A intervenção de André Ventura no debate do Estado da nação desta quinta-feira ficou marcada pela menção ao dono de um café próximo do Parlamento que, segundo o líder parlamentar do PSD, não existe. E, segundo o vice-presidente da bancada, o senhor João existe, mas não é do café. Tudo começou quando, para responder à intervenção inicial do primeiro-ministro — que citou a poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner dizendo “somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos” — o Presidente do Chega decidiu responder à letra com uma citação do senhor João.
“Senhor primeiro-ministro, não vou lhe citar Sophia, vou-lhe antes citar o senhor João aqui do café à frente do Parlamento (é sempre melhor saber estes do que alguns autores): o Estado da Nação é a total podridão e desilusão”, disse Ventura. “E não podia deixar de razão ao senhor João, e não à Sophia, porque ele olha para um primeiro-ministro que veio ao Parlamento e fala para uma nação que não existe.”
Quando chegou à vez da bancada parlamentar do PSD tomar a palavra, Hugo Soares quis aproveitar o tema para atacar o líder do Chega. “Não podia de deixar de dizer ao país e a esta câmara que não há de facto nenhum senhor João com um café em frente à Assembleia da República”, afirmou. “São tantas e tantas as vezes que vende ilusões para o Tik Tok que desta vez devia ter escolhido outro sítio, porque à frente do Parlamento não há nenhum senhor João”, acrescentou o líder parlamentar do PSD.
A agitação na bancada do Chega foi grande em reação ao comentário de Hugo Soares, nomeadamente com o líder da bancada do Chega, Pedro Pinto, a dizer: “Há, sim, tu é que nunca lá foste!” Depois do sucedido, em declarações ao Observador, Cristóvão Norte, deputado social-democrata desde 2011, confirmou, em parte, a versão de Hugo Soares, avançando uma possível explicação para a alegada confusão feita por André Ventura.
“O senhor João tinha um restaurante nas cercanias da AR, no tempo da Assembleia Constituinte. Sei disso porque o senhor João, sempre que se inicia uma nova legislatura, faz questão de consultar os jornais e informar-se detalhadamente sobre os novos deputados (verifica fotografias e nomes), porque os deputados vão à papelaria onde trabalha”, explicou.
“Sempre que lá vão, o senhor João trata sempre os deputados por ‘senhor deputado e nome’, o que é do maior agrado dos deputados. No meu caso, pelo facto de o meu pai ter sido deputado na Assembleia Constituinte, quando para cá vim em 2011, o senhor João informou-me que tinha tido um restaurante, no tempo da Assembleia Constituinte, um pouco mais acima da sua papelaria. E o meu pai era um dos seus habituais clientes. Agora, tem uma papelaria que é icónica no meio do Parlamento”, continuou Cristóvão Norte.
“Por isso, ou terá sido um lapso quando o líder do Chega quando chamou aquilo de café (nunca vi um senhor João com um café perto da Assembleia da República) ou então desafortunadamente é mais um dos casos em que se inventa um João, um Pedro ou uma Maria para dar autoridade a um argumento político que não é mais do que isso. Assim parece que há um entidade com grande reconhecimento que veicula um argumento, quando essa personalidade não existe”, acusou o deputado do PSD.