O enviado especial de Trump para a Europa de Leste, John Coale, propôs a Donald Trump aliviar as sanções à Rússia se o Kremlin libertar alguns presos políticos. A revelação foi feita pelo Atlantic, que dá conta que o Presidente norte-americano concordou com a proposta e que esta está numa fase inicial.
“Tudo isto funciona para a possibilidade de paz”, afirmou Coale ao Atlantic. “Quanto maior for a interação e quanto mais trocas existirem — sejam económicas, de prisioneiros ou de qualquer outro tipo —, mais nos aproximamos, passo a passo, e com sorte, da paz. É essa, no fundo, a missão”, acrescentou.
Segundo a publicação, a proposta “ajudaria” Trump a levar avante várias propostas de uma vez, incluindo a reintegração da Rússia na economia global e a “ampliação das negociações de Trump com o Kremlin além da guerra intratável na Ucrânia”.
Além disso, iria possibilitar a assinatura de “acordos lucrativos envolvendo o petróleo russo, diesel, minerais de terras raras e outras matérias-primas” e reforçar os argumentos de Washington para a atribuição do Nobel da Paz a Trump, com a libertação de presos políticos.
De acordo com o plano, a introdução do tema dos presos políticos iria dar a Putin “uma forma fácil de demonstrar boa vontade e criar novos sinais de progresso diplomático”, mesmo com a continuação dos ataques contra a Ucrânia.
A “magia dos negócios”
Coale aplicou previamente esta estratégia na Bielorrússia, no ano passado, onde a libertação de cerca de 500 presos políticos por parte de Alexandr Lukashenko, incluindo vários norte-americanos, possibilitou o alívio de algumas sanções por parte de Washington.
No entanto, uma solução do género para a Rússia pode enfrentar a oposição de Kiev e dos parceiros europeus, sobretudo porque pode “canalizar dinheiro para o exército russo mesmo se continuar a aterrorizar a Ucrânia e a ameaçar uma guerra mais ampla contra os aliados dos Estados Unidos na Europa“. Mesmo na Bielorrússia, Svetlana Tikhanovskaya, líder da oposição, manifesta desconfiança em relação a uma solução desta natureza, referindo que a troca de prisioneiros “apenas encorajará os regimes na Rússia e na Bielorrússia a fazerem mais prisioneiros”.
“Podem sempre prender mais pessoas, enquanto o Ocidente perde a sua capacidade de pressão sobre estes regimes ao levantar sanções e fazer acordos”, afirmou ao jornal.
Este mês, Donald Trump anunciou a negociação de um acordo comercial com a Bielorrússia para a importação de potássio, usado para a agricultura e pecuária, resultado “em grande parte do trabalho de Coale”.
“Se o Ocidente está a comprar potássio, então tem de lidar com os russos e com os bielorrussos. Por isso, sentamo-nos à mesa e regateamos o preço ou encontramos as rotas para o escoar”, referiu Coale, que defendeu que a experiência bielorrussa ajudou a melhorar as relações entre os dois países ao obrigar Washington a fazer concessões e a ajudar na organização da cimeira do Alasca, no ano passado, entre Putin e Trump.
Da parte da Ucrânia, os negociadores de Kiev não se mostram muito otimistas em relação a acordos entre os Estados Unidos e a Rússia antes de um acordo de paz. Ao Atlantic, mostraram-se “consternados” ao verem que os enviados de Trump — Steve Witkoff e Jared Kushner — terão usado as viagens a Moscovo para “promover negócios”. No entanto, um dos negociadores afirma que os enviados de Trump não pretendem negociar com Moscovo até ao estabelecimento de um cessar-fogo parcial.
“[Os norte-americanos] acreditam na magia dos negócios. Acham que, se fizerem estes acordos comerciais, os russos não voltarão a cair no militarismo”, referiu um dos negociadores.
O medalhão de Reagan
A proposta de Coale surgiu num encontro com o Nobel da Paz de 2021 Dmitry Muratov, dissidente russo e jornalista da Novaya Gazeta, que teve lugar em maio de 2026, refere o Atlantic. Muratov pediu para se encontrar com Coale após o enviado de Trump ter conseguido negociar a libertação de presos políticos na Bielorrússia.
A proposta baseia-se numa prática levada a cabo entre Mikhail Gorbatchov e Ronald Reagan, durante o final dos anos 80, em que o líder soviético aceitava a libertação de dissidentes políticos, que criava uma “dimensão humanitária” nos esforços de redução da tensão entre as duas superpotências.
Após o colapso da União Soviética, em 1991, Gorbatchov fundou com Dmitry Muratov o jornal Novaya Gazeta, que, devido à sua postura independente em relação ao poder político e às suas reportagens de investigação, viu muitos dos seus jornalistas perseguidos e até mortos, como Anna Politkovskaya, assassinada em 2007, que investigou os crimes de guerra cometidos durante a Segunda Guerra da Chechénia, entre 1999 e 2005, e as restrições às liberdades e direitos por parte de Vladimir Putin.
Antes da morte de Gorbatchov, em agosto de 2022, o antigo líder soviético ofereceu a Muratov um medalhão que havia sido concedido por Reagan numa cimeira, e que o jornalista deu a Coale num encontro em Washington com o enviado especial. O objeto foi dado como “um gesto de admiração pelos seus esforços na Bielorrússia”.
Nesse encontro em maio, Muratov levou fotografias de dissidentes políticos presos na Rússia, com Coale a referir que, com a amnistia bielorrussa, sentiu um “novo sentido de missão” e aceitou replicar a abordagem com a Rússia. Após o encontro, apresentou o plano a Trump, que foi aceite.
Os próximos passos
Coale foi nomeado na segunda-feira enviado presidencial especial para os assuntos de reféns, com a patente de embaixador, algo que exige votação por parte do Senado. Um responsável da Casa Branca mostrou-se otimista em relação à postura norte-americana sobre o conflito na Ucrânia e sublinhou o “papel construtivo” de Washington.
“O Presidente e a sua equipa mantêm-se empenhados em continuar a desempenhar um papel construtivo para pôr fim à guerra entre a Rússia e a Ucrânia e ele continua otimista de que acabaremos por alcançar um acordo de paz“, referiu ao Atlantic.
O plano de Coale deverá ser articulado com Steve Witkoff, que tem sido, juntamente com Kushner, o “principal ponto de contacto de Trump com os russos”, sublinha o jornal, e cuja visita no início de setembro possibilitou a libertação de um professor norte-americano preso na Rússia desde 2022.
Nos últimos meses, a Rússia intensificou os ataques à Ucrânia, sobretudo a Kiev. A nova onda de ataques tem sido acompanhada de propostas de cessar-fogo e de uma proposta de encontro trilateral, para discutir um cessar-fogo limitado, especialmente em matéria energética.
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