Mais de uma centena de pessoas protestaram esta segunda-feira ao fim do dia à porta da Academia Contemporânea do Espectáculo (ACE), no Porto, depois de o seu antigo diretor artístico e professor, António Capelo, ter sido acusado de assédio sexual e moral por ex-alunos.
A agitação frente à escola foi um espelho da insatisfação e da exigência por mudança de manifestantes, alunos, ex-alunos, professores, atores e profissionais do espetáculo que quiseram posicionar-se contra os alegados casos de assédio e abuso sexual que terão sido perpetrados na ACE, depois de várias vítimas terem partilhado as suas experiências nas redes sociais. Esta segunda-feira, o Observador reportou relatos que descrevem alegado assédio sexual de António Capelo sobre alunos, alguns menores, ao longo de décadas. A ACE Porto cancelou as aulas desta segunda e terça-feira, sabe o Observador.
“Quebramos o silêncio. Aqui ninguém está sozinha”, lia-se numa grande faixa diante da porta da escola. “Justiça”, “vergonha”, eram palavras reproduzidas em pequenas folhas A4. Sérgio Aires, candidato do Bloco de Esquerda à Câmara Municipal do Porto nas eleições que se avizinham, foi a única figura política a passar pelo local — de resto, o primeiro testemunho não anónimo de uma alegada vítima é de Mia Filipa Gaspar, número três da lista bloquista ao município.
“O mal não está no teatro e nas artes, o mal não está na ideologia”, ouve-se ao microfone, quando não está ocupado por palavras de ordem intrincadas nas canções feministas de Capicua. “Não é afeto, é assédio”, escuta-se a seguir. “Mexeu com uma, mexeu com todas”, repete-se. A estucada final: “A vítima nunca tem culpa e o teatro também não”.
▲ Mais de uma centena de pessoas marcou presença na manifestação na Rua Formosa, no Porto, esta segunda-feira
IGOR MARTINS / OBSERVADOR
“Isto é uma situação que decorre há décadas, não é de agora, e tem de terminar o silêncio. Têm de ser dado espaço às vítimas que sofreram não só de assédio sexual, mas também assédio moral, em ambiente de humilhação, em que tudo era esperado em prol da arte, todos os sacrifícios”, disse aos jornalistas Cristiana Leal, porta-voz da Marcha Orgulho LGBTI+ do Porto, a organização responsável pela manifestação desta segunda-feira.
Leal teceu duras críticas à “cultura do sacrifício que legitima a humilhação, o assédio e o medo” que impera em escolas artísticas como a ACE. “Nenhuma vocação justifica violência, nenhuma arte nasce do abuso”, reiterou. “Hoje não estamos apenas a pedir justiça, o que queremos é mudanças profundas. Queremos escolas seguras, professores que inspirem e não abusem. A arte não é sacrifício nem violência. A arte é crescimento, espírito crítico e visão”. “O abuso não pode ficar nos bastidores”, frisou.
Carolina Lopes, 17 anos, é estudante da ACE e não faltou à concentração. “Apesar de nada ter acontecido comigo, acho que é importante vir para que se fale das coisas e que haja justiça pelas coisas”, explica ao Observador, admitindo que “durante muito tempo a escola não fez muita coisa”, mas que hoje se sente apoiada pelo corpo docente.
“Esta situação é horrível e muito má, mas há professores muito bons na ACE e que querem o melhor para os alunos de facto e que não faziam a mínima ideia disto que se passava. Acredito que houvesse pessoas que encobrissem, mas não aquelas que estão próximas de nós agora. Acho importante ver esse lado, que há pessoas que querem o melhor para os alunos também e que estão a fazer de tudo para ajudar”.
Nenhum elemento da direção da ACE marcou presença na manifestação, onde participaram alguns antigos professores e funcionários da instituição, mas também alguns atuais.
“Olho para aqui e vejo gerações de alunos, vejo décadas”, diz uma atual professora ao Observador, que prefere não ser identificada. “O meu apoio, estar aqui hoje é o mínimo que eu posso fazer. Fui aluna, ouvi certas coisas, não vi, mas não podemos dizer ‘é impossível’. Não sem bem o que fazer a não ser estar [aqui].”
Como todos os presentes na manifestação que falaram com o Observador, esta professora não se revê no comunicado da ACE, emitido na última semana, focado no anonimato das vítimas. “Não me revi na exclusividade de defesa da instituição. Porque estes alunos e ex-alunos também são a instituição. É assim que vejo. Continuam a ser ACE.”
IGOR MARTINS / OBSERVADOR
Raquel S., dramaturga e encenadora, ex-professora de dramaturgia na ACE, também esteve na manifestação. “Estou aqui enquanto pessoa que deu aulas na ACE e que se revoltou desde o início com a falta de posição da ACE e da escola em direção a isto. Para mim é muito importante que as pessoas, alunas e ex-alunas da escola, saibam que há muitos professores, muitas pessoas que dão alunas nesta escola e que querem saber e que querem que isto mude, e que exigem que isto mude.”
Na última semana, a direção da Academia Contemporânea do Espectáculo, constituída por Pedro Aparício e Glória Cheio, demitiu-se, na sequência das primeiras notícias que visavam António Capelo, antigo diretor artístico, professor e fundador da instituição.
Já no domingo, o Ministério da Educação confirmou que a Inspeção-Geral da Educação e Ciência (IGEC) abriu um processo de averiguações à escola, depois de ter recebido uma denúncia no dia 8 de setembro. A ACE é uma escola de artes do espetáculo, tutelada pelo Ministério da Educação, que leciona cursos profissionais artísticos do 10.º ao 12.º ano.
António Capelo, 69 anos, tem negado todas as acusações e apresentou uma queixa-crime no Ministério Público contra “uma página anónima no Instagram”.