Despedir Jay Powell da Reserva Federal dos EUA passou de uma hipótese “provável” para “altamente improvável” no espaço de alguns minutos. Na tarde desta quarta-feira, o Presidente dos EUA, Donald Trump, rejeitou que esse seja um cenário em cima da mesa, minutos depois de uma fonte da Casa Branca ter dado essa tentativa de despedimento como iminente. “Não estamos a planear fazê-lo. É altamente improvável“, disse aos jornalistas na Casa Branca, citado pela CNBC.

A declaração surge pouco depois de um responsável da administração (não identificado) ter afirmado exatamente o oposto. Num encontro com congressistas republicanos esta terça-feira, Trump terá dito que ainda não tomou uma decisão definitiva mas que irá, “provavelmente”, demitir Jay Powell.

A informação foi dada por um responsável da administração a meios de comunicação como a agência Bloomberg e o canal financeiro CNBC. O The New York Times acrescenta que Trump até escreveu um rascunho da carta que poderá publicar onde se explica a demissão que, caso se confirme, deverá gerar um longo processo judicial nos EUA e arriscaria desestabilizar os mercados financeiros.

A ideia de que Trump poderá, após várias hesitações, avançar para uma tentativa de destituição de Jay Powell foi comunicada pelo próprio Presidente dos EUA num encontro com vários congressistas do partido republicano. Esses congressistas terão dado a sua anuência a que Trump avance com essa iniciativa, de acordo com a informação transmitida por essa fonte da Casa Branca.

“O Presidente perguntou o que pensavam da demissão do presidente da Fed” e os congressistas “expressaram aprovação“, segundo o relato citado pela CNBC e pela Bloomberg. Logo depois, “o Presidente indicou que, provavelmente, o fará em breve“, disse o responsável da Casa Branca.

Casa Branca investiga custos de renovação da sede da Fed e volta a falar na demissão de Powell

O assessor económico da Casa Branca Kevin Hassett, que é visto como um dos principais candidatos ao cargo, disse no fim de semana à ABC que Trump tem o poder para o demitir se houver “evidências” a justificá-lo. E apontou um caso que está a ser investigado e que coloca como possível “evidência” para essa demissão: Jerome Powell “tem muito a responder”, disse Hassett, sobre os custos com a remodelação da sede da Fed em Washington.

Donald Trump voltou, em finais de junho, a admitir a possibilidade de despedir Jay Powell, o presidente da Reserva Federal (Fed) – ou, pelo menos, tentar fazer isso (já que não seria um processo legalmente fácil, pelo contrário). Depois de o banco central ter voltado a decidir manter as taxas de juro inalteradas, como era consensualmente esperado pelos analistas dado o risco de inflação, Trump voltou à carga: “Talvez, só talvez, eu tenha de mudar de ideias sobre a hipótese de o despedir…”.

Trump diz que, afinal, poderá mudar de ideias e (tentar) demitir o líder do banco central, Jay Powell

A hipótese de Trump (tentar) demitir Jay Powell já tinha sido admitida pelo próprio Presidente dos EUA. Saíram, também, notícias de que alguém na administração teria sido encarregado de encontrar uma forma legal de despedir o líder da Reserva Federal. Mas essa ideia parecia ter caído por terra quando Donald Trump descartou por completo, numa entrevista no início de maio, a hipótese de demitir Powell – lembrando que o mandato do presidente da Fed termina dentro de poucos meses.

“Talvez, só talvez, eu tenha de mudar de ideias sobre a hipótese de o despedir… De qualquer forma, o seu mandato termina em breve“, escreveu o Presidente na (sua) rede social Truth Social. “Percebo perfeitamente que as minhas fortes críticas tornam mais difícil para ele fazer o que deveria estar a fazer, que é reduzir as taxas, mas tentei de todas as formas diferentes”, acrescentou Donald Trump, que chegou a insultar Jay Powell chamando-lhe “estúpido” e “um completo medricas”.

Sob pressão, Jay Powell tem dito que as críticas de Trump “não afetam, de modo algum, a forma como a Fed faz o seu trabalho”. Além disso, o líder da Fed indicou que não é legalmente possível a Casa Branca terminar antecipadamente o seu mandato, que termina em 2026.

O Presidente dos EUA tem criticado o líder da Fed por não estar a baixar as taxas de juro – ainda não o fez este ano, ao passo que o BCE, por exemplo, já cortou os juros quatro vezes só em 2025.

A incerteza gerada pela “guerra comercial” lançada por Donald Trump é uma grande parte da explicação para a manutenção dos juros num nível ainda “restritivo” da atividade económica, como reconhece o próprio presidente da Fed. Além disso, os juros mais elevados tornam mais oneroso o financiamento da despesa pública norte-americana.

(Notícia atualizada às 18h08 com as declarações de Donald Trump).