1230,6kWh poupados 1230,6 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

O treinador natural de Setúbal regressa a Portugal mais de 20 anos depois de ter saído do FC Porto
i

▲O treinador natural de Setúbal regressa a Portugal mais de 20 anos depois de ter saído do FC Porto

AFP via Getty Images

▲O treinador natural de Setúbal regressa a Portugal mais de 20 anos depois de ter saído do FC Porto

AFP via Getty Images

Uma década com três países, muitos despedimentos e dois troféus europeus: que Mourinho é que está de volta ao Benfica?

Nos últimos 10 anos, português passou por Inglaterra, Itália e Turquia e acumulou despedimentos e indemnizações. Agora, volta ao Benfica para ser treinador de um presidente que não sabe se tem futuro.

Mais de 20 anos depois de deixar o FC Porto, José Mourinho está de volta a Portugal. O treinador regressa ao Benfica e ao futebol português para substituir Bruno Lage e lutar pelo Campeonato e por todas as frentes internas, para além da óbvia competitividade na Liga dos Campeões que já ficou comprometida com a derrota inaugural perante o Qarabag.

Um empate, uma derrota, o inevitável fim de linha antes das eleições: Rui Costa despede Lage e quer anunciar Mourinho nas próximas horas

A última década de José Mourinho, porém, foi recheada de altos e baixos. Atualmente com 62 anos, o técnico natural de Setúbal passou por Inglaterra, Itália e Turquia em dez anos e acabou sempre despedido — acumulando milhões de euros em indemnizações. Ainda assim, entre Chelsea, Manchester United, Tottenham, Roma e Fenerbahçe, conquistou uma Liga Europa e uma Liga Conferência, para além do último título nacional na Premier League e com os blues.

Mourinho chega ao Benfica depois de uma década intensa e complexa, com saídas abruptas e quase sempre polémicas que o foram fragilizando junto da opinião pública e dos observadores mais atentos do futebol internacional. Recusou a Seleção Nacional para ficar na Roma e voltou a ser associado a Portugal no verão, antes de Roberto Martínez conquistar a Liga das Nações e quando ainda estava na Turquia. Agora, na Luz, tem a tarefa de ser o novo treinador de um Rui Costa que ainda não sabe se tem futuro para além do dia 25 de outubro.

▲ Bruno Lage e José Mourinho cruzaram-se recentemente no playoff de acesso à Champions. Agora, o segundo substitui o primeiro

Photo by Gualter Fatia/Getty Images

Chelsea, 2013 a 2015. O último Campeonato e um arrependimento

Tinha passado menos de um mês desde que a saída do Real Madrid foi confirmada. Os merengues perderam a La Liga para o Barcelona, caíram nas meias-finais da Liga dos Campeões e deixaram fugir a Taça do Rei na final contra o Atl. Madrid, com José Mourinho a garantir que a temporada 2012/13 tinha sido a pior da sua carreira. A relação frágil com a comunicação social espanhola, alimentada por putativas polémicas com Iker Casillas, Sergio Ramos ou Cristiano Ronaldo, abriu a porta ao regresso a um sítio mais confortável: o Chelsea.

Menos de uma década depois de ter chegado a Stamford Bridge pela primeira vez, motivado pela conquista da Liga dos Campeões com o FC Porto e antes de fazer história ao levar os blues à primeira conquista da Premier League em 50 anos, José Mourinho estava de volta a Londres. Chegou para substituir Rafael Benítez, que saiu para o Nápoles depois de ganhar a Liga Europa na final de Amesterdão contra o Benfica, e não escondeu que a decisão tinha tido uma componente emocional muito forte.

“Tive duas grandes paixões na minha carreira, o Inter Milão e o Chelsea. O Chelsea é mais do que importante para mim. Foi muito, muito difícil jogar contra o Chelsea e só aconteceu duas vezes, o que nem foi assim tão mau. Prometo exatamente as mesmas coisas que prometi em 2004, mas com uma diferença para acrescentar: sou um de vocês”, disse o treinador português à chegada.

Como não podia deixar de ser, o regresso de José Mourinho significou o sacrifício de um dos jogadores mais importantes da equipa. Juan Mata, que tinha sido eleito o Jogador do Ano do Chelsea nas duas temporadas anteriores, caiu do onze inicial e perdeu a titularidade para Oscar. O treinador português justificou-se, disse que o espanhol tinha de se adaptar a uma posição mais perto dos corredores e trabalhar mais defensivamente, mas Mata acabou por sair logo em janeiro para reforçar o Manchester United.

Menos de uma década depois de ter chegado a Stamford Bridge pela primeira vez, motivado pela conquista da Liga dos Campeões com o FC Porto e antes de fazer história ao levar os blues à primeira conquista da Premier League em 50 anos, José Mourinho estava de volta a Londres.

Em 2013, José Mourinho apercebeu-se das dores de crescimento da equipa assim que perdeu a Supertaça Europeia para o Bayern Munique, nas grandes penalidades, e passou a temporada a relativizar expectativas e a recordar de que aquele era um ano de transição. Ficou no terceiro lugar da Premier League e caiu nas meias-finais da Liga dos Campeões com o Atl. Madrid, mas existia a ideia de que os blues estavam a caminhar para algum lado.

Uma ideia que se materializou logo na época seguinte. O verão de 2014 trouxe as chegadas de Cesc Fàbregas, Diego Costa e Courtois, para além do reencontro com Didier Drogba — figura crucial do sucesso do treinador português na primeira passagem por Stamford Bridge. A equipa passou a girar à volta da segurança posicional oferecida por Fàbregas e Matic, com Hazard a ter liberdade para soltar o talento e servir Diego Costa e Drogba, e o Chelsea conquistou Premier League e Taça da Liga para voltar a ser campeão inglês cinco anos depois.

The fired one, again. Mourinho despedido do Chelsea

Nesta fase, Mourinho era ainda claramente e de forma vincada “o Mourinho dos anos 2000” — algo que fez com que, logo em agosto de 2015, Roman Abramovich decidisse renovar com o treinador até 2019. A terceira temporada, porém, acabou por ser o fim da linha para o português. O Chelsea era uma sombra do ano anterior, foi eliminado logo na sexta ronda da Taça de Inglaterra e na quarta da Taça da Liga e perdeu em nove das primeiras 16 jornadas da Premier League, com José Mourinho a ser despedido em dezembro como uma “muito adorada, respeitada e significativa figura” do clube, lia-se no comunicado.

Recentemente, há alguns meses, o treinador português confessou que se arrepende de ter decidido voltar ao Chelsea — e que Florentino Pérez que lhe ofereceu a possibilidade de ficar no Real Madrid. “Maior arrependimento? Se falarmos de opções profissionais, recusar a proposta de Florentino Pérez. Ele disse-me ‘Mou, não vás agora, já fizeste o difícil e agora vem o bom’. E eu sabia que seria assim. Ficar teria sido a decisão certa. Mas depois de três anos com tantas dificuldades queria voltar ao Chelsea. Foi uma decisão emocional”, contou em entrevista ao jornal Corriere della Sera.

▲ A última vez que o treinador português foi campeão nacional foi em 2014/15, com o Chelsea

Getty Images

Manchester United, 2016 a 2018. No meio de toda a confusão, o mais bem sucedido da era pós-Alex Ferguson

Depois de apenas cinco meses sem clube, assistindo de fora à segunda metade de temporada em que Guus Hiddink não conseguiu melhor do que um 10.º lugar com o Chelsea na Premier League, chegou uma decisão inesperada. No mínimo. Depois de todas as declarações de amor aos blues, José Mourinho mudava de cores em Inglaterra e assinava pelo Manchester United para suceder a Louis van Gaal, que tinha ficado no 5.º lugar do Campeonato.

O verão foi animador. Para além das chegadas de Eric Bailly, Henrikh Mkhitaryan e Zlatan Ibrahimović, o Manchester United investiu mais de 90 milhões de euros para contratar Paul Pogba, jovem médio francês que estava a brilhar na Juventus. Apesar do 6.º lugar na Premier League e das muitas polémicas à volta das críticas aos árbitros, principalmente Mark Clattenburg e Anthony Taylor, a primeira temporada acabou mesmo por ser a melhor de José Mourinho em Old Trafford.

O treinador português conquistou a Community Shield contra o Leicester logo no início do ano, venceu a Taça da Liga e ganhou a Liga Europa na final de Estocolmo contra o Ajax: o primeiro troféu europeu do Manchester United em quase uma década, o último até aos dias de hoje e a manutenção de um registo até aí perfeito em finais europeias por parte de José Mourinho. O mercado de verão trouxe Romelu Lukaku e Lindelof, para além do reencontro com Matic, mas não foi preciso esperar muito para perceber que nada seria como no ano de estreia.

Se é certo que, ao ficar no segundo lugar da Premier League, Mourinho alcançou o melhor resultado doméstico desde a saída de Alex Ferguson, também é certo que o Manchester United ficou a 19 pontos do campeão Manchester City. A derrota na final da Taça de Inglaterra contra o Chelsea e a eliminação nos oitavos de final da Liga dos Campeões contra o Sevilha deixou o treinador português cada vez mais desconfortável — e o apertar do cerco culminou num monólogo de 12 minutos, precisamente depois da desilusão europeia, numa aparentemente vulgar conferência de imprensa que se tornou mítica.

Depois de apenas cinco meses sem clube, assistindo de fora à segunda metade de temporada em que Guus Hiddink não conseguiu melhor do que um 10.º lugar com o Chelsea na Premier League, chegou uma decisão inesperada. No mínimo. Depois de todas as declarações de amor aos blues, José Mourinho mudava de cores em Inglaterra e assinava pelo Manchester United.

“Estou vivo. Não vou fugir ou desaparecer ou chorar porque ouvi uns assobios”, começou por dizer, vincando depois as diferenças de investimento entre United e City. “Sabem o que é herança? Nicolás Otamendi, Kevin de Bruyne, Fernandinho, David Silva, Raheem Sterling, Sergio Agüero. São investimentos do passado, não são dos últimos dois anos. No dia em que eu sair, o próximo treinador do Manchester United vai encontrar Lukaku, Matic e também David de Gea com mais anos. Vai encontrar jogadores com outra mentalidade, qualidade, ‘background’, com um status diferente e outro conhecimento. Podia estar noutro país e ter a liga no bolso, mas estou aqui e vou continuar aqui e não vou mudar a minha mentalidade”, atirou.

Tal como tinha acontecido no Chelsea, porém, a terceira temporada em Old Trafford acabou por ser a última — e a mais animada no que diz respeito a conferências de imprensa, frases fortes e imagens poderosas. Depois de um arranque em falso, com duas derrotas nas três jornadas iniciais, José Mourinho começou desde logo a pedir “respeito” aos jornalistas e a levantar três dedos no relvado, em referência aos três Campeonatos que tinha conquistado em Inglaterra.

Pogba, Woodward e um balneário sem norte. Quem é que Mourinho ainda tinha do seu lado?

“Conquistei mais Premier Leagues sozinho do que todos os outros 19 treinadores do Campeonato em conjunto. Sou o treinador de um dos maiores clubes do mundo, mas também sou um dos maiores treinadores do mundo. Já gastaram algum tempo a ler o filósofo [G. W. F.] Hegel? Ele disse ‘a verdade está no todo’. É sempre no todo que encontramos a verdade”, atirou.

Os meses trouxeram os desentendimentos com Paul Pogba, a ideia de que queria vender Anthony Martial e um aparente desacordo com Ed Woodward, então vice-presidente do Manchester United, no que dizia respeito ao mercado de transferências. A resistência interna a José Mourinho e às decisões do treinador português ficou provada no início de setembro quando, dias depois de o The New York Times publicar uma carta de um alto responsável da Casa Branca não identificado que garantia fazer parte de um grupo que frustrava os objetivos de Donald Trump a partir de dentro, a Eurosport tornar pública uma declaração de um insider dos red devils que dizia que o mesmo se passava nos corredores do clube inglês.

▲ Paul Pogba foi o protagonista de muitos diferendos com José Mourinho no Manchester United

PETER POWELL/EPA

“José Mourinho enfrenta um teste ao seu reinado como nenhum outro treinador moderno o fez no Manchester United. Não é só por causa de Pep Guardiola. Ou que os adeptos estejam amargamente divididos sobre a sua liderança. Ou até mesmo que pode perder Paul Pogba para o Barcelona em janeiro”, começava por explicar a carta, continuando: “O dilema – que ele não compreende totalmente – é que muitos dos altos funcionários da sua administração estão a trabalhar diligentemente de dentro para frustrar parte da sua agenda e aptidões. Eu sei. Sou um deles”, lia-se no texto, que indicava ainda que a conquista da Liga Europa aconteceu “apesar de Mourinho” e não “por causa de Mourinho”.

Em dezembro, com apenas sete vitórias em 17 jornadas e a 19 pontos do topo da Premier League, a corda partiu e José Mourinho foi despedido. A passagem do treinador português por Old Trafford será sempre recordada pela saída tumultuosa, mas a verdade é que é ainda o técnico mais bem sucedido do pós-Alex Ferguson e o único a ter conquistado um título europeu.

Tottenham, 2019 a 2021. A final que não o deixaram jogar

Os 11 meses que se seguiram à saída do Manchester United foram o período mais longo que o treinador português passou sem clube na última década. Em novembro de 2019, ainda na fase inicial da temporada, Mourinho assumiu o terceiro clube em Inglaterra e assinou pelo Tottenham para substituir Mauricio Pochettino — que tinha sido despedido depois de vencer apenas três vezes em 12 jornadas e que já tinha sido eliminado da Taça de Inglaterra.

Numa época muito marcada pela pandemia de Covid-19, que parou a competição em março e levou depois o culminar das competições praticamente até agosto, o treinador português não foi além do sexto lugar da Premier League e dos oitavos de final da Liga dos Campeões, falhando também as rondas decisivas da Taça de Inglaterra e da Taça da Liga. A estratégia apostava essencialmente nas combinações entre Son Heung-min e Harry Kane no ataque, com Mourinho a ser constantemente criticado pela previsibilidade, o jogo demasiado trancado e uma certa paragem no tempo que parecia prolongar-se desde a segunda passagem pelo Chelsea.

"José Mourinho enfrenta um teste ao seu reinado como nenhum outro treinador moderno o fez no Manchester United. Não é só por causa de Pep Guardiola. Ou que os adeptos estejam amargamente divididos sobre a sua liderança. Ou até mesmo que pode perder Paul Pogba para o Barcelona em janeiro."
Carta publicada na Eurosport por um alegado elemento da estrutura do Manchester United

O mercado de transferências trouxe o inesperado regresso de Gareth Bale, por empréstimo do Real Madrid e apenas por uma temporada, para além das apostas em Højbjerg, Matt Doherty e Sergio Reguilón. Logo em outubro, uma goleada imposta ao Manchester United em Old Trafford deixou a ideia de que o Tottenham podia ter uma palavra a dizer sobre os troféus internos — uma ideia alimentada até dezembro, quando uma vitória contra o Arsenal no North London Derby deixou os spurs no primeiro lugar da classificação.

A partir de fevereiro, porém, tudo ruiu. Em poucas semanas, o Tottenham foi eliminado pelo Everton na Taça de Inglaterra e eliminado pelo Dínamo Zagreb nos oitavos de final da Liga Europa, com uma derrota contra o Chelsea em Londres a marcar a primeira vez na carreira de José Mourinho em que o treinador português perdeu de forma consecutiva em casa. Em abril, na sequência de um empate com o Everton e 17 meses depois de chegar, foi despedido.

Caiu mais uma bomba no Tottenham: Mourinho despedido a menos de uma semana de disputar final da Taça da Liga

O problema? Foi despedido a seis dias da final da Taça da Liga contra o Manchester City, uma final que podia marcar o fim do doloroso jejum de títulos que o clube atravessava desde 2008, há mais de uma década. “Sim, doeu. Não acontece a muitos treinadores. Desta vez não posso dizer que sou o ‘privileged one’, porque aconteceu-me. Mas não tenho arrependimentos e não tenho rancores. Há pessoas muito boas no Tottenham e desejo-lhes o melhor. Mas sim, para alguém com a minha carreira e a minha história foi algo muito estranho”, disse anos mais tarde, depois de deixar um clube sem conquistar qualquer troféu apenas pela segunda vez e muito tempo depois de 2002, com a União de Leiria.

Roma, 2021 a 2024. A tatuagem completa e o “não” à Seleção Nacional

Mourinho disse logo depois da saída do Tottenham que “não precisava de descansar”, afastando um cenário de período sabático como tinha acontecido após ser despedido do Manchester United. Logo em maio de 2021, menos de um mês depois, estava a assinar pela Roma para substituir Paulo Fonseca e voltar a Itália mais de uma década após tudo conquistar com o Inter Milão.

▲ O treinador português reencontrou-se com Matic na capital italiana

Getty Images

O primeiro mercado de transferências trouxe o reforço de áreas-chave, com Roger Ibañez, Tammy Abraham, Rui Patrício e Eldor Shomurodov, a saída de elementos de peso, como Edin Dzeko, Pedro e Javier Pastore, e a promoção de jovens jogadores da formação, como Edoardo Bove, Pietro Boer ou Zalewski. Depois de um arranque de temporada dentro da normalidade, o primeiro choque apareceu em outubro com uma goleada humilhante às mãos do Bodø/Glimt na Liga Conferência — e Mourinho a justificar-se pela primeira vez com a ideia de que não tinha “um bom plantel”, algo que acabou por ser recorrente.

A lógica, aliás, repetiu-se logo em dezembro. A Roma perdeu com o Inter Milão por 3-0 e o treinador português não teve grandes pruridos: “O Inter é melhor do que a Roma em condições normais e, em condições não normais, é muito melhor”, vincou. Ainsley Maitland-Niles e Sérgio Oliveira chegaram em janeiro, mas os italianos não foram além do sexto lugar da Serie A e dos quartos de final da Taça de Itália. Na Europa, como tantas vezes, a história foi outra.

Ao eliminar o Leicester nas meias-finais, a Roma chegou à final da edição de estreia da Liga Conferência — a primeira final europeia do clube desde 1991. Em Tirana, com um golo solitário de Nicolò Zaniolo, os italianos derrotaram o Feyenoord e tornaram-se os primeiros vencedores do troféu, com José Mourinho a chegar ao quinto título europeu e a acumular registos históricos: foi apenas o terceiro treinador de sempre a ganhar as três competições europeias existentes, depois de Udo Lattek e Giovanni Trapattoni, e naturalmente o primeiro a juntar Liga dos Campeões, Liga Europa e Liga Conferência. Foi ainda o primeiro título da Roma em 11 anos, para além do primeiro título europeu de uma equipa italiana desde que o Inter Milão tinha sido campeão europeu em 2010.

O triunfo serviu para o treinador português completar a tatuagem, juntando o troféu da Liga Conferência aos da Liga dos Campeões e da Liga Europa que já tinha marcados no corpo, mas o verão (já conduzido por Tiago Pinto) foi contido em investimentos devido ao fairplay financeiro. Ainda assim, a Roma conseguiu garantir Andrea Belotti, Wijnaldum e Dybala, os dois últimos por empréstimo, para além de ter assegurado mais um reencontro de José Mourinho com Matic.

Depois de um arranque de temporada dentro da normalidade, o primeiro choque apareceu em outubro com uma goleada humilhante às mãos do Bodø/Glimt na Liga Conferência — e Mourinho a justificar-se pela primeira vez com a ideia de que não tinha "um bom plantel", algo que acabou por ser recorrente.

Apesar dos resultados positivos contra os principais rivais, como o Inter Milão ou a Juventus, a temporada foi inconsistente, azarada com lesões e cheia de sobressaltos. José Mourinho contrariou Tiago Pinto publicamente ao defender que a qualificação para a Liga dos Campeões através da Serie A era “mais do que um milagre” e entrou em rota de colisão com a cúpula do clube sobre investimentos, política de contratações e a ideia que tinham para o futuro.

“Podemos fazer história e continuar a querer fazer história, mas qualificarmo-nos para a Liga dos Campeões a gastar sete milhões de euros no mercado de transferências é mais do que história, é mais do que um milagre. É Jesus Cristo aparecer em Roma e dar um passeio pelo Vaticano. Tento sempre ser honesto, não gosto de vender ar quente. Seria irresponsável falar na Liga dos Campeões e nunca o fiz”, disse o treinador português na altura, revelando até que tinha decidido ficar na capital italiana apesar de ter sido abordado por Fernando Gomes na sequência da saída de Fernando Santos do comando da Seleção Nacional após o Mundial do Qatar.

“Fernando Gomes disse-me que não era a primeira escolha mas sim a única escolha”, revela José Mourinho sobre interesse da Seleção

“Hoje posso falar-vos de algo que provavelmente não vos vai interessar, mas aproveito esta oportunidade para agradecer ao presidente da Federação Portuguesa de Futebol, porque o que ele me disse deixa-me orgulhoso. O facto de ter dito que eu não fui a sua primeira escolha, mas sim a única escolha, deixa-me orgulhoso. Mas decidi não ir. Estou aqui e é isso que importa”, vincou, dias depois da apresentação de Roberto Martínez como novo selecionador nacional.

Ainda assim e tal como quase sempre na última década da sua carreira, Mourinho compensou as desilusões domésticas com a performance europeia. A Roma ficou no sexto lugar da Serie A e não conseguiu mesmo qualificar-se diretamente para a Liga dos Campeões, mas ultrapassou o Bayer Leverkusen de Xabi Alonso nas meias-finais da Liga Europa e chegou à final da competição — com o treinador português a alcançar duas finais europeias consecutivas pela segunda vez na carreira, depois da Taça UEFA de 2003 e da Liga dos Campeões de 2004 com o FC Porto.

▲ O último troféu da carreira do treinador foi já em 2022, quando conquistou a Liga Conferência com a Roma

UEFA via Getty Images

Em Budapeste, porém, nada correu como antigamente. Roma e Sevilha empataram ao fim de 90 minutos, continuaram empatados no fim do prolongamento e, na decisão por grandes penalidades, os espanhóis saíram por cima. José Mourinho perdeu a primeira final europeia da carreira, atirou a medalha de finalista vencido para a bancada da Puskás Arena e protagonizou uma conferência de imprensa explosiva em que a criticou a arbitragem, a estrutura dos italianos e o próprio plantel.

Mais uma vez e pela terceira consecutiva, a terceira temporada culminou num despedimento quase inevitável. Depois de um mercado de transferências novamente muito curto e novamente devido às regras do fairplay financeiro, onde só chegaram jogadores por empréstimo ou através de transferências sem custos, a Roma chegou a janeiro de 2024 em nono lugar da Serie A: cinco pontos atrás da zona de qualificação para a Liga dos Campeões e já eliminada da Taça de Itália. Mourinho saiu e seguiu-se Daniele De Rossi, mas não sem o treinador português dizer tudo o que pensava.

“Agradecemos ao José mas é necessária uma mudança imediata”: Roma despede Mourinho após nova derrota na Serie A

“Foi o despedimento que me custou mais. Dei tudo, dei o meu coração. Tomei opções que talvez não tenham sido inteligentes de um ponto de vista profissional, recusei enormes propostas. A primeira foi difícil de recusar, porque vinha de Portugal, a outra era da Arábia Saudita e era uma oferta gigantesca. Normalmente sou pragmático nas minhas escolhas e tento controlar as emoções, mas nesta situação decidi ouvir as minhas emoções. Doeu muito, quando fui despedido”, explicou, garantindo que tinha como objetivo chegar à terceira final europeia seguida, já que ainda estava na Liga Europa. A Roma acabou por cair nas meias-finais com o Bayer Leverkusen, que perdeu a final para a Atalanta.

Fenerbahçe. O fim mais irónico que abriu a porta ao novo capítulo

Mais uma vez, José Mourinho não quis ficar muito tempo parado. Em junho de 2024, apenas seis meses depois de deixar a Roma, foi anunciado como o substituto de Ismail Kartal no Fenerbahçe. Depois de Portugal, Inglaterra, Espanha e Itália, o treinador português chegava à Turquia com o objetivo de contrariar a hegemonia do Galatasaray e levar o clube de volta à Liga dos Campeões.

Depois de um mercado de transferências novamente muito curto e novamente devido às regras do fairplay financeiro, onde só chegaram jogadores por empréstimo ou através de transferências sem custos, a Roma chegou a janeiro de 2024 em nono lugar da Serie A: cinco pontos atrás da zona de qualificação para a Liga dos Campeões e já eliminada da Taça de Itália.

A ideia de que Mourinho estava a ter dificuldades a adaptar-se ao futebol moderno, porém, tornou-se cada vez mais evidente. Se nunca foi um fã do jogo posicional de Pep Guardiola, Mikel Arteta ou Roberto De Zerbi, a verdade é que ainda explorou soluções alternativas — como a linha defensiva a três elementos que usou na Roma. Mas nunca encaixou verdadeiramente num universo que parece ter acelerado demasiado depressa.

“Há uns anos só tínhamos o preparador físico. Agora temos o treinador de performance, o treinador de recuperação, o treinador individual e o treinador de prevenção. É uma loucura. Levou o nosso trabalho para uma dimensão inacreditável. Temos de lidar com tantas pessoas, com tantas personalidades, com tantos egos. E também temos de assimilar muito mais informação. Tento selecionar a informação mais importante, porque acho simplesmente impossível lidar com tudo”, chegou a dizer.

José Mourinho de saída do Fenerbahçe após falhar apuramento para a Liga dos Campeões

Em Istambul, ainda que os contornos e as expectativas fossem distintas, o filme repetiu-se. Mourinho criticou as arbitragens, criticou a falta de investimento do Fenerbahçe, criticou o plantel curto que sempre teve e entrou em rota de colisão com dirigentes, responsáveis da Federação Turca de Futebol, adeptos adversários e até os próprios adeptos. Ficou no segundo lugar do Campeonato a 11 pontos do Galatasaray, caiu nos oitavos de final da Liga Europa e não foi além dos quartos de final da Taça da Turquia.

Apesar de muitos rumores que davam conta de uma saída durante o verão — muito alimentada também pela possibilidade de Roberto Martínez sair da Seleção Nacional, algo que não aconteceu na sequência da conquista da Liga das Nações –, o treinador português ficou na Turquia e começou a preparar a nova temporada. Com as farpas sempre recorrentes e constantes ao que via como fraco investimento do Fenerbahçe no mercado de transferências, tinha como primeiro objetivo o regresso à fase de liga da Liga dos Campeões. E falhou.

▲ Mourinho foi recebido em êxtase em Istambul, mas a passagem pelo Fenerbahçe não durou muito mais do que um ano

dia images via Getty Images

Depois de um empate a zeros em Istambul, onde os turcos até acabaram o jogo em superioridade numérica, o Benfica venceu na Luz e ganhou o playoff — com um golo irónico de Aktürkoğlu, que dias depois estava a caminho da Turquia para reforçar o Fenerbahçe. Foi o fim da linha para José Mourinho. Pouco mais de um ano depois de ter chegado, voltou a ser despedido e saiu novamente de um clube sem qualquer troféu conquistado.

Em resumo, o treinador português foi despedido cinco vezes na última década, somando indemnizações que já ascendem aos 100 milhões de euros se incluirmos a do Real Madrid e a da primeira passagem pelo Chelsea. José Mourinho não conquista qualquer troféu desde a Liga Conferência de 2022, com a Roma, e não é campeão nacional há dez anos, desde que ganhou a Premier League com o Chelsea em 2014/15.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.