O trabalho foi árduo após vários revezes. Mas Yulia Svyrydenko, ainda ministra da Economia, conseguiu que a Ucrânia assinasse o acordo de minerais com os Estados Unidos da América (EUA). A governante foi a escolhida para ir a Washington assinar o documento em maio. Dois meses e meio depois, o Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, escolheu a política independente para ser a nova primeira-ministra. A decisão ainda está pendente da votação no Parlamento, mas o partido do chefe de Estado tem maioria absoluta — e não deverá haver obstáculos.
Yulia Svyrydenko agradeceu a “honra” de assumir o cargo ao Presidente da Ucrânia. A primeira-ministra eleita já discutiu quais são os planos da governação com Volodymyr Zelensky. “Estamos prontos para dialogar com o Parlamento. Vou anunciar as propostas das candidaturas dos membros do governo em breve”, escreveu a primeira-ministra eleita no X.
I am grateful to President Volodymyr Zelenskyy for his trust — and for the opportunity to serve Ukraine at this crucial time.
The Head of State has identified the priority tasks that stand before the renewed Government:
• strengthening Ukraine's economic potential
• expanding… pic.twitter.com/9JHi32JsRY— Yulia Svyrydenko (@Svyrydenko_Y) July 14, 2025
Na Ucrânia, o primeiro-ministro é eleito diretamente pela presidência, se bem que necessite do respaldo do Parlamento. Neste momento da guerra, Volodymyr Zelensky considerou pertinente remodelar o governo. O Presidente ucraniano deverá dispensar Denys Shmyhal do cargo. O ainda chefe do executivo deverá passar para o Ministério da Defesa, ao passo que o atual ministro da tutela, Rustem Umarov, será nomeado, para a embaixada ucraniana nos Estados Unidos, segundo noticia a imprensa da Ucrânia.
No discurso diário, Volodymyr Zelensky destacou a”experiência extensiva” de Yulia Svyrydenko em “apoiar a economia e o empreendedorismo ucraniano”. Realçou também a “experiência tremenda de Denys Shmyhal”, que será “sem dúvida valiosa no cargo de ministro da Defesa — exatamente a área em que estão depositadas as maiores responsabilidades atualmente”.
A remodelação feita pela presidência da Ucrânia contará com outras modificações no executivo, mas ainda não são claras quais serão. Volodymyr Zelensky e Yulia Svyrydenko vão discutir nos próximos tempos que substituições haverá e que nomes é que vão compor o governo ucraniano, que era chefiado por Denys Shmyhal desde 2020, que se tornou o primeiro-ministro há mais tempo no cargo desde a independência do país.
Yulia Svyrydenko. A primeira-ministra “profissional” e “determinada”
Nascida a 25 de dezembro de 1985 em Cherniv, Yulia Svyrydenko licenciou-se em Economia na Universidade Nacional de Comércio e Economia em Kiev. Trabalhou inicialmente numa empresa andorrano-ucraniana. Em 2011, o governo regional de Cherniv nomeou-a para liderar uma missão para atrair investimento chinês para a região.
Na China, o seu trabalho foi bem-sucedido e ajudou a trilhar o seu caminho na política, ainda que Yulia Svyrydenko se tenha mantido independente. Assim, em 2015, é eleita para conselheira do governo regional de Cherniv e, dois anos depois, chega ao cargo de vice-governadora. Como recorda o portal United24, a agora primeira-ministra conseguiu colocar a região de Cherniv como a que mais investimento cativou em 2017.
“Era muito fácil trabalhar com ela. Não havia quase burocracia”, contou fonte do governo regional de Cherniv ao Kyiv Post. Outras fontes realçaram ao jornal ucraniano que a economia sempre se preocupou bastante com a reputação e afastava-se de polémicas. A boa reputação que obteve fez com o que seu nome chegasse ao governo central, em Kiev. Um ano depois de Volodymyr Zelensky vencer as eleições presidenciais, convocou Yulia Svyrydenko para o cargo de vice-chefe da presidência ucraniana.
Em 2021, Yulia Svyrydenko passou para vice-primeira-ministra e foi nomeada a nova ministra da Economia. No cargo, obteve um importante sucesso: num país que dependia praticamente do setor energético russo, a governante foi bem-sucedida em procurar outras formas de a Ucrânia manter a sua independência energética nos meses subsequentes ao início da guerra.
Desde o início do conflito, a governante tinha também outra missão: procurar investimentos no estrangeiro para ajudar a fortalecer a economia ucraniana. Enquanto vice-primeira-ministra, tentava também manter contactos com líderes de outros países. Por exemplo, em dezembro de 2022, encontrou-se com o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, em Brasília.
Em outubro de 2024, Yulia Svyrydenko esteve nas Conferências do Estoril, onde participou numa discussão sobre paz e mulheres. Durante esta visita a Portugal, a ministra encontrou-se com o seu homólogo, na altura Pedro Reis. No X, escreveu que a Ucrânia ia “juntar-se a uma comissão luso-ucraniana em cooperação económica”. “As empresas portuguesas mostraram um grande interesse em cooperar.”
Concluding my fruitful visit to Portugal with good news: next month, we will hold a joint Ukrainian-Portuguese Commission on economic cooperation. Grateful to the Minister of Economy of Portugal, Pedro Reis, for this important decision. As he noted, Portuguese companies have… pic.twitter.com/GTdqVhXgjV
— Yulia Svyrydenko (@Svyrydenko_Y) October 24, 2024
Yulia Svyrydenko recebeu também elogios do outro lado do Atlântico. A política foi eleita, em 2023, pela Time para a lista dos 100 jovens líderes emergentes. No perfil da revista, a antiga secretária do Comércio norte-americana Gina Raimondo deixou rasgados elogios à governante: “A ministra Svyrydenko representa a resiliência do povo ucraniano. Com líderes jovens, espertos e determinados como ela, o futuro pós-guerra da Ucrânia parece ser brilhante”.
O maior feito da política no cargo aconteceu há dois meses e meio. Por iniciativa do Presidente norte-americano, Washington queria assinar um contrato para a exploração de minerais em território ucraniano. Porém, a discussão entre Donald Trump e Volodymyr Zelensky na Sala Oval levou a que o documento não fosse assinado. Depois do desentendimento entre os dois líderes, foi Yulia Svyrydenko quem coordenou inteiramente o processo.
“Ela foi a chave e a única pessoa a liderar essas negociações. Ela conseguiu prevenir que descarrilassem”, descreveu, à Agence France-Presse, Tymofiy Mylovanov, antigo ministro da Economia. O mesmo político sublinhou o “profissionalismo” da primeira-ministra eleita por Zelensky e como reage bem sob pressão.
Caso for eleita para o cargo, Yulia Svyrydenko já identificou quais serão as “tarefas prioritárias”: “Fortalecer o potencial económico da Ucrânia; expandir os programas para apoiar o povo ucraniano; aumentar a produção interna de armas”. E até já um objetivo a longo prazo: “A Ucrânia merece estar entre as economias mais fortes da Europa”.