Pelo menos oito crianças e três adultos morreram num ataque com drone que atingiu, no sábado, uma festa de aniversário na favela de Cité Soleil, nos arredores da capital do Haiti. A informação foi noticiada pela agência Reuters e confirmada pela Rede Nacional de Defesa dos Direitos Humanos do país, que responsabilizou o Governo pelo incidente. Em causa está a estratégia adotada pelo executivo na qual contrata empresas militares estrangeiras para operar drones contra os gangues que controlam grande parte de Porto Príncipe, a capital.
Segundo Pierre Espérance, diretor executivo da Rede Nacional de Defesa dos Direitos Humanos, o alvo — que não foi atingido — era Albert Steevenson, conhecido como Djouma, líder de um dos gangues mais influentes do Haiti, que celebrava o seu aniversário e distribuía presentes a cerca de 200 crianças da comunidade. “O primeiro drone matou oito crianças e três adultos, incluíndo uma mulher grávida. Outras seis crianças ficaram feridas, todas civis”, disse Espérance, acrescentando que houve ainda um outro lançamento de drone que caiu nas imediações da sede do gangue, matando quatro homens e ferindo outros sete.
“As pessoas corriam de um lado para o outro”, contou Michelin Florville, de 60 anos, à agência Associated Press, sublinhando que perdeu dois netos, de três e sete anos, e o filho de 32. Por seu lado, Nanouse Mertelia, de 37 anos, recordou que encontrou o filho gravemente ferido. “Disse-me: ‘vem buscar-me, por favor, mamã’. Mas perdeu demasiado sangue. Quando chegámos ao hospital, já estava morto”.
O ataque foi condenado pelos líderes dos gangues haitianos, que acusaram diretamente o Governo pelo incidente. Jimmy Chérizier, conhecido como Barbecue e chefe da coligação criminosa Viv Ansanm, afirmou que “nenhuma pessoa armada morreu, mas muitas pessoas civis são vítimas. O Governo de Fils-Aimé [primeiro-ministro] continua a massacrar o povo nos bairros populares”.
A polícia nacional recusou fazer comentários sobre este caso, assim como o gabinete do primeiro-ministro, que justificou o silêncio com a existência de uma investigação em curso. A falta de explicações por parte do chefe do Governo do Haiti gerou críticas.
Romain Le Cour, responsável pelo Haiti Observatory da Global Initiative Against Transnational Organized Crime, questionou: “Quem, afinal, responde por este ataque? O primeiro-ministro? O conselho presidencial de transição? As empresas privadas de segurança? A direção da polícia nacional do Haiti?”. Para o analista, citado pela Associated Press, a ausência de responsabilização “apenas reforça a narrativa antigovernamental dos gangues, aprofunda a desconfiança da população e acelera a erosão da legitimidade estatal”.
Este incidente não está isolado. Em junho, duas pessoas morreram em ataques semelhantes. Em agosto, dois polícias foram mortos por engano e já no dia 6 de setembro, 11 pessoas perderam a vida no centro de Porto Príncipe, também vítimas de drones.
O recurso a drones foi decidido pelo Governo em março, numa altura em que o Haiti (o país considerado mais pobre do continente americano) enfrentava níveis inéditos de violência. As autoridades apostaram na parceria com empresas privadas para conter gangues que controlam cerca de 90% da capital, cercam bairros, atacam hospitais, esquadras e ocupam estradas estratégicas. Desde o assassinato do Presidente Jovenel Moïse, em 2021, a situação degradou-se ao ponto de quase 1,3 milhões de pessoas terem sido deslocadas das suas casas e cerca de 4.000 foram assassinadas apenas na primeira metade de 2024.
Para evitar a utilização de drones (missão liderada pelo Quénia) no combate à criminalidade no Haiti, os Estados Unidos e o Panamá propuseram ao Conselho de Segurança das Nações Unidas a criação de uma força de combate aos gangues com pelo menos 5.500 efetivos. “A missão [que utiliza drones] não dispõe dos recursos necessários para lidar com a dimensão crescente do desafio“, afirmou, em Nova Iorque, Christopher Landau, vice-secretário de Estado norte-americano, após ter-se reunido com o Presidente queniano.
Mais de 50 mil deslocados no espaço de duas semanas no centro do Haiti
O Conselho de Segurança da ONU deverá votar esta proposta nos próximos dias, mas Rússia e China, que têm poder de veto, já manifestaram reservas em relação à proposta.