O Banco Português de Fomento (BPF) lidera a única candidatura portuguesa à construção de uma gigafábrica de Inteligência Artificial (IA), a instalar em Sines. O projeto vale quatro mil milhões de euros e, a concretizar-se, será financiado por fundos europeus. Mas para isso é preciso que seja selecionado por Bruxelas, e há mais 75 candidatos na Europa. A candidatura, que para já foi apenas uma manifestação de interesse, é “muito competitiva”, diz o CEO do BPF, mas pede cautela com o entusiasmo.

“Doseando as expetativas, nós somos um de 76 projetos candidatos. Estamos a candidatar Portugal contra fábricas de IA apoiadas pelos governos da Europa com enormíssimo impacto”, sublinhou Gonçalo Regalado esta sexta-feira na conferência de apresentação dos resultados do banco soberano.

“Os indicadores são claros: a Europa como um todo tem de investir 200 mil milhões de euros na transformação digital, segundo o Relatório Draghi, e na inteligência artificial. Desses 200 mil milhões, este primeiro concurso são 20 mil milhões”, que serão destinados a “quatro ou cinco fábricas” dedicadas à IA.

Para Gonçalo Regalado, o projeto apresentado por Portugal, que integra ainda empresas e fundos de investimento, tem três pontos fortes. O primeiro é o facto de Portugal ser “um dos poucos” países só com uma candidatura, enquanto outros têm candidaturas dispersas. “Nós conseguimos, com muitas entidades, com o Governo, fundos de investimento, empresários e empresas, juntar forças em Portugal entre o setor público, o Estado e o BPF”, enumerou.

A segunda vantagem que a candidatura leva, aponta o responsável, prende-se com as “forças” de Portugal serem “fraquezas” da Europa, nomeadamente a indústria e a manufactura avançada, a indústria de defesa e militar, e ainda a saúde, a biotecnologia e a farmacêutica. “A nossa grande força”, acrescentou ainda, “é apostarmos no oceano e no mar porque temos a maior plataforma continental da Europa e uma das maiores do mundo.

A última vantagem prende-se com os timings. “Temos uma das candidaturas com a maior capacidade de entregar entre 2027 e 2028 a fábrica feita”, porque há um pólo tecnológico em Sines, sendo uma zona onde “há capacidade de fazer licenciamentos ágeis e rápidos”. Gonçalo Regalado destacou ainda o facto de Portugal ter a terceira energia mais barata da Europa. “Temos uma candidatura forte, que é muito competitiva, mas que tem 76 candidaturas e mais de 20 países a bordo”, resumiu. O “desafio” foi “não colocar Portugal a perder por falta de comparência”, o que aconteceu noutros casos. Apresentada a manifestação de interesse, segue-se o período para a apresentação formas das candidaturas.

Lucros diminuem no semestre. “Nunca seremos um banco multimilionário nos resultados”

O grupo Banco Português de Fomento fechou o primeiro semestre com lucros de 8,9 milhões de euros, um resultado líquido que compara com 10,9 milhões registados no mesmo período do ano passado. A descida das taxas de juro teve impacto nos resultados individuais do próprio banco, que baixaram de 11,2 milhões de euros para oito milhões entre janeiro e junho de 2025.

“Nunca seremos um banco multimilionário nos resultados”, declarou o CEO do BPF, Gonçalo Regalado, na apresentação dos resultados que teve lugar esta quinta-feira em Lisboa. “Não vamos criar comissões de forma musculada e arbitrária e não vamos multiplicar a margem de crédito e dos depósitos no nosso balanço”, sublinhou. “A margem de crédito acompanhará os programas de financiamento em sindicato que teremos com a banca comercial e a margem dos depósitos será cada vez menor, porque há uma redução da remuneração dos depósitos mas sobretudo porque o dinheiro não tem de estar parqueado no balanço do BPF, tem de estar ao serviço das empresas”, defendeu Gonçalo Regalado.

A margem financeira do BPF desceu de 9,6 milhões para 6,2 milhões de euros e as comissões aumentaram de 15,7 para 17,4 milhões de euros no mesmo período. Os custos operacionais do banco aumentaram de 10 milhões para 11,7% devido ao aumento dos custos com pessoal.

Na apresentação de resultados, a administração do BPF fez ainda um balanço do trabalho conduzido pelo banco junto das empresas nos últimos seis meses. A linha BPF Invest Export, criada para apoiar as empresas expostas às tarifas de Donald Trump, tem suscitado particular interesse. A linha conta mil milhões de euros para fundo de maneio e 2.500 milhões para investimento, dos quais 400 milhões podem ser a fundo perdido. Em três semanas, foram recebidas duas mil candidaturas, no valor de 1.069 milhões de euros, metade do valor disponível para as PME. As grandes empresas têm disponível 1,4 mil milhões de euros nesta linha, mas essas garantias ainda estão “em desenvolvimento”.

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