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No rescaldo do desfile, todos queriam cumprimentar o designer. Enquanto falava com o Obsevador, Nuno Baltazar interrompeu a entrevista: “Aquela é uma das minhas inspirações. Eu tenho que lhe dar um beijo”, justificou, ao direcionar-se diretamente a Gaya de Medeiros. A bailarina estava no texto de introdução à coleção com as personagens de inspiração, entre nomes como Virginia Woolf, Helena Vaz Pereira, Carrie Bradshaw, Amália Rodrigues ou Dalila Carmo. “É uma artista de várias valências porque é coreógrafa e bailarina, fez cinema. A Gaya é uma mulher muito especial, muito inspiradora, com uma cabeça super interessante. A forma como ela vê o mundo, como se desafia, a mim inspira-me imenso”, diz-nos Nuno Baltazar, depois do abraço emocionado à amiga, que viu pela primeira vez um desfile do designer e não sabia da homenagem antecipadamente. “Fiquei super inspirada, agora os meus espetáculos vão ter moda”, elogiou a artista, ao sair do MUDE na tarde deste domingo, 5 de outubro, onde o designer deu o arranque para o último dia de ModaLisboa.
▲ Nuno Baltazar abriu os trabalhos este domingo, ao apresentar a sua coleção no terraço do MUDE
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
Em março Nuno Baltazar regressou ao cartaz da semana da moda de Lisboa com uma coleção em tons mais escuros e um desfile em tom de manifesto, com modelos ucranianas a “denunciar” a guerra. Agora, o designer apresenta um conjunto de peças com muito mais cor, num cenário ensolarado no terraço do MUDE, mas que, garante, também traz mensagens políticas e sociais, só que “mais subtis”. “Por exemplo, a Gaya é uma mulher trans e para mim é absolutamente fundamental que as pessoas sejam aquilo que quiserem para a verdade delas. E esta aproximação é uma coisa muito humana, que para mim é fundamental e a mim interessa-me particularmente a inteligência emocional, e afastar-me ao máximo da inteligência artificial. E, portanto, essa dialética não era tão evidente, não era tão óbvia como na última coleção. De maneira propositada, porque as coisas também evoluem e eu queria outra coisa. Em março era inverno, esta é verão e a forma de nós nos manifestarmos, de tentarmos deixar uma pegada no mundo, pode ter múltiplas formas e esta foi uma delas.”
Sob o sol quente das 15h no cenário ao ar livre, que Baltazar assume ter sido um “grande desafio” do qual “morria de medo” pelo risco de o tempo não ajudar, o público assistiu ao desfile da parte II de Intermission (a primeira parte foi apresentada na edição passada, em março). “Era uma coleção triste no sentido em que o mundo era aquilo que me estava a fazer sentir, e continua, em certa medida. Mas a forma como nós as vezes reagimos a essa adversidade pode ser diferente, não é? Às vezes deixamo-nos engolir, outras vezes reagimos e damos cor. E aqui foi, de facto, um outro lado do espelho ou do disco. Efetivamente, ninguém é só uma coisa”, afirma o designer, que foi buscar referências e peças de coleções anteriores — como os vestidos de lantejoulas, os brocados, e as silhuetas tão femininas e marcadas, assim como os fatos bem cortados e ajustados em tons como o rosa, o azul e o laranja.
Mas havia também três peças daquele que Baltazar considera o seu “melhor amigo” no universo da moda: Dino Alves. “Estava a coordenar o desfile e senti que havia três peças que me faltavam e sabia que aquelas peças não eram minhas. Eram do Dino. Eu tinha outras, mas não as quis pôr e pensei o que é que as minhas personagens pensariam? Ligariam a uma personagem do Dino e pediam essas peças emprestadas. E foi o que eu fiz”, conta. “É uma pessoa muito especial, muito generosa, com quem eu aprendo muito e ensino e cruzamos sempre muita coisa. Nós passámos esta noite inteira a falar ao telefone. É uma coisa mesmo muito bonita. Eu falo disso porque eu acho que os bons exemplos também devem ser partilhados. E realmente a nossa amizade é mesmo!” Mais tarde, ao Observador, Dino Alves confirmou a chamada e a partilha com o amigo. “Além de sermos colegas, somos amigos. Falamos muito por telemóvel e ontem eram seis horas. Estava a acabar as coisas dele no Porto e eu estava aqui também. Ele disse-me: ‘Estou aqui um bocadinho aflito, faltam-me aqui umas coisas, umas peças para completar uns looks’, e eu disse: ‘Eu tenho aqui essas peças’. Ele já me ajudou muito com coisas que precisei”, diz o criador.
Crítico da “indústria” e defensor da moda de autor, Nuno Baltazar apoia-se na reutilização das peças de outras temporadas como prova de que é possível lançar novas coleções sem necessariamente apelar ao consumo desenfreado. “Acho que é fundamental também falar sobre isso. Essa questão da sustentabilidade e a reinterpretação. É quase como se cada peça minha fosse um ator, que pode estar em diferentes histórias, ela não perde a validade porque aquela história de alguma maneira ficou engavetada numa estação. Ela tem autenticidade, tem uma personalidade própria e pode conviver com outras histórias e com outras peças. E eu acho que isso é uma coisa muito divertida, que é uma proposta que eu faço também às pessoas que usam moda de autor, que se divirtam de uma maneira mais emocional, porque se é mais emocional, é mais verdadeira e menos frenética na compra.”
Sempre direto nas suas manifestações, Nuno Baltazar também reagiu ao tema Gaza — um dia depois das manifestações em solidariedade aos integrantes portugueses da flotilha que foram presos por Israel (e que entretanto já aterraram em Lisboa). “Acho uma vergonha a forma como a grande maioria ou uma parte muito visível dos portugueses manifesta-se nas redes sociais sem qualquer tipo de empatia por portugueses que estão detidos em Israel, nem sabemos em que condições. Condicionam a sua empatia pela simpatia e isso é uma coisa completamente errada. Eu não concordo com nada do André Ventura, mas não quero que ele morra. Muito pelo contrário, gostava que ele se tornasse uma pessoa melhor. Ele e outros.”
Pátio da Galé recebeu Dino Alves, Duartehajime e Valentim Quaresma
Algumas horas depois, Nuno Baltazar sentou-se na primeira fila no Pátio da Galé para aplaudir o amigo Dino Alves, que apresentou a sua coleção “Mais Além”. Com drapeados, godés, efeito crinolina e os contrastes entre peças oversized e justas em tons que vão do preto ao pérola passando por amarelo limão, laranja, rosa e azul escuro, o designer diz arriscar “pensar sem fronteiras” numa coleção na qual mantém evidente a sua identidade, ao usar a transparência das redes e do crepe, e a combinação de cores fortes e padrões, entre xadrezes, manchados e às riscas. “De facto houve um risco. Há peças muito minimais. E quando eu digo ir mais além, as pessoas encaram que são peças mais elaboradas, mas não. É serem exatamente mais depuradas, mais simplificadas. E se pensarmos bem, no meu caso, que sempre fiz coisas muito espampanantes, realmente o ir mais além é simplificar e depurar”, diz o designer. O desfile chegou ao público na Praça do Comércio, onde um grande ecrã exibiu tudo o que se passava dentro do evento.
Antes, na mesma passarelle, desfilou Medusa — que já não é temida, antes celebrada. Ou por outras palavras, como se lê nas costas de uma das peças, “Let Them Look”. Para Duartehajime, Ana Duarte reimagina o mito grego, entre o verde que acrescenta mistério, a vulnerabilidade trazida pela lavanda, e ainda o dourado que acentua o amor de Atena. Dá-nos asas gregas, antes de mais, tanto nas laterais de calças, casacos e até nas botas, como na grande novidade da coleção, protagonizada pelo cabedal. Peças que aqui se enchem de zippers que ora abertos ora fechados constroem e desconstroem o resultado final. O biker de agora pode ser o colete de mais logo, porque a vida é mesmo assim, enquanto a saia vira micro num piscar de olhos, e as sweats aderem ao efeito crop. De resto, Duartehajime mantém-se fiel ao estampado único e ao streetwear cool, sem sobressaltos de maior.
Com Valentim Quaresma, o habitual cruzamento entre moda e arte, e o habitual predomínio do negro. E também aqui a imagem e presença física do fecho éclair se impõe, mais do que mero detalhe funcional, prevalecendo antes como apontamento de joalharia e assumindo mesmo a estrutura de cada look. Assumidamente abertos ou em efeito simulado que dececiona o olho, revelam-se nos vestidos, dão forma às assimetrias, disciplinam o rosto e a cabeça, e junto ao pescoço tanto apelam à rigidez e austeridade como a uma torrente de expressão.
O manifesto de Luís Carvalho
Logo no arranque desta edição Luís Carvalho já foi destaque, ao apresentar duas coleções cápsula com reaproveitamento de materiais no âmbito do projeto Beat by Be@t. Dentro do Pátio da Galé, o designer tinha uma peça em exposição: o vestido que criou com lenços palestinianos para Marisa Liz usar no palco do The Voice — com um convite para que os interessados contribuam com a Médicos Sem Fronteiras, instituição que atua na Faixa de Gaza. E na passarelle, ganhou posição de prestígio ao fechar a semana da moda da capital. O ainda jovem mas já bastante celebrado designer teve, como de costume, a presença de muitas figuras públicas que usam as suas criações em red carpets, programas de televisão e eventos públicos no geral — mas também estudantes de moda, outros designers e jornalistas internacionais, curiosos para ver as novidades.
▲ A coleção de Luís Carvalho é um manifesto pela união
Ugo Camera
Em “Union”, Luís Carvalho usa pregas e nervuras torcidas para dar forma às peças e representar a ligação. Com contrastes entre o mate e o brilhante, cetins, jacquards e tecidos estruturados em sarja de algodão, a paleta circula entre o verde, o amarelo mostarda, o roxo e o azul-petróleo. Os seus famosos fatos oversized ganham textura com fitas em cetim e franjas e as peças sem género são propostas em looks de homem e mulher. Mas há também mais espaço para vestidos, com formas mais femininas e estruturadas. O designer aposta ainda em sustentabilidade, sendo que mais de 80% dos materiais utilizados são provenientes de deadstocks ou de fibras recicladas.
Ao Observador, o criador diz que o tema tem o intuito de “chamar a atenção para o que se passa à nossa volta. Cada vez temos um mundo mais dividido e com mais preconceito. Portanto, aqui esta coleção é quase um pedido: ‘Vamos acabar com as guerras, vamos nos unir, vamos acabar com o preconceito, com a xenofobia, com a homofobia'”, apela Luís Carvalho, que diz transmitir esta mensagem através das fitas e fios que atravessam todas as peças. “Foi uma coleção muito trabalhosa, mas também ao mesmo tempo, deu-me muito gozo porque foi interessante trabalhar com uma nova perspetiva, que eu não costumo ter no meu trabalho”, diz o designer.
Paralelamente ao trabalho na nova coleção, Luís Carvalho prepara-se para fazer o figurino de uma peça de teatro no Porto, e destaca o programa Be@t, com soluções de sustentabilidade. “O projeto projeto correu tão bem, ficou tão bonito, que seria interessante que ele continuasse e que pudéssemos vender o que produzimos”. Ao mesmo tempo, o designer quer continuar a ser uma voz ativa dentro da moda para questões sociais e políticas. “Somos artistas e conseguimos chegar a um público. Acho cada vez mais importante. Se todos fizermos um bocado, certamente faremos alguma diferença. Portanto, é chamar a atenção a estes assuntos”.