A empresa externa responsável pela manutenção dos ascensores da Carris chama-se MNTC – mais conhecida no setor por Main – e recebeu nos últimos anos pelo menos quatro milhões de euros em contratos públicos – os principais dos quais com a STCP, no Porto, e com a Carris, em Lisboa. Pedro Bogas, o presidente da Carris, sublinhou que não se deve assumir que houve um problema com a manutenção, que é feita por uma “empresa certificada, com técnicos credenciados”, da qual, indicou, “nunca houve qualquer queixa”. Mas reconhece que o inquérito que está a ser feito poderá, “muito em breve, elucidar” sobre se houve uma falha na manutenção do funicular.
A MNTC – Serviços Técnicos de Engenharia (Main) faz a manutenção externa destes veículos há seis anos – embora, de acordo com aquilo que referiu o presidente da Carris, já exista uma externalização desse trabalho “pelo menos desde 2007”. Empresas como a CME – Construção e Manutenção Eletromecânica chegaram, segundo uma consulta ao portal Base, a desempenhar esse trabalho no passado (há dados de um contrato com esta empresa em 2012, terminado no ano seguinte, e sem haver mais referências posteriores até ao concurso de 2022). Mas, segundo o presidente da Carris, a Main assegura desde 2019 esta manutenção, através de um concurso para três anos e voltou, em 2022, a vencer um novo concurso que levou à assinatura de mais um contrato pelo mesmo período de três anos, este disponível no portal Base. Neste procedimento, que a Main venceu, ficaram para trás as concorrentes Gasfomento – Sistemas e Instalações de Gás, GMF – Railway Maintenance Services e Liftech (esta última também surge no concurso cancelado de 2025 a pedir esclarecimentos).
Esse segundo contrato já foi assinado pela administração de Pedro Bogas, que iniciou funções em maio de 2022, poucos meses após a eleição de Carlos Moedas para a Câmara Municipal de Lisboa (eleições que venceu no outono de 2021). Anteriormente, estava em funções na Carris uma administração liderada por Tiago Farias (com José Realinho de Matos como vice), que liderava a empresa desde 2016 – ou seja, foi com essa administração que a Main ganhou o primeiro contrato (em 2019, era Fernando Medina o presidente da câmara).
Os três anos relativos ao segundo contrato expiraram, porém, no final de agosto, isto é, precisamente no início da semana em que viria a ocorrer o acidente que levou à morte de 16 pessoas, de acordo com o balanço feito nesta quinta-feira. E o concurso público que fora lançado em abril ficou deserto porque nenhuma das propostas apresentadas pelas empresas interessadas – incluindo pela Main – cabia dentro dos 1,2 milhões que eram o “preço-base” do concurso.
Concurso fracassou ao fim de quatro meses, perto do fim do contrato anterior
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De acordo com o procedimento publicado no portal Vortal, o concurso para a manutenção de quatro infraestruturas – Ascensores da Bica, Lavra e Glória e Elevador de Santa Justa da Carris – foi aberto a 28 de abril deste ano e encerrado perto de quatro meses depois, sem sucesso.
“Esta oportunidade foi cancelada em 08/14/2025 5:05 PM e a data oficial do cancelamento é 09/01/2025 5:16 PM devido ao seguinte motivo: Tendo em consideração que as propostas apresentadas pelos concorrentes são superiores ao preço base, foi aprovada a decisão de não adjudicar o Processo nº 046/2025, bem como revogada a decisão de contratar, nos termos do disposto na alínea b) do nº 1 do artigo 79º do CCP”, pode ler-se no portal
Esse era o valor máximo que a Carris podia pagar no concurso, sendo superior em cerca de 20% ao contrato anterior (os 995 mil euros que a Main recebeu entre 2022 e 2025). O novo “preço-base” foi calculado de acordo com as regras que Pedro Bogas lembrou existirem nestes processos – mas, apesar do aumento do valor, os 1,2 milhões não foram suficientes para as empresas que participaram no concurso.
Estas, apesar de saberem que seria impossível conseguir o contrato, por terem um custo mais alto do que o “preço-base”, entregaram as suas propostas (com valores superiores aos 1,2 milhões) no concurso. Isso é algo que, explicou fonte do setor ao Observador, normalmente é feito para que a empresa (pública) contratante possa ter uma ideia daquilo que as empresas (privadas) orçamentam, o que pode ajudar a que seja lançado um novo concurso com um valor mais elevado. E foi mesmo isso que Pedro Bogas sinalizou — o próximo concurso deverá ter um valor acima dos 1,2 milhões.
Com o fim do contrato de três anos, no final de agosto, a Main continuou, no entanto, a fazer o mesmo trabalho de manutenção ao abrigo de um novo contrato assinado a 20 de agosto – uma atribuição que foi feita por ajuste direto, com o período de cinco meses (até final de janeiro de 2026), o que poderia dar tempo à Carris para lançar um novo concurso público.
Esse ajuste direto não foi disponibilizado no portal Base justificando a Carris pelo facto de ser uma empresa considerada de “setor especial” e, por isso, ter regras próprias na adjudicação de contratos públicos até um certo valor. Empresas de fornecimento de luz, água e transportes estão entre os chamados “setores especiais”, assim classificados pela diretiva europeia que foi transcrita para a legislação portuguesa e que está prevista no Código da Contratação Pública (CCP).
Continuar com a manutenção dos três ascensores (Glória, Lavra e Bica) e do elevador (Santa Justa), ao abrigo do contrato provisório de cinco meses, irá custar à Carris 223 mil euros, um valor que a Main aceitou, de acordo com o contrato que foi distribuído por Pedro Bogas no final da conferência de imprensa desta quinta-feira. “Não havia nenhuma intenção de poupança”, garantiu o gestor.
Gustavo Pita, diretor da empresa, está incontactável
O Observador esteve todo o dia de quinta-feira a tentar contactar, por telemóvel, Gustavo Pita – mas o número, que confirmou pertencer ao gestor, esteve sempre desligado. Também não teve sucesso o contacto para o número de telefone fixo da sede fiscal da Main, que fica em Almada.
A Main, cujo nome comercial é MNTC – Serviços Técnicos de Engenharia Lda., tem dois acionistas: 75% do capital é detido por Gustavo Alexandre Garcia Pita Soares e os restantes 25% propriedade de Marieta Garcias, que será sua companheira, de acordo com uma pesquisa nas redes sociais.
De acordo com os dados do Insight View da Iberinform, consultados pelo Observador, a empresa tinha no final de 2024 28 empregados, 25 homens e três mulheres – trata-se de uma companhia que chegou a ser distinguida pelo IAPMEI com os prémios PME Excelência e PME Líder. A atividade começou em 2009, com o nome de Engendra, Lda, e em 2024 a faturação baixou para 1,29 milhões de euros, uma quebra de 16% face ao ano anterior, e teve um lucro de 136 mil euros (menos 2%).
Foi também em 2024 que fez uma extensão do objeto social, segundo dados disponíveis no Portal da Justiça, para incluir a “manutenção preventiva, preditiva e corretiva de material circulante ferroviário, via e rede aérea, veículos elétricos e veículos elétricos históricos que se deslocam sobre carris. Manutenção de instalações de elevação e funiculares. Gestão de infraestruturas de transportes terrestres”. Isto depois de em 2022 ter registado no objeto social a “fabricação e manutenção de ascensores, monta cargas, teleféricos, escadas e passadeiras rolantes e de transportadores similares, incluindo a fabricação de acessórios, partes e peças destes equipamentos. Atividades de instalação, reparação e manutenção de elevadores e escadas rolantes; portas automáticas e giratórias. Serviços complementares e atividades conexas”. De qualquer forma, segundo o presidente da Carris, a empresa fazia manutenção desde 2019, tendo sido nos concursos conhecidos sido aceite como candidata.
Gustavo Pita é diretor de mais duas empresas. Uma é a Geratriz, também fundada em 2009, uma empresa com três acionistas (Pita é maioritário) que tem sede em Aveiro mas funciona no Parque Madan, um parque empresarial e incubadora de empresas ligado à universidade Nova de Lisboa, no Monte Caparica – é uma empresa que opera nos setores da água, do gás e da eletricidade, explicou o gestor em entrevista à publicação LinktoLeaders, em 2017.
Um dos principais produtos dessa empresa, o Wemeter, acabou por ser autonomizado numa nova (micro) empresa – criada em 2024 com o nome do produto – que tem sede social no mesmo bairro residencial em Almada, de acordo com os dados compilados pelo Insight View. O Wemeter é um produto que monitoriza os dados do consumo da água, do gás e da eletricidade para promover um uso mais económico desses recursos, nomeadamente em grandes superfícies comerciais.
Quase 4 milhões de euros em contratos com o setor público
Apesar deste produto pensado para o setor do retalho, a principal atividade da MNTC sempre esteve ligada ao Estado e aos concursos públicos. Os dois contratos mais importantes são o da Carris, que expirou no final de agosto e valia 995 mil, e um contrato feito com a STCP, no Porto, que vale 1,88 milhões de euros por um período de cinco anos. Esse contrato no Porto, o mais valioso da empresa, passa por trabalhos de manutenção da frota histórica de carros elétricos do Porto.
Desde o início de 2017, a MNTC recebeu 42 contratos com entidades públicas – num valor que se aproxima de quatro milhões de euros no total (em rigor, 3.779.458 euros, tendo em conta os dados que constam do portal Base). Mas este valor não inclui, no entanto, valores recebidos em ajustes diretos em “setores especiais” como é o caso do contrato para continuar a manutenção dos ascensores por mais cinco meses – os tais 223 mil euros.
O valor recebido pela empresa ultrapassa, assim, os quatro milhões de euros. Existem contratos com o IEFP, com a Fundação INATEL e com várias juntas de freguesia de Lisboa (São Vicente, Penha de França, Santa Clara, Avenidas Novas, Belém e Parque das Nações) às quais presta serviços onde se incluem, por exemplo, trabalhos de manutenção de piscinas municipais. Teve, ainda, um contrato com o município de Ílhavo, para fornecimento de produtos, tratamento de águas e assistência técnica nas piscinas municipais.
Com a mesma Carris, trabalhou, também, na renovação de oito elétricos do museu da empresa.
O que tem a Main de fazer, ao abrigo do contrato?
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O contrato assinado em 2022 (bem como o seu prolongamento, por ajuste direto, a partir desta semana) prevê “a aquisição [pela Carris] de serviços de manutenção dos ascensores da Bica, Lavra e Glória e Elevador de Santa Justa”.
Há uma primeira componente, e principal, que passa pela “assistência permanente” aos veículos, com “serviços de manutenção preventiva, preditiva, curativa e corretiva abrangendo sistemas, órgãos e componentes, incluindo as estruturas e caixas, bem como desmontagem e montagem dos cabos de tração”.
Prevê-se, também, que a empresa faça o “fornecimento de materiais necessários para a manutenção, incluindo massas e óleos lubrificantes necessários, das marcas em uso na Carris e de acordo com os esquemas de lubrificação em vigor”.
Por outro lado, há uma segunda componente do contrato que diz que a Main faz a “reparação de danos decorrentes de atos de vandalismo, acidentes/abalroamentos, que só serão executados mediante solicitação e aprovação prévias da Carris, para o efeito, e mediante apresentação do orçamento prévio” por parte da Main.
O presidente da Carris indicou, na conferência de imprensa, que estas empresas, que asseguram a manutenção, fornecem “todas as peças e em alguns casos fabricam as próprias peças”.
Pedro Bogas salientou que, até agora, nunca houve qualquer problema ou queixa que pusesse “em causa a confiança que tínhamos neste prestador”. “Do nosso lado, Carris, avaliámos e parece-nos que [as inspeções] foram bem efetuadas”, diz, sublinhando que a empresa tem vindo a “aumentar” no global o “investimento na manutenção”, tanto nos autocarros como nos elétricos.
O responsável explicou que há pessoas da Main que trabalham em permanência na Carris, uma espécie de implantes, e que são os responsáveis pelo trabalho de manutenção ao abrigo do contrato em vigor. “Há seis técnicos e três engenheiros da empresa envolvidos neste trabalho – e dois elementos estão em permanência, 24 horas por dia” na Carris, sendo “acompanhados por dois técnicos especializados” da empresa de transportes públicos. “É tudo fiscalizado por nós“, repetiu, salientando que o diretor da Carris desta área tem mais de 40 anos de casa.
“O protocolo de manutenção é o mesmo há muitos anos”, acrescentou Pedro Bogas, explicando que “as inspeções ao cabo são diárias” – “no dia a dia surgem pequenas avarias, [e quando isso acontece] há uma nota de avaria, o guarda-freio toma nota da avaria e o veículo vai a reparação”, notou.
Quanto à Main, Pedro Bogas explicou que “uma das razões por que esta operação está externalizada é porque exige conhecimentos muito específicos” que existem em empresas — “e não são muitas que existem no mercado” — que são “especializadas e têm pessoas especializadas e certificadas para este tipo de manutenção”. E, além de assegurarem a manutenção, estas empresas também “fornecem todas as peças e, em alguns casos, fabricam as próprias peças”, dado que são veículos antigos para os quais já não é possível encontrar algumas peças de substituição, afirmou Pedro Bogas.