Trabalhadores em vários estados norte-americanos estão a ser despedidos ou a enfrentar consequências disciplinares por declarações e publicações nas redes sociais sobre a morte do ativista Charlie Kirk, consideradas ofensivas ou insensíveis pelas entidades empregadoras. Desde a morte do conservador e apoiante do Presidente Donald Trump também surgiu um site para denuncias e vários ativistas de extrema-direita garantiram que vão “arruinar” as aspirações profissionais daqueles que consideram estar a celebrar a morte de Kirk. Em resposta, há quem denuncie o que descreve como uma “campanha de assédio coordenada”.

O Washington Post escreve, a título de exemplo, que nas primeiras 24 horas após a morte de Charlie Kirk foram despedidos uma vice-reitora de uma universidade no Tennessee, um elemento de comunicação de uma equipa da NFL, um funcionário da empresa Next Door, em Milwaukee, e o sócio de um restaurante em Cincinnati depois de publicarem sobre Kirk, morto a tiro quando participava num debate numa universidade em Utah.

No caso do despedimento da vice-reitora Laura Sosh-Lightsy, da Middle Tennessee State University, está em causa uma publicação nas suas redes sociais, onde, como muitos outros utilizadores, menciona que as suas ideias e comentários podem não refletir a posição da sua entidade empregadora. No post Sosh-Lightsy refere que o “destino” de Kirk se concretizou por meio das suas palavras. “Ódio gera ódio. Nenhuma compaixão”. No mesmo dia, a presidente da universidade publicou um comunicado em que anunciava o despedimento da vice-reitora devido aos seus comentários “inapropriados e insensíveis”, “inconsistentes” com os valores da instituição.

Já Andrew Herrmann é um de dois professores da East Tennessee State University colocado em licença administrativa pelo mesmo motivo. Em reação a uma publicação no Facebook que expressava simpatia pela família do ativista, o docente escreveu: “Colheu o que semeou”. Também partilhou uma notícia sobre a posição de Kirk sobre a posse de armas, acrescentando: “Não podes ficar chateado se uma das mortes for a tua”.

Um dos primeiros casos de despedimento foi o do analista político e comentador da MSNBC Matthew Dowd por declarações depois do assassinato de Kirk, como noticiou a CNN. “Ele tem sido uma das figuras mais controversas, especialmente entre os mais jovens, que está constantemente a promover esse tipo de discurso de ódio ou direcionado a certos grupos. E volto sempre à ideia: pensamentos de ódio levam a palavras de ódio, que por sua vez levam a ações de ódio. E acho que esse é o ambiente em que vivemos. Não podem parar com estes pensamentos horríveis que têm e depois dizer essas palavras horríveis sem esperar que ações horríveis aconteçam. E esse é o ambiente lamentável em que vivemos”, afirmou no canal norte-americano quando questionado sobre o “ambiente em que um tiroteio como este acontece”.

Charlie Kirk. O aliado de Trump que tornou o conservadorismo “fixe” nos Estados Unidos

As palavras provocaram uma onda de críticas nas redes sociais. Em resposta, a presidente da MSNBC Rebecca Kutler emitiu um comunicado em que descrevia as declarações de Dowd como “inapropriadas, insensíveis e inaceitáveis”. O comentador publicou entretanto um comunicado em que pedia desculpa pelo seu “tom e palavras”, acrescentando que os seus pensamentos e orações estão com os familiares e amigos da vítima.

Os despedimentos também chegaram à DC Comics. A empresa cortou as ligações com Gretchen Felker-Martin e cancelou uma série da sua autoria, “Red Hood”, que se foca numa personagem do universo de Gotham City. A autora escreveu na rede social Bluesky: “Os meus pensamentos e orações sua cabra nazi” e “espero que a bala esteja bem depois de tocar Charlie Kik”. “Publicações ou comentários públicos que podem ser vistos como promotores de ódio ou violência são inconsistentes com os padrões de conduta da DC”, indicou em comunicado a a DC Comics.

A imprensa norte-americana também está a avançar casos de trabalhadores que foram despedidos e penalizados não por publicações nas redes sociais, mas no decorrer do seu trabalho. É o caso do jornalista político da Florida A.G. Gancarski, que foi suspenso. Washington Post escreveu que a medida foi tomada porque Gancarski enviou a uma mensagem a um congressista republicano — que defendeu este ano um projeto-lei a favor do porte de armas, desde que ocultas, em universidades — sobre se o tiroteio alterava a sua perspetiva quanto ao assunto.

O Departamento de Estado norte-americano avisou que iria estar atento a comentários vindos de cidadãos estrangeiros. “Em vista do horrível assassinato de uma importante figura política, quero ressaltar que os estrangeiros que glorificam a violência e o ódio não são visitantes bem-vindos no nosso país. Fiquei enojado ao ver algumas pessoas nas redes sociais a elogiar, racionalizar ou menosprezar o que aconteceu, e orientei os nossos funcionários consulares a tomarem as medidas”, escreveu o Secretário de Estado Adjunto, Christopher Landau. “Sintam-se à vontade para me informar sobre tais comentários”, acrescentou.

Os despedimentos e os comentários de algumas figuras políticas estão a gerar várias críticas. “É absolutamente justo chamar a isto campanha coordenada de assédio”, disse à CNN Laura Edelson, professora assistente na Northeastern University e diretora do Projeto de Cibersegurança para a Democracia. “É exatamente por isso que existe: para coordenar e direcionar o assédio a indivíduos selecionados”. Algumas associações, nomeadamente ligadas ao ensino, também têm expressado apoio aos professores afetados. “Os professores não abrem mão dos seus direitos da Primeira Emenda [sobre liberdade de expressão] quando aceitam o emprego”, sublinhou ao Washington Post Keri Rodrigues, presidente do grupo National Parents Union.

Criado site anónimo que pede dicas sobre funcionários e estudantes que apoiem “violência política”

Entretanto um utilizador anónimo criou um site, o “Expose Charlie’s Murderers” (em português, “Expõe os assassinos de Charlie”) onde se pede dicas sobre pessoas que estão a “apoiar a violência política online”. Na plataforma existe uma lista com nomes, cidades e local de trabalho de pessoas que publicaram sobre o assassinato.

“Um funcionário ou estudante teu está a apoiar violência política? Procura-os neste site” e “esta é a maior operação de despedimento na história”, lê-se no site, onde se estabelece a intenção de transformar 30 mil submissões numa base de dados de pesquisa mais fácil.

Na lista surgem publicações incendiárias e em que se deseja a morte do Kirk — “Por favor que esteja morto” — e outras que deixam claro que não são a favor da violência nem celebram a morte do ativista. A primeira entrada na página é sobre a canadiana Rachel Gilmore e está acompanhada de uma publicação sua na rede social X. Nela a influencer diz que não acredita que a violência é a resposta, que espera que Charlie Kirk sobreviva e que está “aterrorizada” com a possível “retaliação” de fãs do ativista. Outras pessoas que surgem na lista partilharam artigos com declarações de Kirk — apoiante da 2.ª Emenda da Constituição, que estabelece o direito dos norte-americanos ao porte de armas — sobre o uso de armas.

Vários ativistas de extrema-direita também revelaram que estão a criar as suas próprias listas. “Vou passar a noite a tornar famosas todas as pessoas que encontrar online que comemoraram a morte dele [Charlie Kirk]”, escreveu Laura Loomer na rede social X, garantindo que vai arruinar as aspirações profissionais de quem é “doente o suficiente para celebrar a sua morte”.

O ativista conservador e apoiante de Donald Trump foi baleado no pescoço durante um debate com estudantes na Universidade de Utah Valley — uma iniciativa relacionada com a organização política que fundou, a Turning Point USA. Depois de uma operação de mais de 30 horas o suspeito do homicídio, Tyler Robinson, estudante de 22 anos de engenharia elétrica, foi capturado pelas autoridades norte-americanas.

A confissão ao pai e a denúncia às autoridades. As 33 horas da caça ao homem do FBI que levaram à detenção de Tyler Robinson