A inspiração na mulher urbana e citadina voltou à passarelle da 64ª edição da ModaLisboa, que se realizou entre os dias 7 e 9 de março no Pátio da Galé. A RushHour foi o mote da coleção de Luís Carvalho, que com consistência apresentou a tendência da corporate core revisitada. “Tenho uma imagem muito forte na minha cabeça, dos filmes dos anos 90, dos escritórios em Nova Iorque e todos a correr de um lado para o outro e era isto que tinha na cabeça quando comecei a criar a coleção”, diz o designer, que assume como desafiador o trabalho de reinventar o office core. “Com esta tendência o que é que eu posso fazer que seja realmente diferenciador? Foi daí que veio a maneira como eu trabalhei os fatos, desconstruir um bocadinho a silhueta, as mangas, os cortes dos casacos, dos vestidos”, explica Luís Carvalho.
▲ Luís Carvalho apresentou Rush Hour, uma coleção consistente e que volta a marcar pelos fatos oversized
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
A inovação também vem nos tecidos. “Os vestidos mais fluídos para dar esta questão do movimento, e depois os cortes nos fatos e em alguns vestidos, tudo a pensar nesta azáfama que se vive”, diz, explicando que “os materiais acabaram por ajudar. O uso de padrões e brocados também afirma que servem para “enriquecer a coleção em termos visuais. O zebra é um padrão que eu achei que fazia sentido, lembra um pouco os anos 90. Depois os brocados, que eu já costumo utilizar para enriquecer a coleção. Porque os outros eram muito básicos em termos de brilho.” Sobre as cores, viu-se os tradicionais pretos e castanhos do outono/inverno, mas também o verde ácido ou as peças cinzentas e off white. “Gosto muito de usar o branco no inverno e as pessoas associam ao verão. Acho que o interessante é revolucionar um pouquinho isso de ser muito dark e pesado”. Novidades que Luís Carvalho apresenta sem, é claro, perder a sua essência — a coleção é cheia de fatos oversized, tecidos estruturados e peças sem género. “Desenho fatos ou peças ou looks sem pensar se vou colocar com homem ou mulher e depois decido, quando estou a pensar na história da coleção”, diz o criador.
Os fatos também estiveram presentes na coleção Back to Work de Gonçalo Peixoto, que seguiu a tendência com um toque jovem e sexy, tradicionais do criador. Foi provavelmente o desfile que mais filas fez à porta e a maior concentração de influenciadoras digitais por metro quadrado. Ao Observador o designer não esconde o foco no lado comercial e destaca que se inspira naquilo que as clientes querem. “Nós precisamos pegar no workwear, aquilo que já é o regresso ao escritório, mas torná-lo cool, comercial. Questionar como é que conseguimos pôr isto a vender, que materiais podem ser usados, este é o maior desafio sempre, a parte comercial da dinâmica”.
▲ Gonçalo Peixoto também trouxe o office core para a passarelle da ModaLisboa
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Quem também parece inspirado pelo fervilhar urbano é Carlos Gil, que abriu a passarelle no sábado com o Match perfeito entre o extravagantes e o clássico. “Esta coleção vai procurar o padrão muito exagerado, forte, com muita cor e muito complexo mas que vai buscar o equilíbrio que eu tanto procuro dar através da cor, através do corte, muito minimalismo na imagem. Então contrapõe-se aqui o maximalismo com o minimalismo”, disse ao Observador o criador de moda, que apresentou muitos powersuits e casacos clássicos combinados com franjas, plumas e um estampado com inspiração arquitetónica. “Sou um homem do mundo, adoro viajar e a minha paixão é a arquitetura. Daí eu gostar tanto de fazer casacos, blazers, calças e camisas, porque a modelagem é pura arquitetura da moda. E viajar dá-me conhecimento. Ver a grandiosidade das cidades e a envolvência que todas elas me trazem é fantástico. E eu tentei transmitir isso no padrão: vários blocos que se unem, uns grandes, uns pequenos, linhas que são estradas, está tudo ali”, explica o designer.
Numa coleção que se transporta facilmente para as ruas, ao longo do desfile os looks pareciam contar a história de uma grande cidade. Mulheres (e homens) executivas num dia de trabalho, em saltos altos e coordenados perfeitamente alinhados, e que ao mesmo tempo apresentavam-se em chinelos estilo pantufas, confortáveis mas não menos glamurosos. “Tenho muitas clientes que vão de stilettos trabalhar mas chegam ao carro e metem o chinelo. E isto é uma imagem que não é minha, é delas todas. Porque na realidade é isto que acontece. E eu transportei isso também para a coleção”. A assistir na primeira fila estavam algumas das figuras públicas que acompanham e vestem Carlos Gil há anos. Fernanda Serrano, Bárbara Guimarães ou Lili Caneças, por exemplo. “Sou um privilegiado. As pessoas não vêm ver só a minha coleção, vêm porque gostam de mim. E depois é óbvio que se encantam pelas minhas roupas porque gostam como eu as visto”. Nos poucos minutos que teve para confraternizar com os amigos, já descobriu quais foram as peças preferidas. “A maioria das cliente gostam do fato ou do casacão.”
▲ Carlos Gil cumprimenta Lili Caneças no final do desfile
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Convidados ilustres
No meio da tempestade — literal e figurada — Carlos Moedas chegou à ModaLisboa com um fato italiano e meias cor de laranja. “O meu blazer é de uma marca italiana que eu gosto muito, de uma loja em Roma que conheço muito bem, gosto muito de ir lá. Depois, no resto, estou normalíssimo. Tenho umas meias cor de laranja que eu gosto imenso“, diz o Presidente da Câmara de Lisboa. Presença certa na semana da moda, o autarca escolheu o desfile de Carlos Gil, o primeiro da tarde de sábado, para visitar o evento. “A ModaLisboa é parte da identidade da nossa cidade. É uma aposta de sempre da câmara municipal de Lisboa, mas é sobretudo aquilo que eu mais acredito que é a diversidade, a cidade aberta, a cidade em que cada um é aquilo que quer ser, e a moda representa isso, representa essa identidade de cada um, aquilo que nós somos, aquilo que fazemos”, disse ao Observador. Ao lado da Presidente da Associação ModaLisboa, aproveitou para elogiar a organização do evento. “Acho que a Eduarda Abbondanza é uma mulher absolutamente incrível, com uma coragem única, que tem conseguido durante esses anos, muitas vezes com grande dificuldades, mas ela consegue sempre. Estou aqui humildemente ao lado dela a fazer o melhor que posso.”
▲ Carlos Moedas com Eduarda Abbondanza
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Vai a praticamente todos os desfiles, nos três dias, e senta-se sempre na fila da frente. Aplaude de pé os criadores, dedicando-lhes acenos e até soprando beijos aos mais próximos. Entre uma coleção e outra, socializa na área central do Pátio da Galé e até foi tomar café à sala de imprensa. Se há pelo menos um ponto em comum entre todas as 64 edições da ModaLisboa, é a presença de Lili Caneças. Ao lado de personalidades da televisão ou influenciadores populares nas redes sociais, não há ninguém mais consensual do que ela. A meio da conversa com o Observador, ouvimos os gritos de “Lili” vindos do fundo da bancada. “Os miúdos adoram-me, é giro como eu sou uma inspiração para os miúdos. Dizem que quando forem mais velhos querem ser como a Lili”, conta-nos, com o sorriso de sempre, impecavelmente maquilhada e vestida. “A indústria têxtil em Portugal sempre foi fantástica, de grande qualidade, vendia para o mundo inteiro, só que não tinha grandes estilistas. Depois começou a Ana Salazar e com ela tudo mudou. Teve a primeira loja em Paris, foi a primeira estilista, e começaram a perceber que não era só a nossa industria têxtil mas os nossos designers que também eram fantásticos. É com muito orgulho que estou cá desde o primeiro dia. Conheço toda a gente. Venho para cá há 64 edições, são 30 anos.” Fala-nos da história da ModaLisboa à frente da própria Ana Salazar, que fez questão de assistir a estreia à solo de José Manuel Gonçalves no primeiro dia da semana de moda.
O oriente e a natureza
Este? Oeste? Que importa para onde apontamos nestes tempos sem bússola possível? “Nunca tinha desenvolvido nada parecido com o Oriente, não sei, foi um pouco instinto, achei interessante. Não foi uma coisa premeditada.”, admite Ricardo Andrez, explicando como o gancho se impôs um pouco por acaso, sem excessivas camadas de leitura. Depois da novidade das malhas, na edição anterior, o designer atirou-se, assim, ao jacquard oriental, uma missão espinhosa, já que trabalhar este material não é pêra doce — a começar pelas luvas. “A ideia era desconstruir a rigidez do quimono e do povo oriental e aplicar esta coisa nova na minha estética, achei o material tão delicado, e ele era super difícil de trabalhar, ainda por cima. Imagina, aquilo desfiava-se tudo enquanto cosíamos e e nós a passarmo-nos, mas dar a volta também faz parte do processo. E um desafio”. Quanto ao resto, manteve-se na sua “zona de conforto” mantendo todos os elementos que tem vindo a trabalhar e que fazia questão de manter. “As gangas, sempre, explorando os tingimentos em metade das pernas ou zonas superiores apenas, o retorcido caminho dos folhos e ainda um toque de veludo.”
Depois da temporada a dar aulas no âmbito de um projeto de streetwear no Algarve, Andrez está de volta a Lisboa. “O meu foco agora é acabar de fotografar a coleção e tentar apresentar em vários locais nacionais e internacionais a ver se alguma coisa surge.” Esse é, aliás, um dos maiores desafios de uma marca que “tem estado a correr bem”: o escoamento. “Precisamos de mais pontos de venda. Desde a última season para esta é o que sinto de maior preocupação identitária. As coisas não avançam. Há sete, oito anos ainda existiam algumas lojas de autor no Porto e hoje não há nada. Essas lojas de nicho deixaram de existir.”
A apresentação da coleção da Kolovrat começou com uma experiência sensorial. Com as luzes ainda apagadas, todos os looks entraram na passarelle. Lidija Kolovrat surgiu a borrifar perfume e iluminar com uma lanterna cada peça. Ao fundo ouvia-se o mantra da coleção. “I am the tree, we are the forest”. “A inspiração é a natureza, a direção“, explica ao Observador a criadora de moda. “Foi criado um perfume para nos levar para a floresta. Chama-se Walking Tree”, diz a designer, que tem a intenção de levar a fragrância para o público. “Isto foi o primeiro passo”.
Durante o desfile saltaram à vista padrões que imitavam os enrugados das cascas das árvores ou os veios dos galhos e das folhas. Tecidos estruturados dividiram espaço com texturas mais fluídas e transparências. Nos cortes, o destaque vai para as calças volumosas, os fatos oversized e os vestidos leves. A meio do desfile a bailarina Ana Lacerda surgiu entre as modelos, a desfilar um look da coleção entre movimentos de dança. “Desfilou para mim no meu primeiro desfile na ModaLisboa”, diz Lidija Kolovrat. “Aquilo que eu vi é que as pessoas ficaram muito emocionadas”, conclui a designer.
▲ Ricardo Andrez e o seu jacquard oriental, a bailarina Ana Lacerda no desfile da Kolovrat, Lidija Kolovrat participou no próprio desfile, a mensagem final da exibição de DuarteHajime
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
DuarteHajime também seguiu o curso das inspirações japonesas, como já é habitual, e partilha a história de um Samurai. Na linha desportiva e sem género, surgem blusões e calças soltas, combinados com camisões, quimonos, blusas cropped e tricô. As cores ficaram entre o preto, o verde e o vermelho, em padrões desenvolvidos pela própria Ana Duarte. “Queria dois padrões diferentes. O primeiro era para mostrar a parte mais da natureza e tinha o sapo samurai, que parecia um camuflado, e depois tinha a parte do demónio Oni, que era em vermelhos, para mostrar a força e o poder”, conta-nos a designer.
Ao final do desfile, o último manequim transformou-se na passarelle. Vestiu um capuz vermelho, retirou as roupas e deixou à mostra no peito uma mensagem: “Even in darkness the heart remembers the light“. “Queria passar que mesmo na escuridão há sempre luz. Temos sempre que sonhar e manter a esperança acesa não importa os tempos que passemos. Somos humanos, erramos, neste caso o meu samurai tinha se transformado em demónio mas ia voltar à casa, para defender a sua vila”. Uma forma de usar a moda para também falar da atualidade. “Guerra graças a Deus nunca foi uma coisa presente comigo, mas vou acompanhando e quero trazer luz.”
Moda como expressão política e atitude punk
O regresso de Nuno Baltazar à ModaLisboa depois de um ano de “pausa” veio acompanhado de uma coleção statement. As primeiras modelos entraram na passarelle a usar máscaras pretas em crochê, com chifres, uma leitura que para o designer é “a personificação do mal”. “O mal pratica-se com muito orgulho. E a pior pessoa do mundo consegue ser pior todos os dias. Estamos a assistir a isso. E é preciso ter coragem para arrancar esta máscara e não deixar que ela se cole à nossa pele. Aquilo era claramente uma referência ao facto de o Trump ter vencido as eleições norte-americanas e àquilo que está a provocar pelo mundo todos os dias”, explica Nuno Baltazar, tal como já tinha antecipado ao Observador. As máscaras são criações da artista plástica Matilde Ramos. “Passei-lhe o conceito e desafiei-a a desenhar e a construir manualmente estas máscaras para o desfile”, conta.
▲ As máscaras statement de Nuno Baltazar
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
As mensagens políticas não ficam só pelo acessório. A segunda modelo a pisar à passarelle trazia escrita na mão a frase “Proudly from Ukraine”. Eram duas manequins ucranianas a desfilar a coleção e que tiveram espaço para a manifestação. “Isso foi decidido hoje”, conta-nos Nuno Baltazar. “Quando elas me disseram que são da Ucrânia eu disse-lhes que esta coleção era também sobre statements, elas aceitaram até com alguma emoção e gratidão pela oportunidade de trazerem [estas mensagens] para um palco como este; por perceberem que estamos todos atentos e que eles não estão sozinhos.”
A apresentação teve um tom sóbrio e quase de luto, com arte de maquilhagem ajustada: as modelos tinham lágrimas nos olhos. A coleção destaca-se pela ausência de cor, como o designer já nos tinha antecipado — pretos e off whites e algum brilho que reforça a identidade já conhecida de Nuno Baltazar. Nos cortes, a ideia do intervalo via-se nas peças vestidas pela metade, como os vestidos que serviam quase como saias com os tops e alças pendurados, ou nos forros e costuras à mostra. Entre as modelos, quase todas na casa dos 20 anos, destacou-se a participação de Rita Fortes, diretora comercial na Riopele, e que também já trabalhou como modelo. “Há muitos anos que não é modelo, tem quarenta e poucos anos, e tem feito os meus desfiles já há 5 ou 6 anos”, conta-nos o designer. “Tento sempre o máximo de diversidade que posso e ainda assim nunca chega.”
Sempre adjuvado pela sua joalharia, movendo-se entre a moda e a arte contemporânea, Valentim Quaresma increveu-se numa toada que pede agitação à altura dos tempos. Ao leme dos cabelos, Helena Vaz Pereira assinou os penteados moicanos que defenderam o regresso a uma atitude punk, e a uma rebeldia capaz de enfrentar, e afrontar, os desafios que se apresentam.
Nesta que Eduarda Abbondanza considera uma das melhores edições de sempre, a presidente da Associação ModaLisboa destaca os eventos off location. A poucos passos do Pátio da Galé, atravessando o arco da Augusta, foi no MUDE, o Museu de Design, que decorreu o primeiro evento/mostra de domingo, a cargo da Portuguese Soul, que juntou nove marcas de sapatos portuguesas, como Miguel Vieira ou Sanjo. Os visitantes fizeram fila à porta do museu para apreciar as novidades em couro. Depois da performance de Constança Entrudo no primeiro dia, esta foi mais uma prova de que a arte e a moda combinam e mais, fundem-se. A olhar para o futuro, a ModaLisboa também foi espaço de celebrar criadores jovens nos desfiles Workstation e alavancar a carreira das promessas dos Sangue Novo. Para regressos como o de José Manuel Gonçalves, pela primeira vez a solo, mas também para aparentes soft endings, como foi o caso da coleção de Luís Buchinho, uma celebração dos 35 anos de carreira que, admite o designer, pode mesmo ser a última. “Para marcas como a minha o futuro não é risonho. Estamos completamente dominados pelas multinacionais que trabalham alta gama e baixa gama. E nós no meio estamos a ficar com menos coisas”, disse ao Observador, ao final do desfile.
O último desfile do domingo ficou a cargo de Dino Alves, que derrubou as paredes que separam passarelle e backstage e deixou o público assistir às emoções dos bastidores, desde a ansiedade e os preparativos antes dos modelos entrarem no palco até à correria que se segue assim que saem do desfile. A coleção trouxe tecidos estruturados, com muito volume e acolchoados que acabavam por fazer a modelagem das peças. Em contrapartida texturas como o tule faziam o contraponto, com a ousadia delicada das transparências. Ao fim da apresentação de “Fora de Série”, Dino Alves praticamente não conseguiu chegar até o fim da passarelle, tal a avalanche de saudações do público. Uma despedida em cheio para esta ModaLisboa, que agora fecha as portas e volta só depois do verão.