Final de tarde cheio para Carlos Moedas e logo em Arroios, uma freguesia que, há quatro anos, foi decisiva para a vitória da coligação “Novos Tempos”. O candidato social-democrata fez uma arruada desde Alameda Dom Afonso Henriques até à praça Paiva Couceiro, percorrendo toda a Rua Morais Soares. Sempre com uma boa moldura humana a apoiá-lo, teve três convidados de honra: Paulo Portas, o ministro Gonçalo Matias e o eurodeputado Sebastião Bugalho. Minutos antes, Alexandra Leitão tinha descido a mesma Morais Soares, numa caravana preenchida mas bem mais modesta do que a do social-democrata. Ponto para Moedas.
Apesar de tudo, o grande destaque da tarde de campanha de Moedas foi mesmo a presença de Paulo Portas. O antigo vice primeiro-ministro, que fez apenas um terço do percurso, apareceu, não exatamente para estragar a festa da coligação que junta PSD, CDS e IL, mas para deixar uma aviso muito claro à navegação: todos os votos contam e a corrida está muito renhida.
“Carlos Moedas merece ter melhores condições para fazer o trabalho dele. Por um voto se ganha, por um voto se perde. Há quatro anos, ganhou por menos de 3 mil votos. As pessoas que acham que isto está ganho, estão enganadas. A eleição está renhida”, alertou o antigo vice primeiro-ministro.
Há quatro anos, um das causas da vitória de Carlos Moedas foi, precisamente, a forte desmobilização dos eleitores de Fernando Medina. Aliás, o socialista perdeu mais votos do que aqueles que coligação de direita conseguiu ganhar face às autárquicas de 2017. Medina perdeu mais de 25 mil votos contra os quase 3 mil que Moedas conseguiu somar face ao resultado anterior de Teresa Leal Coelho. É contra essa ideia de que a vitória é um dado adquirido que a equipa do social-democrata tem procurado fazer campanha desde o primeiro momento.
“A minha adversária tem projeto de ódio contra nosso modelo de sociedade”
Alguns minutos depois, já na Paiva Couceiro, onde a campanha de Moedas improvisou um palco para que Bugalho, Matias e Moedas pudessem discursar, os três sociais-democratas acabaram por, de uma forma ou de outra, repetir aquilo que Paulo Portas tinha dito: nada está garantido e se os eleitores não se mobilizarem há o risco claro de a cidade voltar a ser um bastião socialista.
O primeiro a intervir foi Sebastião Bugalho, que começou por visar diretamente a adversária, Alexandra Leitão. “Carlos Moedas está de corpo e alma em Lisboa. Não muda de opinião sobre aquilo que quer”, atirou o eurodeputado, para depois estender a crítica a todos os oponentes. “Os nossos adversários à direita precisam dos problemas para terem uma razão de existência. Os nossos adversários à esquerda têm medo dos problemas. Temos o único candidato que enfrenta os problemas porque tem soluções para eles”, atira Bugalho.
Seguiu-se Gonçalo Matias, ministro Adjunto e da Reforma do Estado. “Não interrompam o trabalho extraordinário que Carlos Moedas está a fazer em Lisboa. Em quatro anos, mudou a face da cidade, tal como estamos a fazer no Estado”, pediu o governante, dizendo que seria uma “injustiça enorme” se Moedas não vencesse esta eleição.
No último discurso da tarde, Carlos Moedas, e como tem feito ao longo dos últimos dias, voltou a dizer que Alexandra Leitão não tem qualquer ideia para a cidade. Mas, desta vez, carregou nas tintas: “A minha adversária tem um projeto de ódio contra o presidente e, de certa forma, contra o nosso projeto de sociedade”, acusou o social-democrata.
Antes de discursar na Paiva Couceiro, Carlos Moedas já tinha falado aos jornalistas na Alameda Dom Afonso Henriques. Nessas declarações, o social-democrata recuperou, no essencial, as críticas que tinha feito de véspera a Alexandra Leitão. Para Moedas, a socialista representa um “radicalismo” aditivado pelos seus “sócios”, Bloco de Esquerda e Livre.
O atual presidente da Câmara Municipal de Lisboa voltou a dizer que a socialista participou em manifestações contra a polícia, acusou-a de ser contra a regulação da imigração, de nada dizer contra os atos de vandalismo nas manifestações por Gaza e de se ter juntado aos mesmos que cercaram os candidatos depois do debate na RTP. “Nós estamos do lado da lei e da ordem. Um presidente da Câmara que não se preocupe com a segurança, não é um bom presidente da Câmara.”
O social-democrata foi ainda desafiado a dizer se não sente falta de Pedro Passos Coelho, que esta manhã, e ao contrário do que aconteceu na Amadora e em Sintra, fez saber que não tenciona aparecer ao lado de Moedas em Lisboa. “Os meus amigos, quando podem, estão presentes. Às vezes não estão presentes, mas não quer dizer que não me apoiem, Passos Coelho fez-me um elogio, apoiou-me e desejou que eu ganhasse”, sublinhou Carlos Moedas.
A verdade é que a relação entre os dois já conheceu melhores dias. Foi graças a Pedro Passos Coelho que Carlos Moedas se tornou comissário europeu. Depois disso, e já com António Costa como primeiro-ministro, Passos não gostou que social-democrata e socialista trocassem elogios públicos. Quando foi convidado um dos livros do agora autarca, Passos fez questão de servir uma pequena vingança que os afastaria ainda mais: revelou publicamente que o então presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, queria, na verdade, Maria Luís Albuquerque e que Moedas fora uma segunda opção.
Mais tarde, Moedas avançou para a Câmara de Lisboa com a bênção de Rui Rio e sem ter procurado informar o antigo primeiro-ministro, o que provou que os dois já não eram, afinal, assim tão próximos. Quatro anos depois, Passos limitou-se a desejar “toda a sorte do mundo“, dizendo não poder estar “em todo o lado”. Amanhã, quarta-feira, estará de novo com Marco Almeida, num jantar em Sintra.
[Há um novo candidato a Belém. Soares fica em choque com o anúncio do amigo que considera irmão. Freitas elege Zenha como principal adversário. A “Eleição Mais Louca de Sempre” é o novo Podcast Plus do Observador sobre as Presidenciais de 1986. Uma série narrada pelo ator Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Úria. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir o primeiro episódio aqui.]