Mark Bray, professor de história da Universidade de Rutgers, em Nova Jérsia, e especialista em antifascismo, foi impedido de embarcar para Espanha com a respetiva família na noite desta quarta-feira, depois de a reserva do voo ter sido cancelada inesperadamente. O episódio, segundo o Guardian, ocorreu algumas horas após o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter promovido um debate na Casa Branca sobre o movimento de extrema-esquerda Antifa e acontece no contexto de uma vaga de ameaças de morte contra Bray, que decidiu deixar os Estados Unidos por falta de segurança.
Bray, autor do livro The Anti-Fascist Handbook (2017) e professor de cursos sobre antifascismo na Rutgers, relatou o sucedido na rede social Bluesky. “‘Alguém’ cancelou o voo da minha família para fora do país no último segundo. Já tínhamos os cartões de embarque, despachado as malas e passado pela segurança. Depois, no portão de embarque, a nossa reserva simplesmente “desapareceu’“, escreveu o professor, acrescentando que ficou sem explicações da companhia aérea.
“Someone” cancelled my family’s flight out of the country at the last second.We got our boarding passes. We checked our bags. Went through security. Then at our gate our reservation ‘disappeared.’
— Mark Bray (@mark-bray.bsky.social) 2025-10-08T23:57:13.680Z
O professor universitário contou, também, que o cancelamento ocorreu “depois de semanas de ameaças e assédio online“, o que, segundo afirmou, “parece ser tudo menos coincidência”. Bray acrescentou que a companhia aérea remarcou o voo para a noite de quinta-feira, mas confessou suspeitar de motivações políticas: “Posso soar conspirativo, mas não acredito que isto seja coincidência. Estamos num hotel e vamos tentar novamente amanhã”.
O académico, que alguns estudantes apelidam de “Dr. Antifa”, disse que queria sair dos Estados Unidos “por não se sentir seguro em casa”, na sequência de uma série de ameaças de morte. “Desde que a minha morada foi publicada nas redes sociais, a minha família e eu deixámos de ter paz. Por isso decidimos mudar-nos para a Europa durante o próximo ano”, escreveu num e-mail enviado aos alunos no domingo citado pelo Washington Post.
De acordo com o mesmo jornal norte-americano, Mark Bray recebeu pelo menos três ameaças de morte desde o dia 26 de setembro, incluindo uma mensagem que prometia matá-lo em frente aos seus alunos. Estas ameaças começaram a surgir após as declarações que fez sobre o decreto de Donald Trump que classificou o movimento Antifa de organização terrorista, em consequência da morte do ativista Charlie Kirk.
Trump declara Antifa como organização terrorista após assassinato de Kirk
Numa dessas declarações, Bray descreveu o movimento como “uma espécie de coligação de radicais de diferentes correntes políticas” e esclareceu que “o Antifa não é um grupo formal, mas sim um movimento descentralizado de resistência ao fascismo”.
Após as afirmações, vários grupos e influencers de extrema-direita intensificaram os ataques ao professor da Rutgers. Jack Posobiec, um dos mais conhecidos apoiantes de Trump, referiu-se a Bray como “o professor terrorista doméstico” e a filial da organização conservadora Turning Point USA na Rutgers lançou uma petição a exigir o despedimento de Bray, acusando-o de ser “um membro conhecido da Antifa” e “um perigo para a segurança dos estudantes”.
Bray rejeitou todas as acusações de que foi alvo. “O meu papel nisto é o de professor. Nunca fiz parte de um grupo Antifa, nem [faço] atualmente. Há um esforço para me pintar como alguém que pratica aquilo que investigo, mas isso está muito longe da verdade”, disse ao New York Times poucas horas antes de ser impedido de embarcar.
[Há um novo candidato a Belém. Soares fica em choque com o anúncio do amigo que considera irmão. Freitas elege Zenha como principal adversário. A “Eleição Mais Louca de Sempre” é o novo Podcast Plus do Observador sobre as Presidenciais de 1986. Uma série narrada pelo ator Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Úria. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir o primeiro episódio aqui.]
“Ensinar sobre o antifascismo é, para alguns, um ato político”. Professor é alvo de polémicas há pelo menos oito anos
Bray tornou-se alvo de polémicas em vários meios conservadores desde 2017, quando publicou o livro sobre o antifascismo. Na altura, o professor explicou, em algumas entrevistas, que o seu trabalho “não é um manifesto político, mas uma análise histórica do antifascismo desde a Segunda Guerra Mundial”. De acordo com os meios de comunicação social norte-americanos, o livro, amplamente debatido no país, tornou-se uma referência no estudo da resistência antifascista contemporânea, mas também um ponto de controvérsia entre setores da direita norte-americana.
O ambiente tenso agravou-se após o assassinato de Charlie Kirk, fundador da Turning Point USA. Em reação ao homicídio, diversos influencers de direita associaram o movimento Antifa ao crime e insinuaram ligações de Bray ao incidente. Embora não haja qualquer prova de envolvimento, esta narrativa levou ao aumento do assédio online contra o professor.
Por seu turno, a Universidade de Rutgers, contactada pelos meios de comunicação, recusou comentar o caso. “A Rutgers University não comenta questões pessoais ou conduta estudantil“, afirmou em comunicado, acrescentando que “está comprometida em proporcionar um ambiente seguro para aprender, ensinar, trabalhar e investigar, onde todos os membros da comunidade possam expressar as suas opiniões sem medo de intimidação ou assédio”.
A mudança para Espanha tinha como objetivo garantir a segurança da família de Bray enquanto o professor continuaria a lecionar de forma remota. “Vou manter o meu compromisso com os alunos e com o ensino, mesmo à distância. Mas é triste que o estudo do antifascismo nos Estados Unidos, em 2025, se tenha tornado um risco pessoal”, declarou, no domingo, ao Washington Post.
“Ensinar sobre o antifascismo é, para alguns, um ato político. Para mim, é simplesmente parte da história contemporânea. No entanto, neste clima político, até a história parece perigosa“, concluiu o professor.