Portugal destaca-se entre os países europeus com menor teor médio de sal em produtos de padaria, refeições pré-preparadas e queijos, e de açúcar em refrigerantes, bolos e bolachas, revela um relatório da Direção-Geral da Saúde (DGS).
Os dados são do Relatório Anual 2024 do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável (PNPAS) da DGS, divulgado no Dia Mundial da Alimentação, que realça os avanços na melhoria da oferta alimentar e uma maior capacidade de resposta dos Cuidados de Saúde Primários na área da nutrição.
Segundo o documento, Portugal encontra-se no conjunto de países europeus onde se verifica um menor teor médio de sal para as categorias de produtos de padaria, produtos processados à base de batata, refeições pré-preparadas enlatadas, refeições pré-preparadas frescas, e queijos e um menor teor médio de açúcar para as categorias dos refrigerantes e dos bolos e bolachas doces.
“Estes dados resultam de um esforço da União Europeia para ter um sistema de monitorização da oferta alimentar em todos os países da UE”, que acompanhe a evolução da composição dos alimentos nos diferentes países e perceber o impacto das diferentes medidas que estão a ser implementadas, disse à agência Lusa a diretora do PNPAS, Maria João Gregório.
Segundo a responsável, Portugal tem vindo a definir “uma estratégia forte na área da reformulação dos produtos alimentares”, em colaboração com o setor da indústria e da distribuição, que estará a contribuir para estes resultados.
[Apesar da euforia em torno de Freitas, Soares recupera. O debate com Zenha será decisivo. Quando acabar, nunca mais serão amigos. A “Eleição Mais Louca de Sempre” é o novo Podcast Plus do Observador sobre as Presidenciais de 1986. Uma série narrada pelo ator Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Úria. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir o primeiro episódio aqui e o segundo aqui]
No documento também é analisado o impacto do imposto especial de consumo sobre as bebidas açucaradas, verificando-se uma diminuição de 39% da proporção de bebidas com 8 gramas de açúcar por 100 mililitros, entre 2017 e 2024.
Maria João Gregório salientou que este imposto será “um dos fatores que terá contribuído para este resultado”. “Este efeito, mantido ao longo do tempo, demonstra o papel decisivo das políticas fiscais na promoção de ambientes alimentares mais saudáveis“, acrescenta o relatório.
A DGS salienta que nas categorias como cereais de pequeno-almoço, iogurtes e produtos de charcutaria, o teor médio de sal e açúcar continua acima da média europeia, demonstrando a necessidade de continuar a investir na reformulação dos produtos alimentares em Portugal.
Os resultados sugerem também que “as medidas regulatórias são mais efetivas do que os acordos voluntários, já que a redução de açúcar foi significativamente superior nos refrigerantes sujeitos à taxação (-25,7%) do que nas categorias apenas abrangidas por compromissos voluntários (-14,8%)”, acrescenta.
Pela primeira vez, este relatório inclui os dados relativos à resposta dos cuidados de saúde primários (CSP) na área da nutrição, revelando que, em 2024, foram realizadas quase 137 mil consultas, mais 30% comparativamente a 2022.
Em 2024, o número médio de dias desde a referenciação até à realização da consulta de nutrição foi de 94 dias, refere o documento, acrescentando que as consultas foram maioritariamente realizadas a mulheres com idades entre os 45 e os 59 anos.
Maria João Gregório apontou como positivo o aumento do número de consultas, mas considera que a capacidades de resposta nos CSP “ainda não é adequada”: “Temos ainda um tempo de espera entre o período de consulta e a efetivação dessa consulta, que ainda não é o desejável”.
Salientou o “papel fundamental” dos CSP na promoção de uma alimentação saudável e na prevenção e gestão de um conjunto muito alargado de doenças crónicas que representam a maioria da carga da doença em Portugal. “A resposta nesta área por parte da nutrição é, de facto, fundamental”, defendeu.
Os dados do registo do excesso de peso e da obesidade nos CSP mantêm uma evolução positiva, o que, segundo a DGS, “poderão representar uma melhoria do desempenho do SNS na identificação de pessoas com pré-obesidade e obesidade, bem como do seu registo como diagnóstico clínico”.
Em 2024, 36,7% dos doentes hospitalizados foram submetidos ao rastreio nutricional, totalizando 206.339 pacientes, dos quais 25,7% apresentavam risco nutricional.
“Ao longo dos últimos anos temos vindo progressivamente a melhorar a capacidade de resposta dos cuidados hospitalares para identificar o risco nutricional nos doentes hospitalizados e relativamente”, salientou a responsável.
Assinalou que a percentagem de doentes em risco nutricional são semelhantes a outros países e a diferentes estudos publicados: “Estamos a falar de risco nutricional numa população muito específica, que são doentes que estão em contexto de internamento hospitalar”, comentou.
Cereais integrais em falta e carne em excesso afetam anos de vida saudável
O baixo consumo de cereais integrais e o elevado consumo de carne vermelha e processada são os principais fatores que contribuem para a mortalidade e perda de anos de vida saudável em Portugal, segundo os mesmos dados.
“Em 2021, os hábitos alimentares inadequados dos portugueses foram o quinto fator de risco (5,8% do total de DALYs) que mais contribuiu para a perda de anos de vida saudável”, segundo o estudo Global Burden of Disease (GBD) presente no relatório. Relativamente à mortalidade, os hábitos alimentares inadequados foram o terceiro fator de risco que mais contribuiu para o total de mortes em Portugal em 2021 (8,3%).
Segundo o estudo, os fatores de risco que mais contribuem para o total de mortes por doenças cardiovasculares, diabetes e doenças renais e neoplasias são semelhantes aos verificados para a perda de anos de vida saudável, estando o baixo consumo de cereais integrais e de fruta e os elevados consumos de carne vermelha, carne processada e de sal entre os cinco primeiros fatores de risco alimentar.
Os dados do GBD mostram ainda que o elevado consumo de bebidas açucaradas (+37,13%), de carne vermelha (+22,53%), de carne processada (+21,59%) e o baixo consumo de hortícolas (+21,51%), foram os fatores de risco onde se verificou um maior aumento na perda de anos de vida saudável entre 2000 e 2021.
O relatório da DGS destaca também os resultados de um estudo da revista The Lancet em 2024, segundo o qual Portugal teria aproximadamente menos 13% de DALYs do que o esperado em 2050 se fossem eliminados, até essa data, fatores de risco.
Entre esses fatores de risco estão o índice de massa corporal elevado dos adultos, a pressão arterial elevada, o colesterol LDL elevado ou o tabagismo.
Outro estudo da mesma revista (2025) estima que em Portugal, até 2050, a prevalência de excesso de peso aumente 29,2% nas mulheres e 32,5% nos homens e a prevalência de obesidade aumente 52,3% nas mulheres e 77,8% nos homens face a 2021.
Relativamente à prevalência de obesidade, o relatório refere que se verificou, entre 1990 e 2021, um aumento percentual de 136,6% nas mulheres e de 214,7% nos homens entre 1990 e 2021. Em 2050, prevê-se que se registe um aumento desta prevalência em 52,3% nas mulheres e em 77,8% nos homens, face a 2021.
O relatório também analisou a evolução da prevalência de excesso de peso e obesidade infantil em crianças em idade escolar (6-9 anos), comparando as rondas 5 (2018-2020) e 6 (2022-2024) do estudo Childhood Obesity Surveillance Initiative (COSI) realizado em 28 países.
O estudo verificou um aumento para a maioria dos países da região europeia, incluindo Portugal, onde se registou uma subida da prevalência de excesso de peso nos rapazes (1,0 p.p.) e uma diminuição nas raparigas (-0,7 p.p.) entre as duas rondas.
Relativamente à prevalência de obesidade, observou-se um aumento de 1,1 p.p. nos rapazes e 2,1 p.p. nas raparigas. Contudo, diz a DGS, “as diferenças encontradas, para Portugal, entre as duas rondas não são estatisticamente significativas”.
Outros dados do relatório, que visa divulgar “a informação epidemiológica nacional mais recente relativa à área da alimentação e da nutrição”, revelam que o número de doentes saídos dos hospitais com registo de desnutrição foi de 7.485 em 2023, menos 10,6% face ano anterior, sendo a demora média de 20,72 dias.
Segundo o relatório, o maior número de doentes saídos com este registo clínico eram homens idosos.
Revela também uma diminuição de 4,17% do número de utentes saídos com registo de anorexia, que totalizaram 1.908 em 2023, face a 2022, sendo a demora média de 16,73 dias.
A maioria eram homens idosos e mulheres jovens (entre os 19 e os 39 anos).