar a mudança de cor de uma forma nítida, o investigador refere que a tinta produzida nos sensores é, também, fluorescente, permitindo ser detetada em qualquer tipo de ambientes. Quando é registado o caso positivo, a pulseira não tem qualquer “validade forense”, sendo apenas utilizada para garantir a segurança de quem a usa ao permitir evitar o consumo de uma bebida alterada. Contudo, serve ainda para fazer o aviso às autoridades presentes no estabelecimento para que estejam em alerta para uma ameaça no local.

A segunda etapa do projeto, já depois do verão, será transformar esta pulseira num outro dispositivo onde dê para gravar o registo positivo, para assegurar alguma validade forense que seja útil para a polícia”, acrescenta o professor do departamento de Química da NOVA FCT. O objetivo de Carlos Lodeiro Espiño é tornar a pulseira acessível e a norma em todos os eventos, festivais e festas, como tem sido o caso na região de Valência.

“A pulseira pode ser impressa com logótipos ou cores totalmente personalizados. Pode ter o logótipo de qualquer empresa organizadora de um evento, como o de uma autarquia, por exemplo“, afirma o coordenador do projeto, indicando que para além de ter o efeito de garantir uma maior segurança individual das pessoas neste tipo de ambientes, as pulseiras também foram desenhadas para ter um “efeito dissuasor”: “Se alguém vir outra pessoa com a pulseira posta, é possível que não atue, uma vez que a pulseira só pode ser afetada se for mesmo cortada ou destruída — não é possível danificar os sensores sem os ativar“.

Desta forma, o investigador nota que na região de Valência, onde ocorriam “centenas” de casos de assaltos ou violações associadas a estas drogas de submissão química, o efeito da entrada em circulação das pulseiras já é sentido, dado nota de um decréscimo de 50% do número total de casos. Em sentido contrário, na Europa, o registo tem sido crescente e, sobre os números nacionais, o Observador pediu dados à Polícia Judiciária, que não respondeu até à publicação deste artigo.

“A equipa de investigação está já em contacto com autoridades, municípios e entidades promotoras de eventos em Portugal, para que a pulseira possa ser reconhecida como elemento de prova legal e integrada em campanhas de sensibilização e prevenção resultando em eventos seguros”, lê-se no comunicado emitido pela NOVA.

Neste sentido, Carlos Lodeiro Espiño admite que queria estrear as pulseiras em solo português durante o festival Sol da Caparica, mas devido à falta de “base industrial” da empresa responsável pela produção — a OpticalSense — e o período de férias de verão, não conseguiram acertar os timings. Ainda assim, em Espanha já começam a ser vendidas em quantidades mais reduzidas em farmácias e outros pontos de referência, em pacotes de 10 unidades ou até individualmente. Os preços variam consoante o tamanho da encomenda — e o investigador refere que o preço é sempre mais baixo quanto maior for a quantidade de pulseiras vendidas —, sendo que, num pacote de 10 pulseiras, o preço unitário varia entre 1,30€ a 1,80€.

Este projeto surge de uma colaboração entre o Grupo BIOSCOPE do Laboratório Associado LAQV REQUIMTE, da NOVA FCT, e a Universidade de Valência, a Universidade Politécnica de Valência e a empresa Celentis, responsável pela entrada em circulação destas pulseiras em território espanhol. Para o mercado português, a startup Nanoarts.org vai-se encarregar da distribuição.

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