Os lados pró-União Europeia (UE) e pró-Rússia trocaram este domingo acusações de manipulação e tentativa de sabotagem das eleições legislativas da Moldávia, consideradas decisivas para o futuro do país,. Entretanto, foram já registados incidentes nas secções de voto no estrangeiro, nomeadamente várias ameaças de bomba em países europeus. Na Bélgica, a embaixada da Moldávia em Bruxelas foi mesmo evacuada.

Governo e UE denunciam uma “profunda ingerência” de Moscovo, que nega as acusações, enquanto o bloco que apoia uma aproximação à Rússia adverte contra tentativas de fraude dos resultados eleitorais e interferência do Ocidente, numa eleição que decorre sob alta tensão e com resultado incerto.

O líder socialista e um dos cofundadores do Bloco Eleitoral Patriótico (oposição), Igor Dodon, votou nas eleições legislativas pelo “regresso à normalidade” e contra “o medo, que se tornou a norma”.

Dodon, que foi Presidente da Moldávia entre 2016 e 2020 e defende uma aproximação a Moscovo, acredita que a vitória da oposição é “óbvia” e pediu que não se permita que as autoridades anulem as eleições se o resultado não lhes for conveniente. Questionado sobre as alegações de ingerência russa nas eleições, Dodon disse que “a interferência foi por parte do Ocidente”.

Por seu lado, a atual Presidente, Maia Sandu — cujo Partido Ação e Solidariedade (PAS) lidera as sondagens, mas que perdeu terreno desde a vitória esmagadora em 2021 — alertou para a “interferência maciça da Rússia” após a votação, dizendo que a Moldávia está “em perigo”.

Ameaças de bomba em várias secções de voto na Europa

Maia Sandu denunciou “centenas de milhões de euros” gastos por Moscovo para comprar votos, orquestrar campanhas de desinformação online e organizar a violência. Este domingo, dia de eleições legislativas, o governo moldavo relatou já vários incidentes em secções de voto em vários países, relacionando-os com a alegada interferência russa. Foram relatadas ameaças de bomba em secções de voto na Bélgica, Itália, Roménia, Espanha e EUA, avançou o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Moldávia, naquilo que as autoridades descreveram como “um ataque da Federação Russa ao processo eleitoral”.

“As instituições estatais estavam preparadas para este cenário, estabelecemos procedimentos claros e estamos a cooperar com os nossos parceiros noutros países para garantir que o processo eleitoral não seja afetado. Instamos todos os cidadãos (na diáspora) a seguir as recomendações das autoridades, confiar em informações oficiais e continuar a votar”, disse o governo moldavo.

Em Bruxelas, na Bélgica, onde reside uma grande comunidade moldava, eleitores e autoridades foram retirados à pressa da embaixada, no centro da cidade, este domingo, após relatos de que haveria uma bomba no prédio — relatos que, depois, se provaram serem falsos, escreve o Politico. “Estas são as mesmas táticas sobre as quais alertámos”, disse um dos funcionários da embaixada, referindo-se às tentativas de interferência da Rússia no processo eleitoral. Em Elche, no sul de Espanha, a polícia fechou uma das principais vias de acesso a Alicante, após ter recebido uma ameaça anónima referindo a existência de uma bomba na secção de voto para as eleições legislativa da Moldávia no domingo. A ameaça era falsa.

Foram registadas falsas ameaças de bomba em Roma e Génova (Itália), Bucareste (na Roménia) e Asheville (no estado norte-americano da Carolina do Norte).

No mês passado, o Conselheiro de Segurança Nacional da Moldávia, Stanislav Secrieru, alertou que Moscovo tentaria intimidar os eleitores da diáspora — a maioria dos quais alinhada com o bloco pró-europeu e defensor da entrada da Moldávia na União Europeia.

As autoridades moldavas bloquearam ainda uma série de ataques cibernéticos direcionados à infraestrutura eleitoral do país. Os alvos dos ataques incluíram o site da Comissão Eleitoral Central da Moldávia, sistemas de serviços em nuvem do governo e sistemas de automação de processos, bem como algumas estações de votação no exterior, de acordo com o Serviço de Tecnologia da Informação e Segurança Cibernética. Este organismo garantiu, no entanto, que “todos os ataques foram detetados e neutralizados em tempo real, sem afetar a disponibilidade ou a integridade dos serviços eleitorais”.

“A nossa força reside num voto justo”, diz primeiro-ministro moldavo

Já o primeiro-ministro moldavo, Dorin Recean, também do PAS, encorajou os seus compatriotas a votarem: “Não haverá segunda volta, por isso é tão importante votar hoje” para “proteger a paz e a soberania”. “Ninguém, por mais poderoso que seja, pode trair o nosso país se todos nós aparecermos e votarmos com disciplina. A nossa força reside num voto justo”, defendeu, destacando o trabalho das forças de segurança para evitar tentativas de sabotagem das eleições.

Segundo Igor Botan, diretor do ‘think tank’ moldavo Adept, a Moldávia “nunca viu tal nível (de interferência estrangeira) numa campanha eleitoral” desde a sua independência em 1991.

Desde 1 de agosto, a polícia moldava realizou mais de 600 buscas relacionadas com tentativas de desestabilização, segundo o Governo, e dezenas de pessoas foram presas. O serviço de cibersegurança da Moldova informou que detetou várias tentativas de ataques à infraestrutura eleitoral, “neutralizados em tempo real, sem afetar a disponibilidade ou integridade dos serviços eleitorais”. Moscovo tem negado qualquer forma de interferência.

Com 2,4 milhões de habitantes, a Moldova tem enfrentado várias crises desde a invasão russa à vizinha Ucrânia, em 2022, pondo em risco o Governo pró-europeu de Chisinau, que considera a adesão ao bloco europeu como crucial para se libertar da esfera de influência de Moscovo.

Nestas eleições, com um terço dos votantes indecisos, o voto dos pelo menos 1,2 milhões de emigrantes concentra especial atenção: contribuíram para a reeleição de Maia Sandu, são tradicionalmente pró-UE e o seu voto não está refletido nas sondagens.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros moldavo relatou uma votação em massa na diáspora. “Hoje, milhares de cidadãos da República da Moldova exercem o seu direito de voto no estrangeiro, demonstrando mais uma vez a força e a unidade da nossa diáspora”, disse, em comunicado. De acordo com Chisinau, longas filas de eleitores foram relatadas em cidades como Lisboa, Bucareste, Atenas, Praga, Roma, Nuremberga e Telavive.

Por outro lado, também a votação na região separatista da Transnístria, que se inclina a favor da Rússia, será particularmente observada.

Às 12h00 em Lisboa, a participação era de pouco mais de 30%. Nas últimas eleições legislativas, em 2021, a participação final foi de 52,3%. Cerca de 20 partidos e candidatos independentes concorrem a 101 lugares no parlamento, mas analistas não excluem uma assembleia fragmentada, sinónimo de instabilidade.

Em 2021, o PAS venceu com 52,8% dos votos contra 27,2% do Bloco Socialista e Comunista.