A MNTC (Main), a empresa que faz a manutenção regular do ascensor da Glória, assinou vários contratos com a Carris usando uma morada num parque tecnológico na Caparica onde nunca trabalhou. Isso foi confirmado por um responsável desse parque tecnológico que garante “desconhecer” que a Main, com quem nunca teve qualquer contrato ou relação comercial, usava aquela morada como sede social – só conhecia a empresa porque, por vezes, chegavam cartas que o Madan Parque, por cortesia, entregava à Main.

Depois de uma visita do Observador às instalações do Madan Parque, um parque tecnológico ligado à Universidade Nova de Lisboa, Alcino Pascoal, assessor da administração, disse por email que “desconhecia o facto de a empresa ter definido o nosso endereço como a sua sede social”. O responsável garante que “nunca existiu qualquer contrato de incubação entre essa empresa e o Madan Parque”.

A Main, cuja designação comercial é MNTC – Serviços Técnicos de Engenharia, assinou contratos em 2019 e 2022 usando essa morada no Madan Parque. Já o contrato assinado em 2025, para um ajuste direto de mais cinco meses de trabalhos, já contém uma morada diferente, numa zona residencial em Almada.

Trata-se de um escritório sem identificação na porta, na Rua Polónio Febrero Júnior onde, de acordo com testemunhos recolhidos junto de vizinhos, é frequente ver um número reduzido de pessoas a trabalhar. Oficialmente, a Main tem 28 funcionários. Estão estacionadas, a poucos metros, duas carrinhas comerciais com o logótipo da Main.

A morada usada pela Main nos contratos mais antigos (2019 e 2022) é na Rua dos Inventores, o que fica perto do campus mas numa zona distinta. É aí que, hoje, está aquele parque empresarial. Mas a Main nunca trabalhou nesse edifício.

“Durante vários anos, a empresa [MNTC] esteve instalada num edifício no campus da Nova FCT, onde o Madan Parque esteve a funcionar enquanto era construído o edifício-sede para o qual nos mudámos em abril de 2009 [o que fica na Rua dos Inventores]”, explicou Alcino Pascoal, dando a entender que apenas teve a MNTC como vizinha nesse primeiro edifício no campus.

A empresa saiu da Caparica [do tal edifício acima referido, no campus] para a atual loja em Almada no verão de 2023″, durante o verão, recorda a mesma fonte, notando que não tem mais “informações sobre a empresa em questão”.

Outra empresa de Gustavo Pita Soares foi (apenas) vizinha do Madan Parque

Além da Main (MNTC), Gustavo Pita Soares, diretor e principal acionista (75%, com 25% nas mãos da companheira), também lidera uma empresa chamada Geratriz. E também essa empresa usou a mesma morada no Madan Parque (na Rua dos Inventores) na assinatura de contratos, noticiou o jornal Público nesta quarta-feira.

O jornal acrescenta que, no passado, as duas empresas – a Main e a Geratriz – funcionaram nesse edifício da Uninova – Instituto de Desenvolvimento de Novas Tecnologias, uma instituição de investigação independente formada, em 1986, pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Nova, e que tinha instalações no campus universitário do Monte da Caparica. No entanto, apenas a Geratriz teve, em 2010, um “acordo de cedência de espaço” no Edifício 6, que naquela data estava sob gestão da Uninova.

Em 2023, a faculdade necessitou do espaço para as suas atividades de investigação, pelo que todas as 12 empresas que aí estavam, entre as quais a Geratriz, Lda., tiveram de abandonar o edifício. A empresa MNTC – Serviços Técnicos de Engenharia, Lda. nunca teve qualquer relação com a universidade nem com a Uninova”, afirmou a faculdade, ao Público.

Mas, hoje, o Madan Parque, que era outra empresa que estava no campus, enquanto decorriam as obras de construção do atual espaço, garante que nem uma nem a outra empresa trabalharam alguma vez nas atuais instalações do parque tecnológico – na Rua dos Inventores.

“Confirmo que nunca existiu qualquer relação comercial entre o Madan e aquelas duas empresas, pelo que nunca houve circulação de contratos” entre estas entidades – a Madan Parque, a MNTC (Main) e/ou a Geratriz.

A empresa que gere o Madan Parque tem várias modalidades de contratos de incubação, desde aluguer de escritórios até pequenos espaços de trabalho em co-work, mas nunca a MNTC (Main) teve qualquer relação com a Madan Parque. Porém, como a Main usava aquela morada como sede social, incluindo nos contratos que assinava com clientes, havia correspondência que chegava a este parque empresarial.

Por vezes, havia cartas que vinham aqui parar. E nós tínhamos o cuidado de avisar as empresas, em vez de devolvermos as cartas que chegassem até nós”, refere Alcino Pascoal.

Porém,”aquele apoio pontual que prestámos (guardar as cartas e, por vezes, uma ou outra encomenda, além de os notificarmos) nunca pressupôs que as empresas em causa podiam colocar a morada do Madan como sendo a sua sede social”, afirma o responsável do Madan Parque. “Tal só seria possível mediante um contrato de incubação apropriado – e tal nunca existiu!“, sublinha.

MNTC (Main) alterou morada fiscal em junho de 2024

No portal de informação sobre empresas gerido pelo Ministério da Justiça, é possível constatar que a Main alterou, em junho de 2024, a morada fiscal para a rua em Almada onde ficam os seus escritórios. Mas, até então, a morada sempre foi o Madan Parque, na Rua dos Inventores, onde a Main nunca trabalhou.

Contactado pelo Público, um advogado contratado pela Main, Ricardo Serrano Vieira, não quis prestar esclarecimentos e acrescentou que também recomendou ao seu cliente, Gustavo Pita Soares, que não preste declarações à empresa. O telemóvel de Gustavo Pita Soares está desligado desde, pelo menos, a quinta-feira após o acidente que acabou com a morte de 16 pessoas.

Main. Empresa que faz manutenção do ascensor da Glória recebeu 4 milhões de municípios e empresas públicas desde 2017

(Notícia atualizada no dia 11 de setembro, pelas 10h45, com mais esclarecimentos dados por um responsável do Madan Parque e alterado o título)