O polémico caso de Jeffrey Epstein está a criar fraturas visíveis no movimento Make America Great Again (MAGA), de Donald Trump. Depois de o Departamento de Justiça dos Estados Unidos ter divulgado, esta semana, um comunicado em que negava a existência de uma suposta lista dos clientes de Epstein — que tinha sido acusado de ser o líder de uma rede de tráfico sexual que envolvia raparigas menores quando cometeu suicídio na prisão, enquanto aguardava julgamento –, muitos elementos do MAGA revoltaram-se e já receberam uma resposta do próprio Trump, avisando que não está a “gostar do que está a acontecer”.

Com a procuradora-geral dos Estados Unidos, Pam Bondi, a ser duramente criticada por parte do eleitorado de Trump, o Presidente norte-americano recorreu à rede social Truth Social para manifestar o seu desagrado e perguntar o que se passa com os “rapazes” e “raparigas” das fileiras do MAGA.

“Estão todos a atacar Pam Bondi, que está a fazer um trabalho fantástico! Estamos numa equipa, MAGA, e não gosto do que está a acontecer. Temos uma administração perfeita, somos falados no mundo todo, e pessoas egoístas estão a tentar prejudicar-nos, tudo por causa de um tipo que nunca morre, o Jeffrey Epstein”, escreveu Trump, comprando, como descreve a NBC, “a maior guerra política até agora com o eleitorado MAGA, que criou à sua imagem”.

Na mesma publicação, Trump irrita-se por ao longo dos anos ouvir falar de Epstein “uma e outra vez”, criticando os democratas por criarem os “ficheiros Epstein” e a ideia de que existe uma longa lista de “clientes” famosos que estariam envolvidos no tráfico promovido por Epstein. “Agora, os meus chamados amigos estão a fazer o jogo deles. Porque é que estes radicais lunáticos de esquerda não libertaram os ficheiros Epstein? Se houvesse qualquer coisa lá que pudesse prejudicar o movimento MAGA, porque é que não o teriam usado?”, questiona, apesar de o caso ter rebentado durante o seu primeiro mandato.

Depois, Trump fala do “sucesso” que diz que a sua administração está a ter, por “deportar criminosos” ou “consertar a economia”, mas “nunca é suficiente para algumas pessoas”, critica, enquanto vai insistindo que o seu governo vai fazer mais em seis meses do que “qualquer outra administração foi capaz de fazer em 100 anos”. Em resumo, e em maiúsculas, Trump exige aos seus apoiantes que permitam que Bondi “faça o seu trabalho” — “ela é ótima” — e volta a atirar acusações sobre a suposta eleição “roubada” de 2020, embora não haja provas disso, dizendo que é sobre esse assunto que Bondi está a investigar.

“Não vamos perder tempo e energia com Jeffrey Epstein, alguém de quem ninguém quer saber“, acaba por rematar. A mensagem está, de resto, em linha com a resposta que Trump deu aos jornalistas depois de o comunicado do Departamento de Justiça ter sido conhecido: “Não acredito que estão a perguntar-me sobre o Epstein em tempos como estes”.

A CNN escreve que, em privado, Trump assegurou o seu apoio a Bondi e que elementos do círculo mais íntimo do Presidente norte-americano contactaram mesmo os críticos mais audíveis da procuradora para lhes pedirem que suavizem os ataques e garantirem que neste momento não irá dispensá-la. Em público, nomes que são ou foram tão relevantes para os MAGA como o antigo conselheiro de Trump Steve Bannon ou o apresentador Tucker Carlson vieram questionar as conclusões da investigação — Carlson acusou mesmo Bondi de “encobrir crimes muito sérios”.

As críticas tornaram-se ainda mais fortes durante este fim de semana, durante o qual está a decorrer em Tampa, no estado da Florida, uma convenção (a Student Action Summit, organizada pelo grupo conservador Turning Point USA) que junta milhares de eleitores e simpatizantes MAGA e na qual de discutiu o caso Epstein, como relata a NBC.

A televisão menciona testemunhos de várias vozes com peso que intervieram na convenção. O apresentador de podcasts Brandom Tatum disse que não acredita que “a verdade esteja a ser dita sobre Epstein” e que essa “verdade” implicaria muitas pessoas — “acredito que alguns desses podem ser aliados nossos e pessoas com quem não queremos ter uma má relação”.

Depois de no passado tanto Bondi como Trump terem prometido que divulgariam a famigerada lista dos “clientes” de Epstein e assegurado que o FBI estaria na posse de mais documentos, o eleitorado MAGA enfureceu-se. Em Tampa, o antigo congressista republicano Anthony Sabatini, antigo apoiante de Trump, ainda foi a tempo de reagir à última publicação de Trump, que considerou “desfasada da realidade”: “Trump está a perder o jeito. Maus funcionários estão a diminuí-lo por todos os lados. Precisamos de um recomeço”.

Já Steve Bannon também marcou presença e defendeu que Epstein é a chave para resolver dossiês que tocam nos interesses de muitas pessoas, mas também instituições e até “governos estrangeiros” e o próprio governo norte-americano.

Durante a convenção, foi audível o apoio da assistência ao diretor do FBI, Kash Patel, e ao vice-diretor, Dan Bongino, que segundo a imprensa norte-americano estariam irritados e frustrados com a forma como Bondi lidou com o caso dos documentos Epstein. A apresentadora conservadora Megyn Kelly pediu mesmo à multidão para escolher entre “Bondi e Bongino”, ao que se ouviram gritos “em uníssono” por Bongino.

Na sexta-feira, o porta-voz da Casa Branca Harrison Fields veio defender todos os envolvidos no caso, dizendo aos jornalistas que Trump “reuniu uma equipa altamente qualificada e experiente para proteger os americanos, responsabilizar os criminosos e devolver a justiça às vítimas. Este trabalho está a ser feito de forma fluida e em unidade. Qualquer tentativa de criar divisões nesta equipa não tem fundamento e distrai do progresso real que está a ser feito”.

Apesar das notícias que adiantavam, no final da semana, que Patel estaria a ponderar demitir-se na sequência das fortes discordâncias com o Departamento de Justiça sobre este caso, este sábado o diretor do FBI negou nas redes sociais que esteja de saída: “As teorias da conspiração não são verdadeiras. É uma honra servir o Presidente dos EUA — e vou continuar a fazê-lo enquanto ele me chamar”.

Outras notícias, avançadas pela NBC ou a CNN, adiantavam que Bongino também estaria a ponderar demitir-se e que estaria “numa fúria descontrolada” e a pedir a demissão de Pam Bondi em privado.

O comunicado divulgado na semana passada falava numa “investigação exaustiva” relativa ao caso Epstein, que desmontaria as teorias que têm sido disseminadas entre o eleitorado MAGA desde que as primeiras acusações foram conhecidas e que terá tido em conta “mais de 300 gigabytes” de informação e de provas, incluindo imagens e vídeos das vítimas (incluindo menores).

O comunicado adianta que muito do material está sujeito a segredo de justiça e que só parte teria sido divulgado caso Epstein tivesse chegado a ir a tribunal. Depois, acrescenta que esta investigação “não revelou uma ‘lista de clientes’ incriminadora” nem mostrou provas de que Epstein estivesse a “chantagear” clientes famosos.

O departamento de Justiça confirmou também que o esquema criminoso que seria encabeçado por Epstein terá afetado mais de mil vítimas, mas avisou: “Perpetuar teorias infundadas sobre Epstein” não ajuda a “combater a exploração infantil” nem a “trazer justiça às vítimas”. Por isso, decidiu não divulgar novas informações, ao contrário do que ainda este ano tinha prometido. E acrescentou que o FBI voltou a concluir que Epstein morreu mesmo por suicídio enquanto estava na prisão — uma conclusão que tem sido muito rebatida por teorias da conspiração que acreditam que foi morto na cadeia.