O Banco Central Europeu (BCE) manteve esta quinta-feira as taxas de juro em 2%. A decisão da instituição comandada por Christine Lagarde era esperada pelos analistas, depois de na reunião anterior o BCE ter sinalizado que após oito descidas, sete consecutivas, que colocaram os juros no atual patamar, deveria seguir-se uma pausa. Esta é a primeira reunião de 2025 em que não são anunciados cortes dos juros. Até ao final do ano ainda deverá ser anunciada pelo menos mais uma descida, que deixará os juros dos depósitos em 1,75%. Esta poderá também ter sido a última reunião que contou com Mário Centeno.
No comunicado que anuncia a manutenção dos juros, o BCE não antecipa mudanças no rumo da inflação face ao que tinha previsto na última reunião de junho, na qual previu uma inflação média de 2,0% em 2025 e 1,6% em 2026. O órgão sublinha que a pressão do lado dos preços continua a diminuir, enquanto os salários estão a crescer mais lentamente. “A economia tem provado manter-se resiliente no geral num ambiente global desafiante”, sublinha a instituição. “Ao mesmo tempo, o ambiente mantém excecionalmente incerto, especialmente devido às disputas comerciais”.
O BCE está “determinado em garantir que a inflação estabiliza na meta de 2% a médio prazo”, não se comprometendo com um rumo para as próximas decisões de política monetária, que serão avaliadas “reunião a reunião”.
No início da conferência de imprensa em Frankfurt, a presidente do BCE destacou que “mais do que nunca, o conselho de governadores considera que é crucial fortalecer com urgência a zona euro e a sua economia, face ao atual ambiente geopolítico”. Christine Lagarde defende que “os governos devem priorizar as reformas estruturais, o crescimento e o investimento estratégico enquanto asseguram finanças públicas sustentáveis”.
A presidente do BCE pediu ainda uma solução rápida para as incertezas comerciais, dizendo que tal seria bem recebido “por qualquer agente económico”.
“Quanto mais cedo esta incerteza comercial for resolvida […], com menos incerteza teremos de lidar, e isso seria bem recebido por qualquer agente económico, incluindo nós próprios”, disse Lagarde. As declarações da presidente do BCE surgem no dia em que a Comissão Europeia adota uma lista de 93 mil milhões de euros com contramedidas a aplicar pela União Europeia (UE) aos Estados Unidos da América a partir de agosto, caso não haja um acordo sobre as tarifas.
As tensões comerciais entre Bruxelas e Washington intensificaram-se com os anúncios do Presidente Donald Trump de imposição de taxas à UE, que começaram por ser de 25% para o aço, o alumínio e os automóveis europeus e depois se tornaram também em tarifas recíprocas ao bloco comunitário, fixadas em 30% após um período de negociações. A incerteza tem fortalecido o euro face ao dólar, que tem negociado nos 1,17 dólares e perto de máximos de quatro anos, o que tem levantado dúvidas sobre como poderia influenciar a política monetária do BCE.
A presidente do BCE disse na conferência que a instituição não tem nenhum objetivo na taxa de câmbio face ao dólar, mas que acompanha as variações porque é um indicador que importa para as previsões relacionadas com a inflação.
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A presidente do BCE reforçou a ideia de que o choque inflacionista já terá passado. “Como disse da última vez, estamos confiantes de que já ultrapassámos o choque inflacionista dos últimos anos, e agora o nosso trabalho é olhar para o que aí vem”, acrescentou, dizendo que “há muitos elementos que se vão desenvolver nos próximos meses” e que terão impacto na evolução da economia.
Questionada sobre os efeitos de o BCE poder falhar os objetivos, Lagarde reforçou que o BCE “não será movido por pequenos desvios” e que objetivos são a médio prazo.
A presidente do BCE admitiu que alguns governadores podem estar muito preocupados com falhas nas previsões, mas que é algo que está previsto nas projeções do organismo. “Está lá, mas o que é importante é o nosso objetivo a médio prazo, porque é o objetivo que reafirmámos na nossa estratégia, e é definitivamente 2%.
“Os riscos associados a uma eventual escalada nas tensões comerciais e tarifárias incidem, no caso europeu, e ao contrário do que acontece nos Estados Unidos, mais sobre o crescimento económico do que sobre a inflação, numa dinâmica agravada pelo fortalecimento do euro”, destaca Ricardo Evangelista, CEO da ActivTrades Europe.
Neste contexto, reforça o analista, “espera-se que o BCE reduza as taxas pelo menos mais uma vez em 2025, sendo ainda incerto se o próximo corte de 0,25% ocorrerá em setembro ou dezembro. Num cenário mais extremo, embora menos provável, em que se confirme o pior desfecho de um conflito comercial com os EUA e a imposição de tarifas de 30%, não se pode excluir a possibilidade de dois cortes adicionais, o que faria com que a taxa de depósito recuasse para 1,5%”.