Primeiro a Covid-19, depois a invasão russa. Enquanto mísseis do país vizinho inimigo caem sobre cidades ucranianas, um homem dedica-se a salvar uma das espécies mais pequenas e vulneráveis do país: o hamster-europeu. Chama-se Mikhail Rusin, é um biólogo de 41 anos, responsável pelo programa de criação do Jardim Zoológico de Kiev, e tornou-se o maior defensor destes roedores em vias de extinção — uma missão que insiste em cumprir mesmo nas piores circunstâncias, relatou o National Geography Portugal. Mesmo arriscando a vida ao tentar realojá-los em campos minados, em terrenos alvo da artilharia russa ou dos drones militares, ou em zonas sob ataques russos.

Em fevereiro de 2023, Kiev mergulhou num dos invernos mais duros desde o início o início da guerra, em fevereiro de 2022. Sem aquecimento nem eletricidade durante quase uma semana e com temperaturas a rondar os dez graus negativos, Rusin não pensava apenas em proteger a sua família, mas também os hamsters ao seu cuidado. Os animais, em hibernação numa sala gelada do jardim zoológico, corriam o risco de não sobreviver se a temperatura descesse demasiado.

Os hamsters-europeus, diferentes das pequenas espécies domésticas oriundas da Síria e da Turquia, são animais robustos, de mau feitio e conhecidos pela sua coragem. Podem chegar ao tamanho de um porquinho-da-índia e, quando ameaçados, enfrentam até cães. Ainda assim, estão em declínio rápido. A União Internacional para a Conservação da Natureza classifica-os como estando “em perigo de extinção”, e na Ucrânia figuram no Livro Vermelho — a lista nacional de espécies raras e vulneráveis.

Desde 2020, Rusin liberta todos os anos hamsters na Estepe de Tarutino, uma vasta pradaria no sudoeste da Ucrânia, junto a Odessa. Fê-lo durante a pandemia e continuou após o início da guerra. Nesse tempo, viu amigos partirem para o combate, sofreu cortes salariais, perdeu rendimentos e viu destroços de drones caírem no próprio jardim zoológico. Ainda assim, nunca interrompeu o trabalho. “Alguns acham que é um desperdício de recursos”, diz, mas para ele cuidar dos hamsters é também uma forma de preservar a esperança. “É aqui que encontro a minha paz interior.”

O número destes animais caiu drasticamente nas últimas décadas. No passado, meio milhão de hamsters eram caçados todos os anos pelo valor do seu pêlo. Depois, a agricultura intensiva destruiu os seus habitats e reduziu as fontes de alimento. As monoculturas deixaram-nos sem refúgio e a guerra agravou a situação, com campos destruídos e explosões a varrerem as estepes, sem falar das minas. Em França, Alemanha, Polónia e Ucrânia, as populações diminuíram até 94% em algumas regiões.

Rusin foi convidado em 2019 para dirigir o programa de criação de hamsters no Jardim Zoológico de Kiev, inspirado por projetos semelhantes na Alemanha. Um ano depois, com o confinamento da Covid-19, teve de obter uma licença especial para poder continuar a deslocar-se ao trabalho e alimentar os animais. Dois anos mais tarde, quando a invasão russa começou, a sua luta tornou-se ainda mais difícil e urgente.

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Durante o inverno de 2023, o edifício que acolhia os hamsters ficou várias vezes sem aquecimento. No verão, ondas de calor e apagões elétricos voltaram a pôr em risco a sobrevivência dos animais. Num dos piores dias, a temperatura atingiu os 32 graus dentro do recinto. Vários hamsters morreram de sobreaquecimento, obrigando a equipa a transferir os sobreviventes para uma cave improvisada e, mais tarde, a evacuar novamente o espaço. “Os hamsters são muito vulneráveis ao stress”, lamenta Rusin. “Tivemos muitos ataques cardíacos.”

Apesar das perdas, o trabalho continua. Muitas populações do leste da Ucrânia já desapareceram, e há relatos de hamsters apanhados em trincheiras ou até mesmo mortos ou enforcados por soldados russos noticiou o Grupo de Conservação Ucraniana da Natureza. “Infelizmente, as pessoas são cruéis com muita frequência, especialmente na guerra”, lamenta o biólogo, que continua determinado a proteger os roedores mesmo em meio à destruição.

Mesmo assim, Rusin e os seus voluntários persistem. Em 2023, o biólogo criou o Centro de Resgate de Hamsters, que ensina voluntários a capturarem os animais em segurança em quintas e hortas, para depois os libertar em zonas protegidas. Um desses voluntários é o veterinário Artur Shabliian, que acolhe hamsters feridos na sua clínica e os reabilita antes de os devolver à natureza.

A missão, contudo, não é apenas ecológica — é também educativa. Rusin tenta mudar mentalidades numa sociedade onde muitos consideram os hamsters pragas agrícolas. Agricultores do oeste do país, cujas plantações são frequentemente destruídas, mostram resistência aos esforços de conservação. “Se gosta assim tanto deles, vá buscá-los aos nossos campos”, ouve com frequência. Foi exatamente o que fez.

Outros ucranianos começaram a seguir o seu exemplo. Viktor Ladynskyi, pai de duas filhas e residente numa vila nos Cárpatos, tornou-se voluntário após conhecer o projeto no Facebook. Numa região onde era comum envenenar ou matar hamsters, ele aprendeu com Rusin a capturá-los de forma segura e a libertá-los em locais apropriados. Apesar de viver numa zona afetada pela guerra, acolheu 27 refugiados e continua a ajudar animais. “As pessoas e os animais estão a morrer, as florestas estão a desaparecer, os campos estão a ser devastados”, diz. “Mas continuamos a viver, a aprender e a proteger.”

Para aumentar as hipóteses de sobrevivência, Rusin e os voluntários criam tocas artificiais e cobrem-nas com madeira ou garrafas cheias de terra, para que os hamsters se habituem ao novo ambiente antes de saírem. Ainda assim, muitos acabam por ser caçados ou morrer em confrontos com outros da mesma espécie. “Se libertarmos apenas um, não se reproduz; se libertarmos muitos, lutam entre si”, explica.

A dedicação de Mikhail Rusin e da sua equipa transformou-se num símbolo de resistência e humanidade em plena guerra. Nas redes sociais, o seu trabalho inspira cada vez mais voluntários e doadores. “Se não fosse eu, quem seria?”, pergunta o biólogo, consciente de que salvar hamsters é também salvar um pedaço da Ucrânia que resiste à destruição.

O projeto está a expandir-se na Ucrânia, com o objetivo de resolver conflitos entre humanos e animais selvagens.

Texto editado por Dulce Neto