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Chegou de Ferrari preto oferecido por Abramovich para mudar um "Ferrari vermelho": Mourinho assina até 2027 (com uma cláusula de saída)

Este artigo tem mais de 1 ano

Foi sondado por Vieira, foi ponderado por Rui Costa. À terceira, foi de vez: Mourinho, que estava fora do país, regressou a Lisboa para fechar acordo com o Benfica e suceder a Lage no comando técnico.

Frase deixada por José Mourinho na chegada a Lisboa para assinar com o Benfica acabou por ser aproveitada para o cachecol oferecido por Rui Costa ao novo treinador
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▲Frase deixada por José Mourinho na chegada a Lisboa para assinar com o Benfica acabou por ser aproveitada para o cachecol oferecido por Rui Costa ao novo treinador

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

▲Frase deixada por José Mourinho na chegada a Lisboa para assinar com o Benfica acabou por ser aproveitada para o cachecol oferecido por Rui Costa ao novo treinador

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Bruno Lage ainda não tinha sido oficialmente demitido, José Mourinho já estava a ser oficiosamente referido como treinador do Benfica. Nos corredores da Luz, o nome do antigo treinador do Fenerbahçe não era novo. Mais: esteve mesmo em cima da mesa por duas ocasiões nos últimos anos, primeiro ainda com Luís Filipe Vieira na liderança dos encarnados e depois, de forma mais recente, com Rui Costa como presidente. Neste caso, à terceira foi mesmo de vez: 25 anos depois de ter começado a carreira como técnico principal no antigo estádio como aposta de João Vale e Azevedo, aquele que ficou conhecido no futebol mundial como o Special One pelo episódio que protagonizou na apresentação como novo treinador do Chelsea está de regresso. E, curiosidade das curiosidades, num contexto muito semelhante em termos institucionais ao que se vivia.

Aí, no ano de 2000, Mourinho não teve um início fácil (ficou conhecido o episódio com Sabry, que demorou demasiado tempo a preparar-se para entrar em campo e acabou por permanecer mesmo no banco), o plantel não apresentava também as soluções que os adversários diretos tinham, mas a saída acabou por acontecer na sequência de uma goleada frente ao Sporting por 3-0 na Luz. Mourinho saiu do Benfica porque entretanto o novo presidente dos encarnados era Manuel Vilarinho, que queria Toni no banco, Mourinho não entrou no Sporting como estava “apalavrado” para render Augusto Inácio porque houve uma pequena invasão da sala de conferências em imprensa em Alvalade em protesto contra a opção. Assim, o técnico acabou por ficar sem trabalho antes de ser aposta da União de Leiria. A partir daí, saltou para o FC Porto. O resto é história.

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Enquanto Bruno Lage se despedia de todo o plantel numa conversa onde esteve também Rui Costa e o novo diretor geral, Mário Branco, e que conheceu momentos de maior emoção, com alguns jogadores a quererem manifestar o seu apreço pelo técnico apesar do desfecho consumado na sequência da derrota caseira na Liga dos Campeões com o Qarabag, José Mourinho estava no estrangeiro, mais concretamente em Espanha, mas ao corrente de tudo o que se passava. O Benfica manifestou interesse em acertar contrato com o português que rescindiu há poucas semanas com o Fenerbahçe, o português assumiu que a Luz poderia ser uma porta interessante de regresso ao país como pretendia, o acordo estava próximo sem se encontrar fechado.

No final da última temporada, Mourinho era uma opção real para Rui Costa avançar mas, feita uma reflexão sobre tudo o que tinha acontecido, o presidente dos encarnados entendeu que seria preferível manter Bruno Lage no comando e criar vários objetivos intermédios a atingir entre ciclos do que apostar num treinador “novo” que nunca teria tempo de trabalho depois do Mundial de Clubes tendo em conta que a final da Supertaça com o Sporting (um dos tais “objetivos”) iria realizar-se com apenas duas semanas de trabalho após as férias. Lage continuou no comando técnico, conquistou o primeiro título, garantiu a entrada direta na Champions exatamente contra o Fenerbahçe de José Mourinho mas não resistiu aos últimos resultados.

“Razões para o insucesso? É por essa análise que tivemos de chegar a este momento. É uma semana dura e pesada para todos nós e para todos os benfiquistas. Esta semana deixou-nos aqui uma marca. Temos de levantar imediatamente a cabeça. É difícil até de explicar como é que a equipa virou de um momento para o outro, e lembram-se do meu discurso à equipa após apuramento para a Liga dos Campeões. Esta época é uma época bastante atípica para o nosso clube, o período que tivemos de descanso, de preparação para a Supertaça e para a pré-eliminatória da Champions. Até ao momento, a equipa não parou praticamente duas semanas para trabalhar, a única que parou foi aquela em que os jogadores foram para as seleções. Temos de mudar este rumo agora”, comentou Rui Costa esta madrugada após a rescisão.

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“Muito honestamente, certo ou errado, sou muito apologista da continuidade dos projetos. Não fomos campeões mas a uma semana do fim tínhamos tudo para ganhar o que estava em disputa. Fomos para o Mundial e fomos eliminados pelos campeões do mundo. Considerava uma irresponsabilidade hipotecar a época pelo princípio, entrar numa Supertaça e numa pré-eliminatória da Champions sem uma pré-temporada, com um treinador que não conhecesse os jogadores. Parecia-me e parece-me uma irresponsabilidade. Não esquecer que pelo meio o Benfica tinha jogos do Campeonato. Essa foi a minha decisão e a confiança que tinha em Bruno Lage, porque na última temporada porque tivemos muito perto de ganhar tudo. Nenhuma equipa está em descalabro quando está tão perto de ganhar assim”, acrescentou.

“O mais importante é que desejo muito bem ao Benfica. Foi o que tentámos fazer neste regresso, foi nesse sentido que trabalhámos arduamente neste início de época, mostrar um plantel diferente dos que encontrei há um ano quando chegámos. Mas alguns condicionalismos, quer internos quer externos, não nos permitiram fazer melhor. Agora vim despedir-me dos jogadores. Cumpriram sempre as minhas indicações. Quero bem ao Benfica porque o clube fez muito pela minha carreira. Cheguei aqui para treinar nas escolas, saio pela segunda vez a treinar a equipa sénior. O Benfica projetou-me em termos nacionais e internacionais de uma maneira que nunca pensei, proporcionou-me condições financeiras que me permitem dar conforto à minha família, para termos uma vida tranquila”, comentou na manhã de quarta-feira Bruno Lage no Seixal.

Em paralelo, num anúncio-sem-ser-bem-um-anúncio, o técnico acabou por falar sobre o seu sucessor quase como se José Mourinho estivesse confirmado (que ainda não estava). “Quero desejar a melhor sorte ao senhor que se segue, que não sei se se confirmam as notícias, se é o mister Mourinho ou não. É um homem que conhece bem o Benfica, jogou três vezes connosco, conhece bem esta equipa, elogiou muitas vezes o plantel. Dizia que era um homem feliz pelas opções que tinha, agora será muito mais feliz por ainda contar mais com o Sudakov e o Dodi [Lukebakio] a chegarem para jogar”, apontou o antigo técnico.

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Entre a parte da manhã e o final da tarde, altura em que Mourinho aterrou em Lisboa vindo de Barcelona, o Benfica foi sobretudo discutido num plano eleitoral, com todos os candidatos à presidência dos encarnados a deixarem críticas a Rui Costa pela postura “eleitoralista” que comportava uma aposta no atual contexto no treinador que foi campeão europeu pelo FC Porto em 2004 e pelo Inter em 2010. Ponto fulcral: a duração do contrato que estaria à espera para regressar ao Benfica, tendo em conta que daqui a cerca de cinco semanas haverá eleições. Ao longo dos contactos feitos ao longo do dia, o Observador sabe que esteve em equação a possibilidade de haver um vínculo só até junho de 2026, com ou sem opção de renovação por mais uma temporada, mas as conversações acabaram mesmo por levar o acordo para um contrato até 2027.

A Benfica SAD informa que chegou a acordo com o treinador José Mário dos Santos Mourinho Félix para a celebração de um contrato de trabalho desportivo para vigorar até ao final da época desportiva 2026/27. Mais se informa que, dez dias após o último jogo da época desportiva 2025/26, nas mesmas condições, tanto a Benfica SAD como o treinador poderão optar por não dar continuidade ao contrato para a época desportiva 2026/27”, explicaram as águias.

Em paralelo, e de uma forma quase “natural”, José Mourinho passará também a ser o treinador com salário mais alto na Primeira Liga, superando (e muito) os valores de Rui Borges e Francesco Farioli mas também a fasquia que antes existia com Ruben Amorim, Sérgio Conceição ou Roger Schmidt. O técnico poderá ter um vencimento um pouco mais baixo do que na Turquia mas deverá receber um montante de quatro milhões de euros limpos por temporada, o que equivale a um encargo de mais de oito milhões brutos.

“Não vos posso confirmar nada. Não tenho nada para vos dizer, honestamente. Na pré-época disse que sabia que ia voltar a Portugal. Se já sabia que podia voltar ao Benfica? Não, pensava que um dia iria para a Seleção. Não tenho nada para vos dizer. A única coisa que confirmo é que antes de entrar no avião perguntaram-me se eu poderia ter interesse e eu disse que sim, poderia ter interesse. O Benfica oficialmente perguntou-me se eu estaria interessado. Eu disse que estava no estrangeiro e que quando regressasse a Portugal teria todo o gosto em falar com as pessoas”, começou por referir o técnico depois de aterrar em Lisboa.

“Se eu regressar ao Benfica não é uma celebração de carreira nem um regresso a casa. Eu saí do meu anterior clube há três ou quatro semanas, se perguntarem se estava à espera de ficar até ao final da época sem treinar, essa não é a minha natureza. Queria treinar, disse para mim próprio que teria de me equilibrar emocionalmente porque não queria dizer sim a algum clube que não fosse o certo só pelo facto de ser um bocadinho workaholic ou futebolaholic. Quando fui confrontado com a possibilidade de treinar o Benfica, não pensei duas vezes no sentido de ‘Interessa-me, gostava’. Mas estou em Lisboa para ir para casa”, voltou a reforçar José Mourinho, que abordou também a posição do seu antecessor na Luz, Bruno Lage.

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“Conheço o sentimento, conheço o que o Bruno [Lage] está a sentir neste momento. Acho que precisa de fazer o que todos nós fazemos, que é luto. Não há um único treinador que saia feliz, que não saia frustrado, que não saia a pensar que as coisas podiam ter acontecido de outra maneira. Olho para ele com imenso respeito e imensa solidariedade, porque passei pelo mesmo há pouco tempo. Aquilo que eu disse dele há um mês e meio atrás quando jogámos contra o Benfica, repito. Acho que é um ótimo treinador que tinha um grupo de jogadores importante a quem eu felicitei. Para mim dar-lhes os parabéns e dizer que ganharam os melhores e que mereceram ganhar não foi fácil, não sou um exemplo de fair play…”, comentou, antes de deixar uma “farpa” quase de passagem ao presidente do Fenerbahçe que falou numa “coincidência da vida”.

“A minha ética sempre fui assim. Sempre que saí dos clubes fechei a porta, fechei o capítulo, não respondi a provocações, não fui encontrar desculpas. Sempre saí com essa forma de estar. Ele tem uma maneira diferente de atuar da minha. Já falou imensas vezes, não justificou porque é que o jogador que nos eliminou foi comprado só depois de nos ter eliminado. Vamos ver se acontece”, respondeu a Ali Koç.

A passagem pelos turcos foi um dos raros momentos da carreira como técnico principal em que Mourinho não conquistou qualquer título. Após as curtas passagens por Benfica e União de Leiria, o técnico teve o seu grande momento de “apresentação” nos dois anos e meio passados no FC Porto entre 2002 e 2004, quando ganhou uma Liga dos Campeões, uma Taça UEFA, dois Campeonatos, uma Taça e uma Supertaça. Seguiu-se a passagem para o Chelsea e mais dois Campeonatos, uma Taça de Inglaterra, duas Taças da Liga e uma Supertaça, antes de ser despedido. Em 2008, uma nova realidade com o Inter, novo rol de sucessos: uma Liga dos Campeões, dois Campeonatos, uma Taça de Itália e uma Supertaça. Seguiu-se o Real Madrid.

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Espanha foi um dos maiores desafios da carreira para Mourinho, que tinha pela frente um super Barcelona comandando um conjunto merengue que tinha como claro objetivo a vitória na Champions. O português conquistou uma Liga, uma Taça e uma Supertaça, ficando nas meias da prova europeia e saindo em 2013 para a segunda passagem pelo Chelsea, onde ganhou mais um Campeonato e uma Taça da Liga até 2015. O futuro continuou por Inglaterra, assinando pelo Manchester United onde ganhou uma Liga Europa, uma Taça da Liga e uma Supertaça e rumando depois ao Tottenham, onde acabou por ser dispensado quando estava a uma semana de poder ganhar o primeiro título na final da Taça da Liga. O futuro voltou a passar por Itália, com três anos entre 2021 e 2024 onde ganhou uma Liga Conferência pela Roma antes de perder a decisão da Liga Europa na época seguinte. Em 2024, o português assinou pelo Fenerbahçe, de onde saiu sem títulos há poucas semanas depois da eliminação da equipa no playoff de acesso à Liga dos Campeões.

Faltava apenas a confirmação oficial, com o Benfica a anunciar de manhã à CMVM que estava a negociar contrato com o técnico. Pouco depois da hora de almoço, Mourinho saiu de casa no seu Ferrari preto que lhe foi oferecido por Roman Abramovich quando estava no Chelsea e rumou ao Seixal, onde estavam Mário Branco, diretor geral dos encarnados que trabalhou consigo no Fenerbahçe, e Valdir Cardoso, representante da Gestifute (Jorge Mendes não esteve no Seixal). A reunião com o presidente Rui Costa teve como epílogo a assinatura do contrato até 2027 com um grande objetivo do técnico neste regresso à Luz 25 anos depois: mudar um “Ferrari vermelho” que ganhou apenas um Campeonato nas últimas seis temporadas e está agora na antecâmara de um sufrágio eleitoral que será decisivo para o futuro do Benfica.

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