É praticamente um parlamento “revolucionário”, o que resulta das eleições históricas de domingo na Síria. No primeiro sufrágio após o fim reinado de 54 anos da família Assad, a Assembleia Popular — órgão que assegura a legislatura na transição do poder dinástico para os “rebeldes” que destituíram Bashar al-Assad — venceu uma maioria muçulmana sunita do país que lutou durante os anos da revolução.
Num processo eleitoral em que não houve voto direto mas “colégios eleitorais” a escolher os deputados para dois terços (140) dos 210 lugares e o Presidente interino Ahmed al-Sharaa vai nomear os restantes 70 lugares, os resultados revelam a baixa representatividade das mulheres e minorias do país. Só 4% dos 119 membros escolhidos no voto indireto foram mulheres e há apenas dez parlamentares de minorias étnicas e religiosas — só dois cristãos foram eleitos, tal como apenas dois alauitas (ramificação xiita, a que pertence Assad) — , anunciou na segunda-feira o porta-voz do Comité Supremo para as Eleições Populares, em conferência de imprensa. Números que têm suscitado críticas sobre a falta de inclusão no processo, o que foi, de certo modo, admitido por Nawar Najmeh.
A percentagem de mulheres no parlamento “não é proporcional ao status das mulheres na sociedade síria e ao seu papel na vida política, social e económica”, referiu o porta-voz, citado pela agência de notícias Reuters. Por outro lado, considerou a representação cristã “fraca, tendo em conta a proporção de cristãos na Síria.” Realçou, no entanto, que 4% dos lugares serão ocupados por pessoas com deficiência e feridos durante os quase 14 anos de guerra civil durante o regime Assad.
Najmeh diz, contudo, que as eleições foram justas e transparentes, apesar de reconhecer que limitações nos dados da população afetaram a distribuição de lugares para várias regiões. Aliás, em algumas zonas do país, onde vivem os curdos e os drusos, os eleitores não foram às urnas, já que não são controladas pelo atual governo, e vivem sob alguma instabilidade. Não serão assim ocupados 21 assentos da Assembleia que lhes eram destinados.
“Se perguntarem aos drusos no sul ou aos curdos no norte, eles dirão que (as eleições) não foram representativas”, mas “se perguntarem a pessoas nas grandes cidades, como Aleppo, Damasco, Hama, e outras partes do país, estão esperançosos de que esta será a primeira experiência de uma eleição real”, sublinhou Osama Bin Javaid, correspondente da Aljazeera em Damasco.
As votações de domingo contaram com 6,000 membros de colégios eleitorais regionais a escolherem candidatos de listas previamente aprovadas, num país com 24 milhões de pessoas. Uma das principais tarefas do novo parlamento será redigir uma nova constituição para o país e preparar eleições públicas diretas.
Ainda antes dos resultados oficiais, estas eleições já suscitavam críticas, apesar de darem sinais promissores de alguma estabilidade no país dominado há tantos anos por destruição e conflitos sob a liderança rígida de Assad. Ao processo eleitoral foi apontada falta de democracia, já que 1/3 dos deputados será indicado por Ahmed al-Sharaa, por exemplo, e foram colégios eleitorais a votar e não diretamente a população (aliás, as regras previam que as mulheres estivessem em 20% dos colégios eleitorais, o que não aconteceu).
Porém, Najmeh afirmou que “cada deputado eleito representa todos os sírios, independentemente da sua filiação”. Uma frase que está alinhada com o discurso de Ahmed al-Sharaa nas Nações Unidas recentemente, em setembro. Na primeira intervenção de um Presidente sírio em 60 anos na Assembleia Geral da ONU, o líder da Síria disse que o país se está agora a “reconstruir ao estabelecer um novo estado, construindo instituições e leis que garantam os direitos de todos sem exceção”.
Texto editado por Dulce Neto