Chegou a Lisboa vindo de Barcelona de jato privado de chapéu, barba por fazer e a ter boleia até casa como uma qualquer pessoa que estivesse de folga, entrou pela porta do Seixal menos de 24 horas depois a conduzir o Ferrari preto que lhe foi oferecido por Roman Abramovich quando era treinador do Chelsea preparado para assinar contrato e conhecer a nova realidade na carreira. O Benfica mostrou interesse, José Mourinho aceitou esse interesse, os interesses mútuos acabaram da melhor forma numa ligação até 2027 que funcionou como regresso a uma casa de partida onde tudo começou a solo há 25 anos. A novela iniciada na madrugada de quarta-feira, quando Bruno Lage foi demitido após a derrota com o Qarabag, chegava (de vez) ao fim.
Visivelmente bem disposto, Mourinho saiu de casa à hora de almoço para rumar ao Centro de Treinos dos encarnados, cumprimentou de forma bem disposta os seguranças que estavam no portão, estacionou o carro e foi ao porta-bagagens tirar uma mala de viagem que deveria ter materiais para começar quase de imediato a trabalhar. Antes desse primeiro treino, que foi marcado para a parte da tarde para que já fosse orientado pelo novo treinador (os jogadores deveriam começar a chegar por volta das 15h/15h15), esteve reunido com Rui Costa e Mário Branco, diretor geral, além do agente Jorge Mendes e do seu braço direito, Valdir Cardoso. Assinou, foi conhecendo os cantos à casa, seguiu para a sala de conferências onde seria de forma oficial apresentado pelo presidente dos encarnados antes de regressar ao balneário da equipa.
A partir de agora, o foco do técnico está somente focado na deslocação ao norte para defrontar o AVS (que também rescindiu com José Mota esta semana). A comitiva encarnada vai rumar na tarde desta sexta-feira para uma unidade hoteleira mais próxima da Vila das Aves, onde irá realizar a sexta ronda do Campeonato, sendo possível que, tendo em conta os próximos compromissos na Luz com Rio Ave (partida em atraso da jornada inaugural) e Gil Vicente, o plantel não tenha qualquer folga nos próximos dias. Antes, aquele que ficou conhecido no futebol mundial por Special One falou pela primeira vez como técnico do Benfica, com a apresentação “oficial” a surgir no painel atrás da mesa com imagem, iniciais e assinatura de Mourinho.
???? Bem-vindo, José Mourinho!
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“A seguir ao jogo da Liga dos Campeões era nosso desejo que no próximo jogo já tivéssemos treinador e aqui está. O mister José Mourinho dispensa apresentações. Regressa a uma casa que bem conhece, é um dos treinadores mais conceituados ao nível mundial. Queríamos um treinador com currículo ganhador e dificilmente encontraríamos um currículo mais vasto do que o de José Mourinho. Que seja tão feliz nesta casa como tem sido em todas as outras. É uma honra, um privilégio e um orgulho tê-lo como treinador do Benfica”, começou por introduzir Rui Costa, presidente do Benfica, numa conferência que devia ser mais curta pelas horas do treino mas que se foi prolongando também por “culpa” das respostas longas do técnico.
APRESENTAÇÃO JOSÉ MOURINHO https://t.co/PTJhvEgouU
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“São tantas emoções mas a experiência ajuda-me a controlá-las. Quero agradecer a confiança que depositou em mim. Sendo português obviamente não há um único que não conheça a história e a cultura da nação benfiquista e deste clube, mas quero deixar claro que tenho de ser capaz de bloquear todas estas emoções e olhar para o Benfica de um modo muito simplista: sou o treinador de um dos maiores clubes do Mundo. Quero fechar-me nesta missão, quero centrar-me, não na dificuldade mas no prazer do que é o trabalho de um treinador, de me focar em algo apaixonante. São 25 anos, mas não venho para cá celebrar carreira. São 25 anos em que tive a oportunidade de trabalhar nos maiores clubes do mundo. Quero dizer-lhe, como representante dos benfiquistas, que nenhum dos clubes que tive a oportunidade de treinar, me fez sentir mais motivado do que ser treinador do Benfica. A promessa é clara, vou viver para o Benfica, para a minha missão. Saí de casa e disse ‘até domingo’. É uma honra tremenda”, referiu na apresentação.
Seguiram-se algumas perguntas, neste caso dirigidas para Mourinho e com respostas que deixavam pouco por dizer com a habitual ironia à mistura. “Na cabeça de alguma pessoas tenho dois currículos, um que durou um certo período e outro que na cabeça de alguma pessoas é uma fase menos feliz da minha carreira. A minha infelicidade é que nos últimos cinco anos joguei duas finais europeias… Mas eu não sou importante. Venho numa fase em que, como pessoa, sou mais altruísta, menos egocêntrico na alegria que posso dar aos outros. Eu não sou importante, os adeptos do Benfica é que são importantes. Estou aqui para servir, para fazer o Benfica ganhar. O ADN do Benfica é ganhar. Revejo-me na cultura, no perfil, naquilo que é o povo que ama mesmo o futebol. O povo quer ganhar mas quer sentir-se parte do esforço, da mentalidade, do sacrifício. Nós somos uns privilegiados mas durante 90 minutos representamos aquela gente. Tenho um respeito enorme pela minha profissão mas tenho um respeito enorme pelo meu clube”, apontou o treinador.
Míster José Mourinho ????⚪ pic.twitter.com/345gCLC23O
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“Ontem [Quarta-feira] era acompanhado por algumas motas da TV e o benfiquismo saltava na estrada. Arrepia, faz pele de galinha… 25 anos ao mais alto nível não me tornaram imune a tudo isto. Não vamos ganhar sempre mas não podemos perder como perdemos há dois dias. Não é Benfica. Benfica é o que jogou contra o Fenerbahçe 30 minutos, é quem esteve em Istambul com um jogador a menos conseguiu levar um resultado positivo. É o Benfica em que me revejo. Tenho jogo daqui a 48 horas, vou encontrar jogadores em recuperação. Tenho de meter o meu dedo muito ao de leve, não posso radicalizar. Tem de se começar por este perfil ao nível emocional, entrar em campo a saber que somos muito milhões e pensar neles. Do ponto de vista tático vou meter dedo mas de forma controlada. Muita coisa foi bem feita pelo meu antecessor”, frisou.
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A parte do regresso à Luz 25 anos depois do primeiro projeto desportivo como técnico principal também foi revista por Mourinho. “Tento bloquear os sentimentos, é importante fazê-lo. São duas fases diferentes, não só da minha carreira mas também da minha vida. Foi o início da minha carreira e agora estou num momento de grande maturidade. Se esperam que acabe daqui a quatro ou cinco anos estão enganados, eu é que vou decidir. Queria vir ontem à noite, estar a trabalhar, reunir com os analistas, com assistentes… Só vou acabar quando sentir que alguma coisa mudou. Hoje sinto que o que mudou é que tenho mais fome do que tinha há 25 anos. Hoje penso mais nos outros. Sou o último da fila, estou aqui para servir. Aquele momento era diferente em termos de maturidade. Sinto-me mais vivo do que nunca. Se sinto que são todos os benfiquistas que estão felizes por estar aqui? Acho que não. Quem é magnânimo? Quem tem esse poder de ter toda a gente do seu lado? Ninguém. Mas sinto a responsabilidade de fazer coisas boas”, destacou.
“O que não mudou? O que não mudou é que estou doido para ganhar o próximo jogo. Há 25 anos era a mesma coisa, quando joguei contra o Benfica também estava. Essa é a minha essência. Mas há mais maturidade, é muito difícil acontecer alguma coisa com a qual não me tivesse já deparado. Venho para um clube com uma estrutura humana e profissional de altíssimo nível. As pessoas que trago comigo são a minha gente, mas agora somos todos para o mesmo. É fantástico para mim”, acrescentou o técnico dos encarnados.
«Quem é o treinador que diz não ao Benfica?» ???? pic.twitter.com/UqLT8ky6LW
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Entretanto, o Benfica tinha anunciado à CMVM o contrato feito com José Mourinho, válido até 2026/27 mas com uma cláusula que permite, dez dias antes do último encontro da época de 2025/26, que as duas partes possam denunciar e não cumprir a temporada seguinte. “É um contrato com uma grande ética por trás. Só assinei, não o elaborei. Só assino o que me agrada mas tem da parte do clube um respeito enorme pelas eleições, pelos sócios que vão concorrer à presidência. Sensibilizou-me o contrato ser direcionado por essa ética. No dia seguinte às eleições eu serei o treinador do Benfica mas a presença desse lado ético dá uma facilidade que noutras condições não existiria. Quero trabalhar no Benfica mas quero que as pessoas estejam no mesmo barco do que eu. Quero cumprir os dois anos e o contrato, com êxito, para que o clube depois queira renovar comigo”, explicou de forma aberta a esse propósito o antigo campeão europeu.
Houve depois tempo para falar mais de futebol e da ideia tática que pretende implementar na Luz. “No meu anterior clube [Fenerbahçe] as coisas eram fáceis, queria jogar a quatro mas o clube contratou cinco jogadores depois de eu ter saído. Enquanto lá estava era impossível, tinha sete centrais. Mas adapto-me àquilo que existe. Tens de te adaptar ao que existe. Eu elogiei o plantel do Benfica e voltarei a fazê-lo. Se perguntar se joguei com as palavras, sim, mas achei que o Benfica tinha feito um ótimo trabalho no mercado, era uma equipa que gostei muito. Não sou um grande exemplo de fair play mas estou melhor, não foi com facilidade que me saiu os parabéns ao Benfica e ao Bruno [Lage]. O Benfica tem bons jogadores, tinha um bom treinador mas a vida é assim. É um luto que nós treinadores temos de fazer quando o nosso trabalho é interrompido e o Bruno deve estar a sofrer, como eu sofri, mas desejo-lhe as maiores felicidades”, salientou.
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“Regresso ao Dragão? Espero uma receção diferente. A que tive [há uma semana] foi normal porque sou um treinador histórico no clube, não ia lá há 20 anos. Regressar como treinador do grande rival, obviamente será diferente. Mas o respeito não vai mudar. Volto como treinador do grande rival, não há muita volta a dar, mas não tenho qualquer tipo de problema. Treinador defensivo? As minhas equipas atacam com 11 e tentam manter os equilíbrios, defendem com 11 e mordem muito porque nos últimos jogos o Benfica mordeu pouco…”, apontou, numa rara ocasião em que apontou algo que tem faltado à equipa encarnada.
“Se posso prometer que vou ser campeão como fiz no FC Porto? As promessas valem o que valem, na altura no FC Porto prometi e podia não ter cumprido. Penso verdadeiramente que o Benfica tem todas as condições para ganhar o Campeonato. Tem dois pontos perdidos, seguramente iremos perder mais, espero que não muitos, mas partimos da estaca zero. O Benfica tem potencial no balneário para ser campeão, mas não me escondo. Promessa não, mas a convicção que podemos e devemos fazer. O contexto para mim é treinar um dos maiores clubes do mundo. A minha carreira foi rica, treinei em diferentes países. Tive uma opção errada, sem arrependimentos, mas a consciência do que fizemos bem ou mal existe. Fiz mal em ir para o Fenerbahçe, mas dei tudo até ao último dia. Treinar ao Benfica é regressar agora ao meu nível”, destacou.
Primeiro treino com José Mourinho no Benfica Campus! ????
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“Ao Mourinho de há 25 anos diria que as coisas correram bem, apesar de ter feito algumas borradas. Ruído? Sou muito forte em não sentir o ruído mediático porque não sou um maníaco sobre o que dizem sobre mim e sobre a equipa. É uma proteção minha, não tenho tempo para preocupações exteriores. Quem me elogiar ou criticar não vai mudar a minha vida. Por treinar clubes mais importantes, aprendi”, concluiu.
Também Rui Costa respondeu a algumas questões no final, neste caso não só sobre a contratação de José Mourinho mas também sobre o período pré-eleitoral que o Benfica vive. “Foi para mim um privilégio enorme perceber que ele tinha vontade de vir treinar o Benfica. Deu-nos força para achar que estávamos com a pessoa certa. Isso facilitou a escolha e a decisão final, por isso conseguimos estar aqui de forma a que o mister dê já o treino desta tarde. Trunfo eleitoral? “Estou aqui como presidente do Benfica, estou a escolher um treinador para o Benfica. Faz-me confusão que se use esses termos… A nossa obrigação é o futuro do clube. Não pensar em eleições era deixar o clube sem treinador até às eleições? Mourinho é treinador do Benfica porque consideramos que tem todos os pergaminhos para estar à frente de um clube como o nosso. Considerámos que tinha de ser um treinador capaz de treinar um clube desta dimensão”, assegurou.
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“Mourinho explicou como o contrato foi realizado e aproveito para agradecer ao mister. Há uma cláusula no final da temporada que deixa a possibilidade de quem estiver a liderar o clube de continuar ou não com o treinador. Estamos a contratar para o Benfica um treinador que não é indiferente ao nível mundial, trata-se de um dos nomes mais conceituados ao nível mundial. Quisemos assegurar o futuro do Benfica com um treinador de excelência. Cartada ou não cartada, o risco grande da época era trazer um treinador sem esta qualidade, que não tivesse a bagagem suficiente para fazer frente tudo isto e se perdesse a época. Só me resta agradecer-lhe por aceitar este desafio, de treinar a equipa de futebol. O resto serão outros 500, será também a nossa missão proteger a equipa das eleições”, voltou a acentuar o líder dos encarnados.
Preparação para o #AFSSLB: ???? pic.twitter.com/Gf8qIzO4a1
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“Responsabilidades? “Nunca deixei de assumir as minhas responsabilidades, o primeiro responsável serei sempre eu porque sou eu quem escolhe os treinadores. Estou grato aos treinadores que trabalharam comigo nestes quatro anos, mas é a vida no futebol. Em países latinos nem sempre se consegue ter treinadores a longo prazo. Roger Schmidt foi campeão, ganhou a Supertaça mas não teve o sucesso que esperávamos que tivesse, Bruno Lage começou com a época começada… Procuro dar esta continuidade aos treinadores, até entendermos que alguma coisa tem de mudar. São coisas que fazem parte do futebol”, rematou.