A União Europeia (UE) está a ser “consistentemente atingida” por ameaças informáticas, revela o relatório anual da Agência da União Europeia para a Cibersegurança (ENISA), divulgado esta quarta-feira. A agência sediada em Atenas analisou 4.875 incidentes de segurança ocorridos em Estados-membros entre 1 de julho de 2024 e 30 de junho de 2025.

Na análise geral, o relatório determina que os grupos responsáveis por ameaças estão a “reutilizar ferramentas e técnicas”, mas também a trabalhar “em novos modelos de ataques” e até a “colaborar para atingir a segurança e resiliência da infraestrutura digital da UE”.

Porém, na análise às motivações destes incidentes, a ENISA conclui que os fins financeiros não eram o principal “porquê” para explicar os ataques. No panorama de objetivos, as motivações financeiras valiam 13,4%, com a autoria a cargo “de operadores cibercriminosos, enquanto alguns casos estavam associados a grupos de hacktivismo”, ou seja, um tipo de hacking que está ligado a ativismo. Também foram detetados casos com motivações financeiras feitas por grupos ligados a determinados Estados. A grande maioria dos incidentes (79,4%) era justificada por motivações ligadas a ideologia, ainda que a agência não apresente mais exemplos. A ENISA refere apenas que estes incidentes dizem respeito a “campanhas de baixo impacto com ataques de denial-of-service”, que deixam “sites de organizações” inacessíveis. Os casos de ciberespionagem representam apenas 7,2% das motivações.

O ransomware, um tipo de ataque em que os sistemas e dados das empresas são como que “sequestrados”, sendo exigido um resgate para que sejam recuperados, é identificado como “a ameaça mais significativa na União Europeia”.

Medusa, o grupo de “snipers” do cibercrime que escolhe a dedo as empresas a atacar, já fez uma vítima em Portugal

O relatório também estabelece os setores que mais vezes são alvo de incidentes de cibersegurança. A administração pública é o setor mais apetecível, sendo o “foco principal em 38%” dos incidentes, até pelo impacto que pode ter. É um aumento significativo em relação ao peso de 19% no relatório de 2024.

Os Estados-membros que mais sofreram com o impacto de incidentes contra os serviços públicos foram França (27%), Itália (26,3%), Alemanha (16,2%), Espanha (15,3%) e Polónia (15,1%). A agência europeia detalha que a administração pública “é o foco de intrusões de hacktivismo” e de “grupos ligados a Estados”. A ENISA relata que foram detetados 77 destes incidentes contra a administração pública, em alguns casos feitos por grupos ligados à China — dá como exemplos o APT31, Mustang Panda ou APT17 — ou à Rússia e à Índia.

Os transportes foram o segundo setor mais afetado (7,5%), seguido pelas infraestruturas e serviços digitais (4,8%), setor financeiro (4,5%) e indústria (2,9%).

Para haver um incidente que resulte numa intrusão em sistemas, tem de existir um vetor de ataque, uma estratégia. A ENISA detalha que o phishing, em que alguém se faz passar por uma entidade legítima para obter informações, é a estratégia mais usada para intrusões (60%), seguida pela exploração de vulnerabilidades (21,3%).